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Antonov An-2: um biplano de 1947 guerreando em 2020

O Antonov An-2 é um avião que já nasceu velho, mas mesmo em 2020 continua sendo útil, como os soldados da Armênia estão mortalmente descobrindo

08/10/2020 às 19:27

Um biplano como o Antonov An-2 é algo que a gente só espera ver em guerra na mira do Barão Vermelho, mas isso é passado, tem pelo menos 18 anos desde a última vez que um von Richthofen matou alguém, e biplanos também saíram de moda. Exceto que eles estão brilhando muito em um conflito que ninguém está dando bola, a guerrinha entre Armênia e Azerbaijão.

Antonov An-2 (Crédito: 2427999 via Pixabay)

O Conflito Armênia-Azerbaijão

Basicamente, bem basicamente, existe uma região entre os dois países chamada Nagorno-Karabakh. A população era essencialmente azerbaijani, muçulmana, e viviam brigando com os vizinhos armenos, fundamentalmente cristãos. Eventualmente os armenos expulsaram a população azerbaijani, mas aí veio uma tal União Soviética, Stalin ficou de saco cheio e criou um Oblast (uma região semi-autônoma) na área, chamada de República de Artsakh, e os dois lados preferiram parar de brigar.

Com o fim da boa e velha CCCP, a briga voltou, o Azerbaijão quer seu território de volta, expulsando a população armênia, a Armênia quer que o Azerbaijão aceite que perdeu, e a República de Artsakh, que é reconhecida por basicamente ninguém, quer ser independente.

Sim, é uma zona. (Crédito: Wikimedia Commons)

Eles vêm se pegando na porrada desde 1988, mas é uma briga de ratos, os dois países estão usando basicamente armamento soviético dos Anos 80. Só para dar uma ideia:

Orçamento de Defesa:

  • Armênia: US$451.30 milhões
  • Azerbaijão: US$1.71 bilhões
  • Brasil: US$27.77 bilhões

Isso mesmo, os caras estão tentando fazer uma guerra com menos do que o Brasil gasta em canjiquinha pro rancho dos soldados. Mesmo assim estamos vendo imagens que em 1990 pareciam ficção científica e restritas a grandes potências.

Ambos os lados estão fazendo uso extensivo de drones e munição teleguiada. As interwebs estão cheias de imagens de tanques, blindados e soldados sendo alvejados com precisão. O Azerbaijão diz ter destruído 250 tanques inimigos, a Armênia diz ter destruído 36 dos tanques azerbaijanis, fora blindados, artilharia antiaérea, etc.

Seria virtualmente impossível conseguir esses números com aviação convencional. A Armênia tem 17 caças, e o Azerbaijão, 29. O segredo? Drones. Principalmente esse bichinho aqui:

Bayraktar TB2 (Crédito: Bayhaluk - Own work, CC BY-SA 4.0)

É o Bayraktar TB2, um drone feito na Turquia, e exportado pra vários países. É barato (US$5 milhões, versus US$15 milhões de um Reaper americano) versátil e bem-equipado tanto para reconhecimento quanto para ataque.

A Armênia usa outros modelos, ela não mantém exatamente relações cordiais com a Turquia, deve ter a ver com um tal genocidiozinho um tempo atrás. A Turquia por sua vez está ativamente ajudando o Azerbaijão, suprindo drones e até mandando caças para ajudar no combate. Não oficialmente, claro. Você não leu isso aqui.

O lado bom é que com drones você não arrisca vida de pilotos. O lado ruim é que eles são lentos e indefesos, alvo fácil para a artilharia antiaérea, e a Armênia quando vê um drone dá a ordem: “Eu quero essa drone na chon! NA CHON!”

A estratégia, claro, é atacar primeiro as defesas antiaéreas, mas como fazer isso sem gastar preciosos drones modernos? O Azerbaijão teve uma ideia genial, usando um recurso quase esquecido.

Eles possuem pelo menos 60 destes, err... aviões aqui, o Antonov An-2.

Ele foi projetado durante a Segunda Guerra na União Soviética, originalmente era uma aeronave para uso em agricultura e serviços gerais. Barato, tão simples que não tinha o que quebrar, capaz de pousar em qualquer fundo de quintal, decolar em 170 metros, com manutenção tão simples que qualquer mecânico de trator poderia consertar um An-2. E vários consertavam.

Não é exatamente um F-22... (Crédito: Wikimedia Commons)

Essencialmente, era um lada voador, um utilitário pé-de-boi russo até a medula. Por causa disso foi um sucesso, foram produzidas mais de 18000 unidades, com as últimas sendo fabricadas em 2001.

Obviamente isso não passou despercebido dos militares, que logo descobriram usos pro An-2, como transporte leve, avião de observação e até de ataque, armados com metralhadoras e foguetes. Pausa para um causo:

Em 1968 O Vietnã já estava fervendo. A CIA mantinha várias operações na região, inclusive um posto de controle aéreo em uma montanha no Laos, a 200Km de Hanói. A posição era conhecida, e um dia o Vietnã do Norte montou um ataque, mandando quatro An-2 armados. O pessoal em terra não teve chance, sob fogo de foguetes e metralhadoras.

O que não esperavam era que chegando na tal base, estava um helicóptero Huey da Air América. Se você viu o excelente filme com o Führer, Air America era uma companhia aérea de fachada criada pela CIA para dar apoio logístico às operações secretas na região.

Ted Moore, comandante do helicóptero, disse que a cena “parecia a Primeira Guerra Mundial”. Emputecido, ele partiu em perseguição aos aviões, que deixavam a cena. Emparelhando com um dos An-2, o tripulante Glenn Woods descarregava nos vietcongs sua AK-47, a arma preferida do inimigo.

Crédito: Keith Woodcock

A perseguição durou 20 minutos, durante os quais outro An-2 passou por baixo do helicóptero, sendo prontamente alvejado. Dois aviões conseguiram fugir, outros dois foram devidamente abatidos. Foi um caso único na guerra do Vietnã, quando um helicóptero obteve uma vitória contra aeronaves de asa fixa, e em 2007 a CIA recebeu uma condecoração por isso.

Claro, se mostram em um filme todo mundo vai reclamar do exagero.

OK, voltando ao An-2...

O Azerbaijão tem pelo menos 60 An-2. Eles estão sendo usados como boi de piranha. Um drone voando bem mais alto fica observando a área. Um An-2 vai na frente, mais baixo, atraindo a artilharia inimiga. Eventualmente ele é derrubado, mas aí o inimigo já sabe aonde estão seus canhões, radares e mísseis, e é só ordenar aos outros drones pra sentar o dedo e polpificar as posições.

Isso, claro, não serve de consolo pros pilotos, e seria uma missão suicida pilotar um An-2 em uma região repleta de artilharia antiaérea. A solução, como quase tudo, veio da China. Em 2018 uma empresa chinesa demonstrou um An-2 “dronificado”, o que por si só é um feito, afinal o avião é uma peça de museu.

Com esses kits, o Azerbaijão consegue mandar drones para o território inimigo, sem gastar uma fortuna. Se a Armênia não reagir, vai arriscar deixar passar os outros drones, que vão atacar seus tanques e outros veículos.

Se a Armênia reagir, vai arriscar ter suas defesas antiaéreas destruídas.

Perder um tanque por causa de um drone já é ruim, mas perder um tanque por causa de uma relíquia voadora, é pior ainda, e a única estratégia possível é continuar tentando derrubar os drones inimigos.

A lição é que uma guerra pode ser assimétrica mesmo quando os dois lados estão tecnologicamente equilibrados, e que drones serão fundamentais nos próximos conflitos entre grandes potências, mas acima de tudo a grande lição é que só porque algo é considerado obsoleto, não quer dizer que com criatividade e inteligência não possa se tornar um recurso estratégico da maior importância.

Fontes:

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