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Viajando pela história dos games com High Score

Abordando os primórdios dos games, High Score é uma série documental da Netflix que agradará tanto o público mais novo, quanto aquele que viveu a sua época

25/08/2020 às 10:44

Para mim, uma das coisas mais legais da indústria de games é que, por mais que eu procure me informar, sempre consigo aprender coisas novas. São histórias que não conhecia, detalhes que nem sabia que existiam. Por isso estava aguardando ansiosamente pelo lançamento da série documental High Score (GDLK no Brasil), uma produção da Netflix que acabou se mostrando um dos mais interessantes documentários já feitos sobre o assunto.

High Score

Crédito: Divulgação/Netflix

Além de contar com um nível de produção bem acima do que costumamos ver em documentários sobre videogames, um dos maiores méritos de High Score é não focar tanto nos títulos, mas aproveitar a oportunidade para deixar que os game designers falassem sobre suas criações. Contando com entrevistas feitas principalmente no Japão e nos Estados Unidos, durante cerca de 4h30 ouviremos verdadeiras lendas da indústria, como Roberta Williams, Richard Garriott, John Romero, Tomohiro Nishikado, Akira Nishitani e Yoshitaka Amano.

Essa abordagem permitiu que Williams mostrasse o seu processo de criação, o que resultou no primeiro jogo para computador que contava com gráficos ou que Romero declarasse todo o seu espanto ao ver que John Carmack tinha conseguido reproduzir no PC o sistema de câmera que antes só existia nos consoles. Também mostrou como a paixão de Trip Hawkings pelo futebol americano o levou a fundar a Electronic Arts ou como, para demonstrar a velocidade de processamento do Mega Drive e conquistar os americanos, Hirokazu Yasuhara inspirou-se nas montanhas-russas para criar o jogo do Sonic.

No entanto, de todas as histórias contadas no documentário e narradas por Charles Martinet, também conhecido como “a voz do Mario”, uma das que mais me fascinou foi a do trio Doug Macrae, Steve Golson e Mike Horowitz, que no início da década de 80 conseguiu criar placas que alteravam a maneira como o clássico Missile Command funcionava. O objetivo deles com isso era tornar o jogo mais difícil, para que assim as pessoas passassem menos tempo no gabinete e o faturamento do título aumentasse. Eu não contarei o desfecho desta história, mas basta dizer que foi graças a eles que mais tarde a Midway surgiu com o Ms. Pac-man, sendo uma bela demonstração de como as coisas eram muito diferentes naquela época.

Alguns poderão argumentar que tudo isso já era conhecido, mas mesmo sem trazer nenhuma revelação bombástica, é muito provável que o High Score lhe apresente a um ou outro caso que não conhecia. Ou vai dizer que você sabia que Dylan Cuthbert e Giles Goddard, programadores responsáveis pelo chip SuperFX e Star Fox, tinham uma sala isolada no prédio da Nintendo, para onde Shigeru Miyamoto costumava fugir para poder fumar?

Yoshitaka Amano, criador dos personagens do Final Fantasy (Crédito: Reprodução/Netflixl)

Conteúdo demais, tempo de menos

Mas se o documentário possui uma falha que pode ser considerada grave,é no ritmo com que ele se desenrola. Abordar três décadas de história em tão pouco tempo é uma tarefa quase impossível e por diversas vezes senti como se a equipe tivesse sido obrigada a deixar muita coisa de fora.

Sem que a maioria dos temas tratados sejam aprofundados, quem não viveu aquela época ou não conhece tanto a história dos games poderá ficar um pouco perdido ou até mesmo aprender situações de maneira um tanto equivocadas. Peguemos por exemplo o terceiro capítulo, que fala sobre a guerra entre a SEGA e a Nintendo. Da maneira como a disputa nos é contada, fica parecendo que os criadores do Sonic só entraram para o ramo de consoles com o Mega Drive, além deles não falarem sobre o sucesso que este videogame fez em outras regiões.

Aliás, incomoda ver como High Score gira praticamente apenas em torno do mercado norte-americano, sem que nem mesmo o cenário europeu seja abordado. Eu imagino que isso se deva a alguma imposição por parte da Netflix, mas até por se tratar de uma documentário criado por uma equipe francesa, eu esperava que o Velho Continente fosse lembrado e recebesse pelo menos um episódio com entrevistas dos desenvolvedores locais.

Outro ponto a se lamentar é a maneira como alguns episódios foram editados, como no caso do primeiro, que começa falando sobre a trágica criação do jogo E.T. the Extra-Terrestrial, resvala nas competições que temos hoje em dia, para então nos introduzir ao Space Invaders e depois voltar à criação de Scott Warshaw, que acabou levando ao crash do mercado. Na minha opinião, uma narrativa mais linear cairia melhor, mesmo com o estilo adotado não chegando a estragar a experiência.

Gail "The Dragon Lady" Tilden, a responsável pelo sucesso do NES nos EUA (Crédito: Reprodução/Netflix).

As competições antes do eSports

E por falar em competições, é muito interessante ver que os criadores de High Score não ignoraram a maneira como as pessoas se enfrentavam nos videogames antigamente, muito antes do termos eSports ter sido cunhado. Do próprio fato dos jogos virem com um placar de pontuação, até a maneira como as fabricantes de consoles viram nesses torneios uma maneira de popularizar seus produtos, é fascinante notar como as disputas são parte intrínseca dos videogames.

Peguemos como exemplo o Nintendo World Championships, torneio organizado pela BigN e que tinha como objetivo encontrar o melhor jogador dos Estados Unidos (embora eles tipicamente o descrevessem como campeão mundial). Com etapas acontecendo em diversas cidades do país, toda criança queria fazer parte daquele evento e assim a popularidade do NES só aumentou.

Depois a SEGA usou o mesmo conceito, mas como o presidente da divisão americana da empresa queria alcançar um público mais velho, a final da competição foi realizada na famosa prisão de Alcatraz. Parece uma escolha bizarra hoje em dia? Pois foi considerada assim mesmo na época, mas até pela a transmissão tendo sido feita pela MTV, este foi outro evento que alcançou muito sucesso.

É muito legal ver as pessoas que venceram tais torneios falando sobre eles, além de várias imagens que foram resgatadas e que, ao serem colocadas ao lado dos super-campeonatos realizados atualmente, mostram que os jogos eletrônicos não evoluíram apenas na parte tecnológica. Eu só senti falta de mais atenção aos fliperamas, locais onde esses embates realmente nasceram e que por si só já renderiam um episódio inteiro.

Joe Ybarra, produtor do primeiro Madden (Crédito: Reprodução/Netflix).

Uma bela e saudosa viagem

Contando com um bom nível de humor, especialmente nas cenas animadas no estilo 8-bit, e uma qualidade de produção elevada, High Score consegue fazer uma bela homenagem à história dos videogames e a todos que cresceram admirando a mídia. Tratando do tema de uma maneira leve e saudosista, é praticamente impossível não nos prendermos aos episódios e assim como acontece com um bom jogo, ficar com vontade de “jogar só mais um pouquinho”.

Mas apesar de ser um documento histórico sobre a era dourada dos games, onde podemos ver, por exemplo, o merecido registro à genialidade de Jerry Lawson, “o pai dos cartuchos”, ou ao esforço de Gordon Bellamy para que jogadores negros fossem incluídos na série Madden, High Score é também uma defesa a aqueles que por muitos anos foram tratados como diferentes, simplesmente por gostarem de videogames. Mesmo que muitas vezes faça isso de forma um tanto tímida, a série tenta mostrar como os videogames podem dar espaço aos marginalizados e servir como uma válvula de escape, como uma maneira das pessoas fugirem para mundos onde não importa como elas são, parecem ou se posicionam.

Não dá para dizer que este é o documentário definitivo sobre os primórdios dos jogos eletrônicos, mas é bom ver um assunto que amamos ser tratado com carinho e gostei muito do que ele me entregou, principalmente da forma como me permitiu conhecer novas histórias e relembrar um passado que já está se mostrando tão distante. Só é uma pena que a série tenha acabado tão rápido, pois acho que ainda havia muito a ser contado e por isso ficarei na expectativa para que outras temporadas sejam produzidas.

PS: eu queria entender o que levou a Netflix a renomear o documentário para GDLK por aqui. Isso seria uma abreviação para Godlike, termo que significa algo muito bom e que tem sido usado pelo público mais novo em partidas online. O problema é que o nome original representa muito melhor a ideia da série, até por ela tratar de jogos antigos e ao adotar o novo nome por aqui, acredito que o serviço de streaming cometeu um grande equívoco.

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