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Como os ingleses usaram criptografia para vencer a Argentina

Criptografia é usada por todo mundo o tempo todo, sem perceber. Infelizmente às vezes é usada de forma errada, com a Argentina descobriu.

30/10/2020 às 19:35

Criptografia é sempre lembrada como uma técnica de codificação de mensagens usada durante a Segunda Guerra mundial, mas mesmo com grandes avanços em computação, todo país que se preza investe em códigos e cifras para proteger suas comunicações, sob pena de acabar como a Argentina na Guerra das Falklands.

Prédio do GCHQ. Não, não é da Apple. (Crédito: GCHQ)

Os ingleses perceberam a importância de proteger suas comunicações e monitorar as transmissões inimigas durante a Primeira Guerra Mundial, e criaram uma agência governamental para isso, a Government Code and Cypher School. Em 1946 ela mudou de nome para o que é hoje, a GCHQ – Government Communications Headquarters. Antigamente ela ficava em Bletchley Park, hoje fica nesse prédio bonitão aí de cima.

Quando a Argentina invadiu as Falklands em 1982 a impressão geral é que os ingleses foram pegos de surpresa, e foram, mais ou menos. As comunicações militares da Argentina já eram rotineiramente monitoradas, e oito dias antes da invasão foi interceptada uma mensagem de um comandante naval argentino chamado Jorge Anaya, discutindo um plano para mandar para as Falklands e outras ilhas próximas agentes disfarçados de mercadores de sucata.

Maggie T. (Crédito: Peter Jordan)

O Sentido de Aranha dos analistas da GCHQ começou a apitar, e eles mandaram um alerta para cima na cadeia de comando, mas a mensagem se perdeu na burocracia estatal, para desespero de todo mundo na Agência. Ela nunca chegou ao Secretário de Relações Exteriores, Lord Carrington, que depois ainda culpou a agência por não ter descoberto os planos da invasão.

Na verdade, eles sabiam, sabiam de tudo. O Reino Unido é membro de um acordo chamado UKUSA, no qual Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Canadá e Nova Zelândia concordam em trocar informações sigilosas obtidas por suas agências de inteligência, sempre que for de interesse dos países envolvidos.

Esse acordo é meio low profile, então os Estados Unidos nunca admitiram publicamente estar fornecendo informações confidenciais aos ingleses, embora fosse óbvio que os satélites de imagens e monitoramento de sinais de rádio americanos estavam trabalhando dobrado vigiando a região.

Tropas inglesas nas Falklands (Crédito: British Navy)

Além disso os ingleses tinham agentes do SBS (Special Boat Service) nas ilhas, uma unidade ficou duas semanas na cabeceira da pista do aeroporto em Port Stanley, sem serem detectados.

Inteligência também era capturada por navios, e principalmente por submarinos, que podiam navegar impunemente entre as Falklands e o continente.

O principal aliado dos ingleses, entretanto foi a arrogância argentina. Eles mandavam mensagens sem muita preocupação, até planos de ataque detalhados eram enviados por rádio. Pior ainda, confiavam plenamente nas máquinas de criptografia compradas da empresa suíça Crypto AG.

As máquinas, no caso os modelos HC550s e HC570s eram excelentes, se não fosse um pequeno, ínfimo detalhe: Havia uma falha proposital nos algoritmos de criptografia das máquinas. Mas não era um bug, era uma feature. A falha foi introduzida para facilitar um ataque e decodificação das mensagens.

Uma HC550. Não tem 1/10 do charme de uma Enigma. (Crédito: Crypto Museum)

A Crypto AG tinha donos de fachada, os verdadeiros donos da empresa eram a CIA e o Bundesnachrichtendienst, o Serviço Federal de Inteligência da Alemanha.

Assim que ficou óbvio que precisavam decifrar com agilidade as mensagens argentinas, a Holanda mandou um agente de inteligência para o GCHQ, ele explicou o bug introduzido nas máquinas e como explorá-lo.

Muito rapidamente o tempo entre um agente interceptar uma mensagem nas Falklands e ela ser decifrada era de três horas.

Os ingleses conheciam o moral das tropas inimigas, o nível de seus suprimentos e todas as mobilizações.

O próprio afundamento do cruzador General Belgrano foi motivado por uma mensagem interceptada.

Crédito: Reprodução

Até hoje a decisão foi controversa, gente que não entende o conceito de guerra acusa a Inglaterra de ter atirado em um navio que estava se movendo para longe do campo de batalha. Bem, guerra não é aquele mundo fantasioso que só existe na mente dos nossos pais, onde “se um não quer dois não brigam”. Um navio de guerra é sempre um alvo válido, a não ser que tenha se rendido. O navio fugindo hoje pode voltar para te afundar amanhã.

E era exatamente isso que o Belgrano faria. Os ingleses já haviam interceptado mensagens de Buenos Aires dando aos navios total liberdade para atacarem alvos ingleses, e outra mensagem ordenava ao Belgrano para recuar e se reagrupar para se preparar para um grande ataque.

O HMS Conqueror (ou pelo menos o Comandante Chris Wreford-Brown) sabia que se não fizessem nada, o Belgrano voltaria para o teatro de operações, e não seria tão fácil atacá-lo. Quando a ordem veio direto de Margareth Thatcher, ele não pensou duas vezes antes de lançar três torpedos Mark VIII e mandar para o fundo do mar as ambições imperiais argentinas.

HMS Conqueror voltando das Falklands. (Crédito: Plymouth Herald)

Ter o controle sobre a criptografia argentina ajudou até na hora de determinar o local para o desembarque das tropas britânicas. No final o consenso é que sem as interceptações das mensagens inimigas, os ingleses não teriam conseguido vencer a guerra das Falklands, e teriam que chamar as ilhas de Malvinas.

Portanto, ficadika: Se for entrar em guerra com alguém, verifique se todo seu mecanismo de criptografia não está comprometido desde a raiz.

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