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U-1206 - Quando um vaso de guerra foi afundado por um vaso

O U-1206 foi talvez o submarino mais azarado da Segunda Guerra Mundial, e a história de como ele encontrou seu fim é uma série de hagadas.

46 semanas atrás

O U-1206 foi um submarino alemão perdido de forma totalmente anti-germânica, não por causa de fogo inimigo mas por culpa de pura incompetência e arrogância, seu destino é uma comédia de erros que merece ser contada.

U-995, o único U-Boat Classe VII-C sobrevivente (Crédito: Wikimedia/Darkone)

Todo mundo que já leu Tom Clancy ou assistiu Das Boot sabe que não há nada de glamuroso na vida em um submarino, fora as raras vezes aonde você desfila de uniforme impecável, o resto do tempo você está em um ambiente apertado, sem privacidade e tendo que dividir sua cama com mais um ou dois candangos, com sorte, um de cada vez.

Isso nos confortáveis submarinos nucleares modernos, nos diesels da Segunda Guerra, era um inferno. Você tinha uma quantidade limitada de ar, água menos ainda, banho era no máximo um Banho Tcheco de vez em quando. A maior parte do tempo era passada na superfície, mas se o barco precisasse submergir, o inferno aumentava.

Não são refugiados, é a tripulação saudável de um U-Boat Tipo VII-C. (Crédito: Domínio Público)

O cheiro de óleo diesel se misturava ao suor, fumaça de cigarro e ar reciclado, o ruído do casco sendo comprimido pela pressão da água não ajudava quando o sujeito lembrava que teria zero chances de escapar dali se algo desse errado.

Em alguns casos até atividades simples como ir ao banheiro eram restritas.

O motivo é simples: Em submarinos nada é simples. Em navios de superfície você tem espaço para abrigar grandes tanques sépticos aonde os resíduos são tratados (ou não) e lançados ao mar. Em submarinos o espaço é restrito, então os tanques sépticos são bem menores, mas mesmo assim impactam na performance do barco, pois você tem que carregar o peso dos tanques, dos encanamentos e da caca ali armazenada.

O problema: Pressão. Uma coisa é bombear o indizível para fora quando você está na superfície. Se você está 50 metros abaixo, tem a pressão de cinco atmosferas do lado de fora, precisa de bombas bem poderosas, o que é caro e pesado.

Os Alemães decidiram que como o submarino passava a maior parte do tempo na superfície, debaixo d’água os banheiros ficariam interditados. Se fosse inevitável os tripulantes teriam que se aliviar em baldes, que com sorte não virariam durante as manobras. Quando voltassem à superfície, os baldes eram esvaziados nas privadas ou jogados no mar. O conteúdo, não os baldes inteiros.

Claro, insatisfeitos, os alemães resolveram fazer diferente, então tiveram a idéia de instalar um sistema novo nos U-Boats Tipo VIIC. Uma série de válvulas de alta pressão, câmaras de armazenamento, cilindros de ar comprimido ejetariam os dejetos mesmo a grande profundidade.

Se você já trabalhou com hidráulica sabe que isso é complicado. Mesmo o “simples” sistema americano de acionar a descarga das privadas lembra o toalete de gravidade zero de 2001. Veja os procedimentos:

Banheiro do USS Pampanito. As instruções são para outro modelo, mas você pegou a idéia. (Crédito: Reprodução Internet)

E sim, havia o risco de fazer algo errado e tudo voltar pelo cano.

Esse era o procedimento simples, o alemão era bem mais complicado, como descobriu o Kapitänleutnant Karl-Adolf Schlitt. Com 27 anos, o U-1206 era seu primeiro comando, um submarino novinho, comissionado em 1944, tendo passado um bom tempo em treinamento na 8ª Flotilha.

No dia 14 de Abril de 1945 o U-1206 estava no 9º dia de sua primeira patrulha de guerra real, a 15Km da costa da Escócia. Submerso a 61 metros de profundidade, escondendo-se das patrulhas aéreas inimigas, o Capitão Schlitt avisou a seu Número Um que iria se ausentar para proceder com o Número Dois. Aí os problemas começaram.

Talvez estimulado pelo chucrute, pelo Schweinshaxe ou pelas Bratwursts do almoço (submarinistas ao menos comem bem) ele ficou com vergonha de deixar as provas de sua bem-sucedida digestão para o técnico especialista em privada cuidar da ejeção do material.

Comandos de válvulas do UB-118 (Crédito: Domínio Público)

Sim, o sistema de descarga do U-1206 era tão complicado que era preciso um engenheiro certificado para acionar as válvulas e alavancas na ordem certa e regular a pressão de acordo com a profundidade, hora do dia, ângulo de proa, signo do terceiro-maquinista e quantidade de grãos de milho nos toletes. Ou algo assim.

Reza a lenda o Capitão do U-1206 tentou acionar os comandos sozinho, fez besteira, e acabou pedindo socorro. O engenheiro veio auxiliar, mas não revisou direito o que o comandante havia feito, não resetou o sistema e acabou abrindo a válvula errada, fazendo com que a água do mar, a uma pressão de seis atmosferas entrasse no submarino, empurrando de volta todo o material nas tubulações E nos tanques temporários. Um Gêiser de bosta subiu da privada, mas antes que alguém falasse “shit happens”, a shit verdadeira aconteceu.

Kapitänleutnant Karl-Adolf Schlitt (Crédito: Kriegsmarine)

Toda aquela água de privada escoou para a parte de baixo do submarino, onde ficavam as baterias. Como qualquer criança aprendeu na escola, água salgada e eletricidade gera eletrólise, decompondo água em Oxigênio e Hidrogênio.

Oxigênio demais não é bom, pergunte pro pessoal da Apollo I, se você conhecer um bom médium. Já Hidrogênio, bem... você sabe. Só que no caso da água do mar é pior ainda, entre as reações secundárias temos a decomposição de NaCl em NaOH e Cl2 .

Cl2 é um gás conhecido como... Cloro, foi usado como arma química na 1ª Guerra Mundial e é um dos motivos pelos quais Hitler não usou esse tipo de arma, considerava cruel demais.

Essa era a situação do U-1206. 61 metros abaixo da superfície, com um tsunami de bosta percorrendo o submarino e um gás que metia medo em Adolf Hitler inundando os compartimentos.

Dramática reconstituição da aparência média dos tripulantes durante o incidente. (Crédito: Kevin Smith)

O Capitão ordenou uma subida de emergência, esvaziando os tanques de lastro e ejetando os 5 torpedos nos tubos para perder peso mais rapidamente e aumentar a flutuabilidade.

Assim que chegaram na superfície começaram a ventilar o submarino, apenas para descobrir que um enxame de aviões aliados circulava e começava a atacar.

Sem poder submergir, o U-1206 era um alvo fácil, e alvejado foi.

Sofrendo danos cada vez maiores, o Capitão desistiu e ordenou para que a tripulação abandonasse o navio. Após todo mundo estar em botes salva-vidas, o U-1206 foi afundado pelos oficiais, pondo fim à uma vergonhosa carreira de um submarino que só esteve em uma única patrulha e nunca afundou nenhum inimigo.

Três tripulantes morreram durante a travessia até a costa escocesa, alguns foram recolhidos por um barco de pesca. No final todos foram feitos prisioneiros. 16 dias depois em Berlin, talvez por vergonha dessa história, Hitler meteu uma bala na cabeça e pôs fim à Segunda Guerra Mundial na Europa.

O Kapitänleutnant Karl-Adolf Schlitt sobreviveu à Guerra e morreu aos 90 anos, em 2009. Ele sempre negou veementemente a história da privada defeituosa, dizia que havia sido um vazamento genérico. O U-1206 foi encontrado mas nunca investigaram qual relato era o verdadeiro, o do Capitão ou o dos tripulantes, portanto este artigo inteiro pode ser baseado em uma mentira, e eu estaria inadvertidamente caluniando a imagem de um nazista. Céus nem vou dormir hoje.

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