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A clássica checagem de velocidade do SR-71

O SR-71 é o avião mais fantástico já construído, mas algumas de suas melhores histórias envolvem mais os homens do que as máquinas. Conheça uma delas...

24/09/2020 às 15:32

Nos Anos 80 havia três pôsteres possíveis para um quarto de adolescente: O Lamborghini Countach, o clássico da Farrah Fawcett com o maiô vermelho, e o Lockheed SR-71 Blackbird. Na época ele era apenas legal demais, a gente não tinha noção das reais capacidades dessa aeronave, e até hoje ela é cheia de surpresas.

Lockheed SR-71 Blackbird (Crédito: Judson Brohmer - United States Air Force)

O mais assustador é que o Blackbird (mais detalhes aqui) foi projetado nos Anos 50, seu primeiro voo foi em 1964. Em 2020, 56 anos depois, nada, NADA em termos de engenharia aeronáutica é mais rápido, voa mais alto ou é tão implacável.

O caça russo desenvolvido especialmente para interceptar o SR-71 só consegue fazê-lo em uma trajetória específica, e mesmo assim quando força os motores para ter velocidade suficiente, em alguns minutos eles se destroem. Mais de 4000 mísseis foram lançados contra o SR-71, no manual do avião a instrução para lidar com isso era... "acelere".

O bicho voava tão alto e tão rápido que os mísseis inimigos ficavam sem combustível antes de alcançar o Blackbird. O que não se fala tanto é o lado humano, como Kelly Johnson, o projetista que também participou de projetos como o F-117, Electra e o P31 Lightning, o melhor caça de longo alcance da 2a Guerra.

Kelly Johnson aliás é o único caso aonde se alguém mencionar que ele teve contato com aliens, ou -mais provavelmente- era um deles, a maioria da indústria responderá "é possível". Fugindo de manuais técnicos, duas excelentes formas de conhecer mais sobre o SR-71 e os homens que o criaram e operaram é através de dois livros: Skunk Works, de Ben R. Rich e Leo Janos, e Sled Driver, de Brian Shul.

Altamente recomendados. (Crédito: Divulgação)

Infelizmente ambos estão fora de catálogo e nunca foram publicados no Brasil, só sobra a biblioteca do Paulo Coelho mesmo. PS: O apelido do SR-71 era sled -trenó- por causa de seu ridículo raio de curva, ele voava tão rápido que na Europa para dar uma volta de 180 graus às vezes ele passava por cima de vários países.

Brian Shul, que foi piloto do Blackbird é sem-querer uma das figuras mais conhecidas da Internet; ele é o autor de uma das mais repetidas copypastas do Reddit, a história da checagem de velocidade do SR-71.

Curiosamente no livro a versão é bem mais curta, mas em suas palestras Brian foi acrescentando detalhes, por isso a transcrição abaixo não conta como tradução do livro, mas da versão "open source" que vem viralizando por pelo menos 15 anos.

É uma pequena anedota de um acontecimento menor, quando Brian Shul e seu co-tripulante Walt Watson estavam na qualificação final no SR-71. Um vislumbre no que era pilotar esse avião que 56 anos depois de seu primeiro voo, ainda soa como ficção científica. Aproveite:

Um selfie quase espacial (Crédito - Brian Shul - USAF)

“Havia muitas coisas que não podíamos fazer em um SR-71, mas éramos os caras mais rápidos do quarteirão e adorávamos lembrar nossos colegas aviadores desse fato. Muitas vezes as pessoas nos perguntavam se, por causa disso, era divertido pilotar o jato.

Diversão não seria a primeira palavra que eu usaria para descrever voar neste avião. Intenso, talvez. Até cerebral. Mas houve um dia em nossa experiência com o Trenó em que poderíamos dizer que foi pura diversão ser os caras mais rápidos, pelo menos por um momento.

Aconteceu quando Walt e eu estávamos voando nossa última missão de treinamento. Precisávamos de 100 horas no jato para concluir nosso treinamento e atingir o status de tripulação operacional. Em algum lugar do Colorado, atingimos esse limite. Tínhamos feito a curva no Arizona e o jato estava funcionando perfeitamente.

Meus medidores estavam todos perfeitos e estávamos começando a nos sentir muito bem um com o outro, não apenas porque logo estaríamos voando em missões reais, mas porque ganhamos muita confiança no avião nos últimos dez meses. Atravessando os desertos estéreis 24.800 metros abaixo de nós, eu já podia ver da fronteira com o Arizona a costa da Califórnia. Eu estava, finalmente, depois de muitos meses de simuladores e estudos, à frente do jato.

Visão do cockpit do SR-71, a 25Km de altitude. (Crédito: Brian Shul - USAF)

Eu estava começando a sentir um pouco de pena de Walter no banco de trás. Lá estava ele, sem uma visão realmente boa das vistas incríveis diante de nós, com a tarefa de monitorar quatro rádios diferentes.

Isso era um bom treino para ele quando começarmos a voar em missões reais, quando uma transmissão prioritária da sede poderia ser vital. Também tinha sido difícil para mim abrir mão do controle dos rádios, pois durante toda a minha carreira de piloto eu controlara minhas próprias transmissões. Mas fazia parte da divisão de tarefas neste avião e eu tinha me ajustado a isso.

Eu ainda insistia em falar no rádio enquanto estávamos no chão, no entanto. Walt era tão bom em muitas coisas, mas não se igualava à minha experiência em soar cool nos rádios, uma habilidade que havia sido aprimorada por anos em esquadrões de caça onde o menor erro de rádio era motivo para decapitação.

Ele entendeu isso e me permitiu esse luxo. Só para ter uma ideia do que Walt tinha que enfrentar, puxei os interruptores do rádio e monitorei as freqüências junto com ele. A conversa de rádio predominante vinha da Central de Los Angeles, bem abaixo de nós, controlando o tráfego aéreo normal em seu setor.

Apesar deles nos monitorarem em sua jurisdição (embora brevemente), estávamos em um espaço não controlado e normalmente não falávamos com eles a menos que precisássemos descer em seu espaço aéreo.

Crédito: USAF

Ouvimos a voz trêmula de um piloto solitário do Cessna pedir à Central uma leitura de sua velocidade de solo. Ela respondeu:  "Novembro Charlie 175, estou vendo você a noventa nós velocidade de solo."

Agora, o que é preciso entender sobre os controladores de tráfego aéreo é que, quer estivessem falando com um piloto novato em um Cessna ou com o Força Aérea Um, eles sempre falavam exatamente no mesmo tom calmo, profundo e profissional que fazia alguém se sentir importante.

Eu me referia a ela como a "voz da Central de Houston ". Sempre achei que depois de anos vendo documentários sobre o programa espacial e ouvindo a voz calma e distinta dos controladores de Houston, todos os outros controladores desde então queriam soar assim, e basicamente o fizeram.

E não importava para qual setor do país estivéssemos voando, sempre parecia que o mesmo cara estava falando. Com o passar dos anos, esse tom de voz se tornou um som reconfortante para os pilotos de todos os lugares.

Por outro lado, ao longo dos anos, os pilotos sempre quiseram garantir que, ao transmitir, soassem como Chuck Yeager, ou pelo menos como John Wayne.

Melhor morrer do que soar mal nos rádios.

Momentos depois da consulta do Cessna, um Twin Beech entrou na freqüência, em um tom bastante superior, perguntando sobre sua velocidade no solo. "Eu tenho você a cento e vinte e cinco nós de velocidade de solo."

Um Twin Beech, não exatamente a epítome da velocidade. (Crédito: D. Miller - wikimedia)

Rapaz, pensei, o Beechcraft realmente deve pensar que está deslumbrando seu irmãozinho no Cessna. Então, do nada, um piloto de F-18 da Marinha da base de Lemoore entrou também na mesma freqüência.

Você soube imediatamente que era um playboy da Marinha porque ele parecia muito cool nos rádios. "Central, verificação de velocidade de solo Dusty 52".

Antes que a Central pudesse responder, pensei comigo mesmo, ei, o Dusty 52 tem um indicador de velocidade de solo naquela cabine de um milhão de dólares, então por que ele está pedindo uma leitura à Central?

Então eu entendi, o velho Dusty aqui está garantindo que todos os caipiras de Mount Whitney ao Mojave saibam o que é a verdadeira velocidade. Ele é o cara mais rápido do vale hoje, e ele só quer que todos saibam o quanto ele está se divertindo em seu novo Hornet. E a resposta, sempre com aquela mesma voz calma, com aliteração mais distinta do que emoção:

"Dusty 52, Center, temos você em 620 velocidade de solo." Eu pensei comigo mesmo, essa é uma situação pronta ou o quê? Quando minha mão instintivamente alcançou o botão do microfone, tive que me lembrar que Walt estava no controle dos rádios. Mesmo assim, pensei, deve ser feito - em meros segundos estaremos fora do setor e a oportunidade estará perdida.

Esse Hornet deve morrer, e morrer agora. Pensei em todo o treinamento em nossos simuladores e na importância de nos desenvolvermos bem como uma equipe e saber que entrar no rádio agora destruiria a integridade de tudo o que trabalhamos para nos tornar. Eu estava dividido.

Em algum lugar, 20 quilômetros acima do Arizona, havia um piloto gritando dentro de seu capacete espacial. Então, eu ouvi. O clique do botão do microfone no banco de trás. Foi nesse momento que percebi que Walter e eu tínhamos nos tornado uma tripulação.

Muito profissionalmente e sem emoção, Walter falou: "Central de Los Angeles, Aspen 20, você pode nos dar uma verificação de velocidade no solo?" Não houve hesitação, e a resposta veio como se fosse um pedido corriqueiro.

"Aspen 20, eu mostro a você mil oitocentos e quarenta e dois nós, velocidade de solo."

Acho que foi dos quarenta e dois nós que mais gostei, tão preciso e orgulhoso, e a Central forneceu essa informação sem hesitação, e você sabia que ele estava sorrindo. Mas o ponto exato em que eu soube que Walt e eu seríamos bons amigos por muito tempo foi quando ele acionou o microfone mais uma vez para dizer, em sua voz mais parecida com a de um piloto de caça:

"Ah, Central, muito obrigado, estamos mostrando perto de 1.900. "

Por um momento, Walter foi um deus. E finalmente ouvimos um pequeno estalo na armadura da voz do “Controle de Houston”, quando Los Angeles voltou com:

"Entendido, seu equipamento é provavelmente mais preciso do que o nosso. Vocês, rapazes, tenham um bom voo."

Tudo durou apenas alguns instantes, mas naquela corrida curta e memorável pelo sudoeste, a Marinha foi aniquilada, todos os aviões meros mortais na freqüência foram forçados a se curvar diante do Rei da Velocidade e, mais importante, Walter e eu cruzamos o limiar de ser uma tripulação.

Um bom dia de trabalho. Não ouvimos outra transmissão nessa freqüência até a costa.

Por apenas um dia, foi realmente divertido ser o cara mais rápido que existe.”

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