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Chupa David Copperfield! Hollywood fez uma fábrica inteira desaparecer

Esconder uma fábrica é complicado, mesmo uma para formigas. Que dirá uma para aviões. Para isso os EA apelaram para... Hollywood.

46 semanas atrás

Usar efeitos especiais de Hollywood para esconder uma fábrica hoje em dia não faz sentido, mas curiosamente na 2ª Guerra Mundial havia gente que pensava da mesma forma, e estavam errados.

Funcionárias da Boeing podiam relaxar e pegar um sol na laje. (Crédito: Boeing)

Camuflagem é uma técnica que existe desde a Aurora do Homem; quando o primeiro antropóide semi-humano descobriu que poderia se esgueirar até o bando inimigo, e se ficasse atrás de arbustos teria uma vantagem e pegaria Gronk de surpresa, foi inventada a camuflagem, e desde então sua utilidade só aumenta.

Júlio César costumava mandar navios de reconhecimento para investigar regiões inimigas com os navios, velas, convés e marinheiros pintados de verde turquesa ou azul-esverdeado, para se confundirem com o oceano. Nas guerras mundiais todo tipo de camuflagem foi testado, inclusive uma técnica que ao invés de fazer o navio se confundir com o ambiente, o tornava tão destacado que era impossível identificá-lo.

Ninguém disse que era bonito. Ou que funcionava. (Crédito: Royal Navy)

A chamada Camuflagem Ofuscante (Dazzle) tinha por objetivo quebrar as linhas do navio, de longe em movimento o inimigo ficaria confuso e não saberia dizer se era um cargueiro ou um cruzador ou um destróier. Não deu muito certo e todo mudo abandonou.

Em terra acampamentos, unidades de artilharia e depósitos eram camuflados com redes com retalhos costurados, formando um padrão que de um avião seria indistinguível de uma área verde.

Individualmente soldados adotavam diversões padrões de camuflagem, incluindo roupas e maquiagem, todos baseados na regra que idealmente você não deve ser visto pelo inimigo.

A situação complicava quando você precisava camuflar algo grande como uma base aérea -lembre-se, era uma época antes do GPS e navegação era bem mais complicada.

Esse problema preocupava um engenheiro do exército, o Coronel John F. Ohmer Jr. Ele achava ser possível camuflar uma estrutura como um campo de aviação o suficiente para que quando uma onda de bombardeiros inimigos chegasse, eles se desorientassem o bastante para lançar as bombas a esmo.

Ohmer não era um curioso, ele era comandante do 604º Batalhão de Engenharia de Camuflagem do Exército dos EUA, sabia o que estava fazendo, tanto que no começo de 1941 ele propôs um projeto-piloto, que camuflaria o campo de Wheeler, no Hawaii. Os superiores de Ohmer acharam o custo alto, equivalente a US$900 mil em 2020, e cancelaram o projeto. Alguns meses depois os japoneses atacaram o Hawaii e dizimaram várias bases, incluindo Wheeler, que perdeu todos os aviões. O custo do projeto equivalia ao de um caça. Foram destruídos 83.

Japão 1 x 0 EUA - STOP THE COUNT! (Crédito: US Army)

Com a moral de um milhão de “eu te disse”, Ohmer agora tinha acesso ao Alto Comando, e logo suas idéias foram aproveitadas em grande escala, em algo que era para a maioria dos envolvidos, impossível: Camuflar uma fábrica inteira. Na verdade, várias.

A produção industrial dos EUA foi fundamental para a vitória dos aliados, mas ela era vulnerável. A maioria das fábricas ficava na Costa Oeste, e se a Guerra no Pacífico desse ruim, seriam alvo fácil para os porta-aviões japoneses.

Mesmo sem eles, a Costa Oeste não estava segura. Os japoneses desenvolveram um submarino-porta-aviões, e fizeram vários ataques, mas como tinham pouquíssimos aviões que carregavam uma quantidade mínima de bombas, preferiam tentar ataques a florestas próximas de regiões industriais, tentando criar incêndios, mas nunca foram bem-sucedidos.

Os EUA não podiam confiar na sorte, então o Coronel Ohmer propôs camuflar fábricas inteiras.

Claro uma rede em cima de uma fábrica inteira da Boeing não seria o suficiente, os pilotos japoneses estranhariam um quadrado de floresta pristina em meio a um subúrbio de Seattle, ou na Califórnia, com as fábricas da Lockheed e outras empresas.

O plano de Ohmer era simples: Você camufla um prédio em uma floresta fazendo ele se parecer com uma floresta. Então a melhor forma de fazer um prédio sumir em uma cidade é fazer ele parecer... outro prédio.

O Coronel Ohmer botou sua equipe para criar um subúrbio inteiro vários quarteirões de ruas, casas, árvores, carros nas ruas, pessoas, completamente falsos.

Árvore falsa, funcionária verdadeira (crédito: Boeing)

Para isso ele recorreu aos técnicos de efeitos visuais de Hollywood, Cenógrafos, Carpinteiros, Aderecistas e todo mundo que transforma meia-dúzia de tábuas e lâmpadas na ponte da USS Enterprise, e um Lady Shave em um intercomunicador espacial.

Esse pessoal montou em tempo recorde uma estrutura completa no teto da Fábrica Número 2 da Boeing, cobrindo 165 mil metros quadrados. Uma tinta desenvolvida pela Warner Brothers simulava asfalto das ruas. No começo chegaram a construir casas falsas em tamanho real mas como o efeito só seria visto de muito longe no alto, não havia necessidade das casas serem em tamanho real na altura então eram telhados com no máximo dois metros. Estruturas mais alas eram simuladas com sombras pintadas.

No lugar de árvores, os cenógrafos criaram estruturas com tela de arame e penas de galinha pintadas. Dependendo da época do ano as penas eram tingidas de cores diferentes para simular o efeito das estações do ano.

Só no teto da Boeing era 53 casas, 12 garagens, um posto de gasolina, um mercadinho e carros.

Postes com 30 metros de altura seguravam redes que expandiam a camuflagem para pátios e estacionamentos da fábrica.

A parte coberta pela rede (Crédito: Boeing)

As casas eram bem baixinhas. Note o "carro" parado na rua. (Crédito: Boeing)

O resultado era tão bom que pilotos que a usavam para se orientar várias vezes se perderam ao não achar o ponto de referência.

Reza a lenda que em certo momento a ficha caiu e o pessoal de Hollywood se tocou que eles eram os únicos grandes prédios visíveis, e a Warner Brothers ficou com medo de algum japonês desavisado confundir seus estúdios com uma fábrica e explodir os Animaniacs. Na dúvida teriam pintado no teto uma seta com a legenda “Lockheed – nesta direção”.

Últimas 4 fotos: Mais imagens bucólicas do subúrbio que não existia (Crédito: Boeing)

Como os japas não chegaram a atacar nenhuma das fábricas diretamente, não sabemos se a camuflagem teria funcionado, mas como a fábrica da Boeing produzia B-17s, B-29s e outros aviões essenciais, ainda mais com Pearl Harbour fresquinho na memória, melhor não arriscar, afinal, ao contrário dos pilotos kamikazes, seguro morreu de velho.

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