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É jogo ou filme? Games farão parte do Tribeca Film Festival

Festival anuncia o Tribeca Games Award e ao se dispor a homenagear os bons roteiros, levanta a questão se é bom os jogos se aproximarem do cinema

28/09/2020 às 11:23

Não há como negar: os jogos eletrônicos ocuparam um lugar importantíssimo na indústria do entretenimento e se antes muitas pessoas ligadas ao cinema viam a mídia com desdém, hoje elas entendem que é preciso reconhecer o seu protagonismo e até mesmo capitalizar em cima dela. Mas além da questão financeira, o amadurecimento dos roteiros dos games também tem aberto algumas portas e pensando em tudo isso, os organizadores do Tribeca Film Festival decidiram dar mais espaço aos jogos.

Hideo Kojima - Tribeca Film Festival

Hideo Kojima, no Tribeca Film Festival (Crédito: Divulgação/Tribeca Film Festival)

Criado em 2001 por Robert De Niro, Jane Rosenthal e Craig Hatkoff, o festival que acontece anualmente em Nova York desde o início teve como objetivo cultuar a arte no geral e por isso os games vinham recebendo algumas menções. Títulos como What Remains of Edith Finch, Beyond Two Souls, God of War, Tomb Raider e até mesmo o League of Legends são alguns dos que já marcaram presença no Tribeca, mas a partir de 2021 o evento terá uma seleção oficial que “homenageará os próximos jogos que demonstrarem excelência artística em suas narrativas.

Nos dez anos desde que demos as boas-vindas a um jogo (L.A. Noire) no programa oficial do Tribeca, vimos uma empolgante convergência de jogos, filmes e experiências imersivas. Onde antes havia uma delimitação clara entre as mídias, agora há uma linha muito tênue — as histórias se tornaram games e os games se tornaram histórias," afirmou a CEO do festival, Jane Rosenthal. "O amplo reconhecimento das vozes na vanguarda deste cenário em constante mudança deveria ter sido feito há muito tempo, e pretendemos ser um lar para esses criadores cujos trabalhos incríveis devem ser celebrados.

Para isso, os responsáveis pelo festival já estabeleceram um conselho formado por diversas figuras importantes dos games, como o game designer Hideo Kojima; o diretor criativo da Remedy Entertainment, Sam Lake; o criador do The Game Awards, Geoff Keighley; o cofundador da Electronic Arts, Bing Gordon; e a responsável pela Halo Transmedia & Entertainment, Kiki Wolfkill.

Além desses, o festival ainda convidou pessoas ligadas diretamente a sétima arte, como a cineasta Nia DaCosta e o roteirista e diretor, Jon Favreau. Será esse corpo de jurados que terá a missão de escolher quais jogos poderão se orgulhar de aparecer na seleção final do Tribeca Games Award e dada a relevância que esse evento ganhou ao longo dos anos, tenho certeza que qualquer estúdio (especialmente os independentes) gostaria de ver sua criação sendo indicada.

História vs. jogabilidade

What Remains of Edith Finch (Crédito: Divulgação/Giant Sparrow)

Mas além de colocar um novo holofote sobre os jogos eletrônicos, possivelmente fazendo com que muitas pessoas que nunca prestaram atenção nos games passem a olhá-los de forma diferente, esse interesse do Tribeca Film Festival também serve para mostrar o quanto os roteiros dos jogos evoluíram nos últimos anos.

Embora algumas pessoas não gostem da ideia dos games estarem se aproximando tantos do cinema, com alguns deles inclusive sendo criticados por mais parecerem filmes interativos, quem gosta de uma boa história deve estar gostando muito desse caminho trilhado por alguns game designers/roteiristas. Títulos como o último God of War, The Last of Us Part II ou as criações de David Cage ganharam destaque (tanto positivo quanto negativo) justamente por apostarem tão fortemente em suas narrativas, então qual seria o problema em fazer isso?

Pois um dos maiores críticos a esta aproximação entre os games e os filmes é Warren Spector, lendário criador de jogos como Deus Ex e Epic Mickey. Para ele, os jogos não deveriam ser limitados pelas convenções de outras mídias e aqueles que quiserem criar games parecidos com longas-metragens, deveriam se dedicar a criar filmes. Na opinião de Spector, caso contrário os jogos eletrônicos podem perder sua principal característica, que é nos dar liberdade e assim quebrar o imersão.

Já para Jane Rosenthal, “é incrível ver como os criadores de jogos desenvolvem esses mundos imersivos com suas próprias histórias, personagens, conhecimentos e linguagens únicas,” e que por isso foi criado o Tribeca Games Award, já que tais trabalhos precisam ser celebrados. Como uma cineasta e contadora de histórias, ela disse que sempre se interessou pela maneira como as pessoas podem expandir os limites da narrativa em todas as plataformas, com a narrativa não-linear sendo algo que sempre chamou sua atenção.

Dying Light (Crédito: Divulgação/Techland)

Sendo assim, não consigo ver muito sentido nesta briga que alguns tentam travar entre esses dois fatores. Há jogos que se debruçam principalmente na história e que me agradaram muito (What Remains of Edith Finch, Firewatch, Gone Home), enquanto outros me entregaram ótimas jogabilidade e contavam com uma história sofrível (vários Need for Speed, Destiny, Dying Light), mas que também me divertiram absurdamente.

No entanto, considero que o mais importante neste debate é perceber como a indústria de games chegou a um ponto em que há espaço para todos os estilos e com isso temos visto cada vez mais pessoas se renderem a esta forma de entretenimento. Um exemplo disso é o o ator Antônio Fagundes, que recentemente revelou que só aos 60 anos descobriu como os jogos eletrônicos poderiam ser fantásticos, depois que resolveu dar uma chance ao God of War.

Este é um fenômeno que, na minha opinião, deverá se tornar cada vez mais frequentem, com modelos de distribuição como os jogos pela nuvem diminuindo a barreira de acesso para novos jogadores e o interesse de eventos como o Tribeca Film Festival e o Writers Guild of America contribuindo muito para esta popularização.

Fonte: Eurogamer

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