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Projeto Retro: uma das mais insanas ideias da Guerra Fria

O Projeto Retro é uma das piores ideias da Guerra Fria, mas mesmo que todo mundo achasse a ideia ótima, ele seria virtualmente impossível de implementar

16/09/2020 às 19:58

A Guerra Fria rendeu várias ideias insanas, incluindo o Programa Guerra nas Estrelas, com imensas armas orbitais que deteriam milhares de mísseis soviéticos, mas o Projeto Retro talvez seja a mais insana de todas, mesmo levando em conta que alguém cogitou criar uma Bomba Gay para fazer os soldados inimigos se pegarem em uma imensa orgia e esquecerem de lutar.

Teste do motor a Metano XR-5M15 da XCOR (Crédito: NASA)

O que é o Projeto Retro afinal?

É um ótimo exemplo de que pouco conhecimento é pior e mais perigoso do que nenhum conhecimento. É igual aquele seu colega de trabalho que acha que entende de computador, mete a mão, ferra tudo, corrompe setor de boot, desconfigura placa de rede, desalinha cabeçote da RAM, desregula platinado da CPU, e sobra pra você consertar pq ele “não fez nada”.

Uma boa demonstração de que pouco conhecimento é perigoso pode ser visto nesta audiência de uma comissão do Senado australiano, aonde uma senadora com NENHUM conhecimento questiona repetidamente um Contra-Almirante, misturando “pump jet”, que é uma forma de propulsão, com submarinos nucleares, que é uma forma de geração de energia, questionando a compra de submarinos Diesel.

Em certo momento ela afirma que diesels só conseguem submergir por 20 minutos, o que provoca gargalhadas nos fantasmas dos tripulantes dos U-Boats alemães e dos japoneses.

Em teoria o Projeto Retro deveria livrar um alvo de um ataque MIRV

Teste de um míssil Peacekeeper. Cada traçoé uma ogiva independente que em caso de guerra teria potência de 400kt. (Crédito: David James Paquin - Domínio público)

O Projeto Retro era uma ideia para responder a um ataque em massa de mísseis soviéticos, apontados para alvos estratégicos nos EUA. Quando milhares de ogivas reentram a atmosfera a Mach 24, nenhum sistema de defesa seria capaz de deter todas, então a solução pensada foi simples: Se não posso deter a bala, eu desvio da bala.

O que é simples se você for um construto em um ambiente virtual criado por uma sociedade de máquinas inteligentes, ou a Angelina Jolie. No caso o alvo seria uma cidade, ou uma base de mísseis.

Como se move uma cidade de lugar? Elas costumam estar presas ao resto do país, e países também não são de se mover muito, exceto a Austrália.

Um sujeito no Pentágono teve a ideia, e colocou no papel: Vamos instalar mil foguetes, dos mesmos que usamos para lançar ogivas nucleares, mas na horizontal, presos ao chão. Ativando-os, reduziremos ou paramos a rotação da Terra, assim os mísseis russos errarão o alvo.

Superman não fez parte do Projeto Retro mas também se livrou das armas nucleares

(Crédito: Warner Bros.)

Isso mesmo. O raciocínio por trás do Projeto Retro era fazer o PLANETA INTEIRO parar de girar.

Se isso te lembra o final de Superman, aviso que nem Kal El (naquela versão) tinha capacidade de parar um planeta, a Terra parece retroceder apenas porque o Super-Homem está voando mais rápido que a Luz, e voltando no tempo.

Isso não aconteceria com os mil foguetes da proposta. Scott Manley fez as contas, usando o foguete mais poderoso já construído, o Saturno 5, 1000 deles fariam a rotação da Terra ser alterada em uma distância menor do que o núcleo de um átomo.

Para alterar a velocidade de rotação da Terra de forma significativa, para que um míssil erre algumas centenas de quilômetros, seria preciso um conjunto de 1000000000000000 Saturnos V, que consumiriam 2.6 * 1026 Kg de propelente. Isso equivale a 500 vezes a massa da atmosfera terrestre. Também precisamos levar em conta que o calor gerado por todos esses foguetes incineraria o planeta, que se tivesse sua rotação alterada sofreria com centenas de super-furacões com ventos de mais de 1000km/h, mas hey, os mísseis russos teriam errado o alvo, yay!

Podemos afirmar com razoável certeza que o Projeto Retro nunca foi adiante, por motivos óbvios, mas é assustador imaginar que tempo e dinheiro tenham sido gastos em uma bobagem que qualquer um com um mínimo de bom-senso descartaria na hora, mas como veio de um sujeito com divisas no colarinho, precisam provar que é uma ideia idiota.

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