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Como funciona a vacina de mRNA, a mais promissora contra o COVID-19

a Vacina de mRNA, ou RNA Mensageiro é a grande esperança contra o COVID-19. Descubra o que é e como ela e outras vacinas funcionam

19/11/2020 às 23:00

A Vacina de mRNA, ou RNA Mensageiro é uma molécula que é a base de um dos mais avançados e promissores métodos de produção de vacinas, e está anos-luz adiante de Edward Jenner, que em 1796 inoculou um garoto de oito anos com varíola bovina, criando a primeira vacina.

Um neutrófilo (Glóbulo branco) atacando uma infecção (Crédito: Cells at Work - Reprodução)

Imunologia é uma área fascinante, mas é extremamente complicada, e não, o Cells at Work não chegam nem a arranhar a complexidade, mas é suficiente para dar uma visão fascinante de um mecanismo assustadoramente complexo.

Vamos então simplificar de forma quase criminosa, mas didática, tipo aquelas professoras americanas que de vez em quando são presas por fazer saliência com alunos sortudos.

Imagina que seu corpo é um bairro. Cada rua tem seu próprio grupo de seguranças, não muito inteligentes, mas esforçados. Um dia aparece uma quadrilha de ladrões bem clichê, tipo os Irmãos Metralha, com direito a uniforme e todo mundo com a mesma aparência. Eles assaltam uma casa, duas.

As pessoas avisam aos seguranças, que como não têm celular, usam comunicação molecular: Mandam um moleque encontrar seguranças de outras ruas, para avisar da quadrilha, e deixar todo mundo atento. Mesmo assim os seguranças que não receberam a mensagem ainda deixam os Irmãos Metralha passarem sem ser perturbados.

Fica uma corrida entre os ladrões levarem tudo de valor nas casas, e os retratos-falados serem espalhados para todos os seguranças.

Essa é uma infecção normal, sem vacina.

É importante que seu corpo saiba diferenciar as células normais das infectadas do contrário você desenvolve uma doença auto-imune (crédito: Internet a vapor)

Mesmo cenário, agora com vacina:

Um segurança não precisa encontrar fisicamente o bandido para reconhecê-lo. Na verdade nem é preciso esperar a onda de assaltos começar. Imagine que você ouviu falar que em outra cidade, cheia de hippies que não acreditam em prevenção e dizem que a segurança domiciliar está transformando seus filhos em autistas começou uma onda de roubos, feita pelos Irmãos Metralha.

Seu prefeito, que é inteligente, monta uma operação aonde panfletos com a foto dos Irmãos Metralha são lançados na sua cidade. Os seguranças recolhem os panfletos, aprendem a reconhecer os bandidos e quando eles aparecem, são devidamente eliminados, pois bandido metafórico bom é bandido metafórico morto e seu corpo não tem habeas corpus.

Sistema Imunológico detonando células zumbificadas por vírus. (Crédito: Cells at Work)

A beleza do cenário é que o retrato nem precisa ser perfeito, às vezes mesmo um retrato-falado genérico é suficiente para pegar vários bandidos parecidos, colocando os seguranças em estado de prontidão para qualquer um que “se encaixe na descrição”.

Foi o que aconteceu com James Phipps, o garoto que Jenner usou de cobaia em 1796.

A Varíola foi uma das doenças mais devastadoras de todos os tempos, ela foi erradicada em 1977, mas só nos últimos 100 anos de sua existência, matou e desfigurou (não necessariamente nessa ordem) mais de 500 milhões de pessoas.

Dois garotos com varíola. O da esquerda não foi vacinado. O da direita foi. (Crédito: The Historical Medical Library of The College of Physicians of Philadelphia)

No tempo de Jenner a única forma de prevenção da Varíola era uma inoculação bem antiga, datando pelo menos do Século X, no qual cascas de ferida de doentes de varíola eram trituradas, pulverizadas e aspiradas. Mesmo sem saber, as pessoas haviam criado uma espécie de vacina, mas uma roleta-russa, pois tanto podiam estar inoculando uma pessoa saudável com vírus enfraquecidos ou em pouca quantidade, gerando uma resposta imune protetora, ou poderiam aplicar uma dose letal de vírus e seria o fim das aspirações de quem aspirou a tal casca de ferida.

Jenner foi por outro caminho, e reparou em uma curiosidade estatística: As jovens moças fazendeiras que ordenhavam vacas tinham bem menos casos de Varíola. Investigando ele descobriu que as que não haviam pegado Varíola tinham sido contaminadas por Varíola Bovina, uma forma bem mais benigna da doença, causada por um parente do vírus da varíola humana.

Depois de infectar o menino com varíola bovina, Jenner esperou algumas semanas e em seguida, violando todas as regras éticas que ainda não haviam sido inventadas, infectou o jovem com varíola humana. Ele não desenvolveu a doença.

Mal a vacina foi criada, surgiram os idiotas anti-vaxxers. Caricatura de 1802, da Sociedade Anti-Vacina. (Crédito: James Gillray - Domínio Público)

A vacina da Varíola salvou milhões de vidas, confinando a doença a zonas de guerra e países muito, muito pobres, mas a memória da destruição causada por ela gerou um esforço mundial para sua erradicação, através de campanhas de vacinação mundiais, que colocaram russos e americanos, os dois grandes inimigos da Guerra Fria, lado a lado.

Vacinas impactaram imensamente outras doenças. Hoje ninguém mais se lembra de como era comum nos anos 70/80 ver crianças com muletas e braçadeiras tipo Forrest Gump, por causa da poliomielite. Até hoje temos pessoas vivendo em Pulmões de Aço, quando estágios avançados da doença tornaram seus corpos incapazes de respirar sozinhos.

Tá, mas como funciona?

O truque da vacina é induzir uma resposta imunológica, fazendo com que seu corpo treine “seguranças” pra justiçar os bandidos assim que derem as caras. Isso é feito de várias formas, mas podemos dividir em três grupos:

1 – Inativas

Nessa modalidade de vacina você pega o organismo causador da doença, e mata o bicho. Isso pode ser feito quimicamente, ou através de calor, radiação, etc Matar um vírus é simples, Borat estava certo, um martelo resolve. Difícil é matar sem matar às células à volta dele.

O vírus morto é injetado no paciente. Como seu cadáver ainda mantém a maioria das estruturas químicas intactas, o sistema imunológico entende como um organismo invasor, e comanda a produção de anticorpos para combatê-lo.

2 – Atenuadas

Alguns vírus e microorganismos não são reconhecidos depois de mortos. Então usa-se uma variação onde eles são mantidos vivos, mas são tratados para não se tornarem virulentos. Eles não conseguem infectar suas células, ou são bem mais lentos, e eventualmente são mortos pelo sistema imunológico. Essa modalidade de vacina pode ser perigosa para gente com algum tipo de imunodeficiência, pois mesmo um organismo atenuado vai causar danos se a resposta imunológica for muito baixa.

3 – Fragmentais

OK eu sei que não é essa a classificação real, mas -de novo- estou simplificando.

Digamos que você é a Madre Superiora de uma escola de normalistas, e soube que o Kid Bengala está na cidade. Você quer manter suas meninas protegidas, mas ele tem uma aparência muito genérica. Felizmente você tem uma foto da Bengala do Kid Bengala, lembrança de um fim de semana em Iguabinha que é melhor ficar no passado.

Você distribui cópias da foto da bengala para as meninas, instruindo-as para gritar pelos seguranças caso vejam algo parecido.

Da mesma forma você não precisa do microrganismo inteiro para gerar a resposta imunológica. Você só precisa do antígeno, que é a estrutura molecular específica que estimula a ação dos anticorpos e outras células do sistema imunológico.

Em essência, mesmo que você mostre uma foto inteira do Kid Bengala, o que chama a atenção do sistema imunológico é a bengala, então por que não usar só ela?

Dependendo do organismo invasor o antígeno pode ser uma sequência molecular da capa protéica do vírus, um fragmento de DNA do código genético dele, que é excretado pelas células invadidas, ou em alguns casos são usados toxóides, que são uma espécie de toxina inativa, algo que se parece o suficiente com a toxina excretada pelo organismo maligno para fazer o sistema imunológico ir atrás dela.

Um bom exemplo é a vacina antitetânica, que protege contra a toxina, não contra o bacilo vacilão, que eventualmente é dizimado pelo sistema imunológico das pessoas vacinadas.

A Vacina de mRNA

OK, estamos chegando lá.

Em nossas células a informação genética está no DNA, que se concentra no núcleo. Essa informação é usada para criar proteínas, mas como fazer essa informação chegar nos ribossomos, os órgãos celulares responsáveis pela síntese proteica.

Como arrancar um pedaço do DNA não seria uma boa ideia, a Evolução inventou um jeito melhor: Uma enzima chamada RNA Polimerase gera uma cópia da sequência de DNA relativa à proteína a ser produzida. Essa cópia é transcrita em RNA, que é expelida pelo núcleo e eventualmente capturada por um ribossomo.

Não se anime essa é homeopática. (Crédito: Divulgação)

Essa sequência de RNA que leva a informação genética a ser replicada é chama de RNA Mensageiro, ou mRNA, entendeu? Humm? Sacou?

A vacina de mRNA sequestra esse mecanismo, injetando na célula sequências de mRNA programadas para gerar proteínas existentes nos vírus, usando as próprias células do cidadão para produzir os antígenos, ao invés de depender de produção externa.

É uma técnica que foi imaginada em 1990, mas só começou a ser pesquisada a sério em 2010, com a criação da ModeRNA Therapeutics, que conseguiu um investimento considerável e tentou desenvolver vários tratamentos genéticos, até se concentrar nas vacinas de mRNA.

Uma das grandes dificuldades é que o mRNA da vacina está fora das células, e ele é muito, muito frágil, nem pense em errar seus pronomes. Existem várias estratégias para introduzir o mRNA nas células. Algumas usam vírus modificados, outras injetam o mRNA em um nódulo linfático, contando que uma boa parte vai sobreviver o suficiente para ser capturado por uma célula.

Ribossomos e mRNA vistos em microscopia eletrônica. (Crédito: Bioinfo Pakistan)

A estratégia da Moderna é uma nanopartícula de lipídios, que protegem o mRNA por tempo suficiente para ele ser absorvido.

Ironicamente a vacina de mRNA é bem mais simples de ser produzida em massa, mas em compensação ela é extremamente frágil. A vacina da ModeRNA precisa ser armazenada a temperaturas de -70°C.

A Pfeizer por sua vez desenvolveu uma vacina de mRNA que pode ser armazenada a -2°C, mas isso pode significar apenas que a ModeRNA não certificou sua vacina para temperaturas mais altas, para não perder tempo.

As vacinas de mRNA são uma tecnologia muito nova, em medicina demora-se muito para aprovar novos tratamentos, para evitar problemas. No momento não há nenhuma vacina de mRNA aprovada para uso em humanos.

Como a tecnologia já vinha sendo usada em outros tratamentos, foi dada a permissão de testes da vacina contra o SARS-COV-2, e compreensivelmente em tempos de crise as regras de segurança são afrouxadas. Todos os testes preliminares mostram que a decisão foi correta, agora ambas as vacinas estão fase final de testes, a Fase III.

No total temos 23 vacinas em desenvolvimento em fases de testes clínicos, 6 delas usando tecnologia de mRNA. Não é uma competição, pois quanto mais vacinas, melhor. Mais chance de resistirem a mutações do vírus, mais gente produzindo e distribuindo as doses.

Principalmente, essa pandemia pode ser o chute no traseiro que a gente precisava, amadurecendo a tecnologia de vacina de mRNA e abrindo caminho para mais, melhores e mais baratas vacinas para outras doenças.

A Humanidade se viu ameaçada, mas a Ciência não ficou parada. Estamos na reta final para várias vacinas contra o COVID-19, com eficácia acima de 90%. Um ano atrás eu disse: Confie na Ciência. Ela funciona. Bitches.

Dr Stone é um Naruto que é uma verdadeira declaração de amor à Ciência. Assista! (Crédito: Reprodução Internet)

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