Meio Bit » Ciência » Neuralink: Elon Musk quer espetar um chip no seu cérebro

Neuralink: Elon Musk quer espetar um chip no seu cérebro

Elon Musk apresentou os progressos feitos pela Neuralink sua empresa mais obscura. Será o suficiente para vencer a guerra contra a Inteligência Artificial?

31/08/2020 às 19:31

Há quem diga que a apresentação da Neuralink foi uma porcaria, e de um certo ponto de vista até foi, mas como nada foi vazado, quaisquer expectativas que não foram atendidas ficam a cargo do freguês. O que Elon Musk apresentou não foi revolucionário, mas evolucionário e isso é ótimo.

A Neuralink é uma empresa fundada por Elon Musk e mais oito outros, incluindo animadores, neurocientistas e artistas. O objetivo a longo prazo envolve uma das paranoias de Musk; a inevitável era da Inteligência Artificial.

Há um ramo da filosofia que acredita que a inteligência biológica que eu e você (ou só eu, se você veio do G1) temos é uma fase passageira, quando conseguirmos criar Inteligência Artificial ela evoluirá de forma exponencial, e nós nos tornaremos obsoletos, se humanos sobreviverem enquanto espécie, talvez seja na forma de pets.

Nota: Estou ignorando a validade dessa viagem filosófica, é irrelevante pro artigo.

Elon Musk acha que a única forma de evitar que a Humanidade seja extinta é assimilando a Tecnologia, os Borgs seremos nós. Interfaceando diretamente nossos cérebros com computadores, teremos o melhor de dois mundos, a flexibilidade do pensamento humano e a capacidade de armazenamento e processamento do Silício.

Claro esse tipo de coisa não vai acontecer semana que vem, e embora seja esse o objetivo final da Neuralink, sendo otimista coloque 30 anos até uma implementação realmente eficiente de seu dispositivo.

O que foi mostrado afinal?

Digamos assim: Elon Musk mostrou um fogo de artifício chinês do Século X, enquanto explicava como aquilo iria evoluir e um dia se tornaria um Falcon Heavy. Nós conhecemos muito pouco do funcionamento do cérebro, ele ainda é uma grande caixa-preta. O que a Neuralink está fazendo é fornecer ferramentas pra ampliar esse entendimento.

Não ajuda Musk falar que está criando um “Fitbit pro cérebro”, que você vai poder fazer streaming de música direto pro tal implante, e que var ser possível chamar seu Tesla por ele.

A Neuralink demonstrou dois equipamentos: Um robô e um implante.

O robô era um equipamento impressionante, capaz de realizar toda a cirurgia automaticamente, com o paciente sob anestesia local. Ele perfura o crânio, identifica a área correta do cérebro e insere os 1024 micro-eletrodos do implante, mirando em pontos específicos e evitando atingir vasos sanguíneos, o que torno o processo praticamente sem sangue.

Ao final o sujeito sai do hospital no mesmo dia, com o implante embaixo do couro cabeludo, um leve calombo oculto pelo cabelo.

Sim, Elon Musk vendeu o peixe de que todo mundo quer um buraco na cabeça, chipado feito aquela famosa cantora de MPB, e que com seu robô será vapt-vupt. Foi até divertido, a dissonância cognitiva era altíssima. Elon, meu lindo, VOCÊ NÃO VAI ABRIR UM BURACO NA MINHA CABEÇA SEM UM EXCELENTE MOTIVO.

O Implante

A segunda coisa apresentada foi o implante da Neuralink, um negócio do tamanho de uma moeda com 1024 micro-eletrodos, acelerômetros, giroscópios e um monte de outros recursos. Ele tem 24h de autonomia de bateria, e carrega sem-fio. Se conecta com uma app externa e/ou equipamentos especializados.

O implante se comunica a uma velocidade de 1Mbit, então nada de filmes em 4K no seu cérebro por enquanto, mas a graça é que ele é bidirecional. Cada um dos 1024 eletrodos pode ser monitorado individualmente E estimulado.

Nope.

Comparado com outros implantes experimentais, não há nada de revolucionário, mas ao contrário dos modelos de laboratório, não há uma enorme caixa e um calhamaço de fios saindo da cabeça do sujeito.

Musk demonstrou três porquinhos. O primeiro um porco com um implante, um segundo com dois implantes (aparentemente dá pra fazer SLI com eles) e o terceiro um porco com o implante removido, mostrando que não há sequelas e você pode remover seu implante quando quiser.

No porco com implante funcional eles demonstraram os sinais raw sendo captados e se alterando quando o porco ficava excitado com comida. Depois mostraram um sistema de predição de sinais cerebrais, aonde interpretavam os dados do implante e comparavam com a movimentação dos membros do porco andando.

Um porco chipado.

No começo de agosto o FDA concedeu ao implante da Neuralink o status de breakthrough device, ou seja, uma tecnologia ou medicamento com tanto potencial que testes em humanos podem ser iniciados sem passar pelo longo processo de aprovação normal.

Agora a Neuralink irá testar seu implante, provavelmente em pacientes com doenças como Parkinson, epilepsia, quadriplégicos, surdos e outros que possam se beneficiar dele.

O grande diferencial aqui é que o implante tem um potencial inédito, e nele está a verdadeira inovação: Ele funciona no dia a dia, poderemos monitorar o cérebro desses pacientes 24/7. Os neurocientistas terão acesso a toneladas de dados, que irão alimentar sistemas de Inteligência Artificial que tirarão algum sentido deles.

A Neuralink ainda não sabe como curar epilepsia nem prever um derrame, mas já sabe fazer um macaco controlar um computador usando um implante cerebral. É uma empresa que foi fundada em 2016, e já conseguiu criar um implante melhor do que tudo que há no mercado, em termos de portabilidade e recursos. Mal-comparando, é um Tesla. Não é o carro voador que todo mundo sonha, mas dá show na concorrência.

O problema é que um implante cerebral melhor que a concorrência em 2020 é o mesmo que se operar com o melhor cirurgião da Inglaterra do Século XIII. A tecnologia ainda não chegou lá.

A pesquisa da Neuralink é muito legal e tem potencial de gerar muitos dados pra muitos outros pesquisadores, mas não precisava de toda a fanfarra que teve. Principalmente, não precisava do Elon Musk vendendo sua máquina de chipar pessoas como se fosse algo que em seis meses acharemos em qualquer shopping.

Se tem uma coisa que não funciona bem com ciência, é hype. Que o diga o tal exoesqueleto da Copa, que todo mundo (eu incluso) comprou como algo revolucionário, e deu no que deu.

Que a Neuralink aprenda com o feedback dessa apresentação, e se foque em desenvolver sua tecnologia sem se preocupar em ganhar likes e aparecer na mídia. Eles podem criar tudo que se propõe? Quem sabe? Talvez mas tão cedo no jogo tudo fica parecendo um monte de promessas vazias e desperdício de bacon.

Leia mais sobre: , .

relacionados


Comentários