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Operação Tiger: o dia em que os nazistas sem querer venceram o Dia D

A Operação Tiger foi um dos maiores fiascos da 2a Guerra Mundial, e por um momento pareceu que os alemães poderiam vencer na Normandia

24/08/2020 às 19:08

A Operação Tiger foi um dos ensaios para o Dia D, afinal você não espera que alguém organize a maior invasão anfíbia da História sem treinar antes, né? A realidade é que se fala pouco ou nada dos preparativos para o desembarque em 6 de junho de 1944.

Em abril de 1944 o treinamento das tropas estava cada vez mais intenso, isso incluía as tropas nos tanques Sherman DDs e nos barcos Higgins. A ideia era navegar no Canal da Mancha, com escolta de navios de guerra, simulando as manobras do ataque.

Como dificilmente Hitler deixaria os aliados treinarem na Normandia, e isso meio que entregaria o segredo, foi escolhida a Baía de Lyme, no sudoeste da Inglaterra.

No dia 27 de abril tudo estava pronto para um primeiro grande exercício, que seria bem realista, com direito ao uso de munição de verdade, e já deu pra ver o que vem por aí, né?

Para aclimatar os soldados o General Eisenhower determinou que a invasão simulada seria precedida de um bombardeio naval, mas problemas de logística atrasaram em uma hora o início das operações. Só que vários barcos de desembarque não foram avisados, e prosseguiram rumo à praia.

Tá tranquilo, tá sossegado

Chegaram, desembarcaram e logo foram surpreendidos por um maciço fogo de artilharia, cortesia das marinhas Britânica e Americana. Foram mais de 400 mortos, mas o pior ainda estava por vir.

No dia seguinte oito barcos de desembarque tipo LST (Landing Ship, Tank) rumavam rumo ao ponto de encontro aonde “invadiriam” a praia inglesa. Na frente deles uma fragata. Atrás deles, um espaço vazio aonde um destroier da 1ª Guerra Mundial deveria estar dando cobertura, mas havia sofrido danos e rumou para o porto.

De longe, acompanhando tudo sem entender nada, cinco Schnellboots, ou e-boats, como os aliados chamavam. Eram barcos de combate da marinha alemã, com 35 metros de comprimento, 89Km/h de velocidade máxima, alcance de até 1400Km e armados com torpedos e canhões de vários calibres.

Das boot

Eles não reconheceram os modelos dos barcos aliados, mas tinham a bandeira do inimigo, e pro Fritz isso bastava. Os nazistas atacaram os barcos, que não tinham escolta para se defender. Torpedos voavam para todos os lados, canhões disparavam, soldados que não sabiam usar seus coletes salva-vidas caíam na água.

Tanques eram liberados e afundavam, e a confusão foi tanta que os alemães chegaram a colidir com os americanos.

Tudo que tinha que dar errado deu errado. Até os kits de combate que os soldados levavam no peito, eram pesados demais então quando eles caíam na água, não conseguiam virar de costas, e se afogavam com a cara enfiada nas águas geladas. No final 248 corpos foram retirados das águas, enquanto os alemães, ainda confusos iam embora sem perder nada além das balas que deixaram para trás.

O Supremo-Comando Aliado ficou desesperado, os alemães tinham tomado conhecimento de ensaios para uma invasão. Foi cogitado adiar o Dia D, pois vários soldados com conhecimento e materiais relativos à Operação Overlord não haviam sido localizados, e os planos só seguiram depois que os dez corpos foram achados. Mesmo assim vários documentos nunca foram encontrados.

Algumas lições foram aprendidas; barcos de resgate foram designados para resgatar sobreviventes dos barcos de desembarque, coletes salva-vidas foram reprojetados e seu uso reforçado nos treinamentos, mas a principal medida foi o silêncio.

746 homens perderam a vida na Operação Tiger, fora 200 feridos. Um fiasco dessa escala, pouco tempo antes do Dia D seria terrível para a moral das tropas e da população. Todos os envolvidos foram obrigados a jurar silêncio. Quase nada foi divulgado, anotado, registrado. Mais que uma conspiração de silêncio, a Operação Tiger foi uma conspiração de esquecimento. Nenhum dos envolvidos queria lembrar que ela aconteceu. Até 1969.

Ken Small

Um sujeito chamado Ken Small adorava uma cidadezinha costeira inglesa chamada Torcross, e depois que conseguiu se mudar pra lá, fazia constantes passeios pela praia, tal qual uma coelhinha da Playboy (ei, eu lia as entrevistas delas atrás do pôster). Um dia depois de uma forte tempestade elee começou a achar moedas, munições, fivelas e outros objetos. Os moradores mais antigos explicaram que durante a Guerra o local tinha sido usado para exercícios militares.

Um amigo de Ken comentou que o fundo do mar ali era diferente, e que suas redes sempre ficavam presas em algo submerso a pouco menos de 1Km da costa. Curioso, Ken pediu a outro amigo que mergulhasse no tal local, e bingo! Um tanque Sherman, em 1974.

LST + Torpedo =

Ken começou a pesquisar e desencavou os detalhes esquecidos da Operação Tiger, forçando os governos aliados a reconhecer os acontecimentos de 30 anos antes.

Sem nenhuma experiência em resgates marítimos ou burocracia internacional, Ken começou a bater cabeça até conseguir comprar, por US$50,00 o tanque. Sim, alguém no Pentágono de saco cheio daquele sujeito maluco concordou em vender a um cara do outro lado do Atlântico um tanque no fundo do mar desde 1944.

Ken levou dez anos entre conseguir os fundos e achar quem topasse a empreitada, mas em 1984 o Sherman foi finalmente retirado do fundo do mar, e transformado em um memorial para os mortos da Operação Tiger.

Depois disso vários outros monumentos foram construídos, e a memória da Operação Tiger está protegida e preservada. Quanto a Ken Small, ele morreu em março de 2004, hoje está enterrado na igreja de Stokenham, não muito longe do tanque que por tantos anos ocupou sua vida.

Quando ao Dia D, spoiler: Nós vencemos, graças ao esforço de muita gente e ao sacrifício dos que morreram na Operação Tiger, mostrando algumas coisas que os aliados estavam fazendo errado.

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