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Salvando a Grécia em Immortals Fenyx Rising

Contando com muitos dos elementos presentes no Zelda: Breath of the Wild, Immortals Fenyx Rising é uma ótima pedida para os fãs da mitologia grega

20 semanas atrás

Quando a Ubisoft anunciou ao mundo o desenvolvimento do Immortals Fenyx Rising, inicialmente conhecido como God & Monsters, imediatamente ficou clara a semelhança com um dos melhores jogos de todos os tempos, o The Legend of Zelda: Breath of the Wild. Mas como a linha entre cópia e inspiração é tênue, restava saber se a nova franquia conseguiria ter sua própria identidade e embora as semelhanças estejam por todos os lados, a nova incursão da empresa pela mitologia grega mostrou-se competente na maior parte do tempo.

Immortals Fenyx Rising

Crédito: Divulgação/Ubisoft

Zeus e o Tifão na terra do Sol

Em Immortals Fenyx Rising seremos Fenyx, um guerreiro de baixo patente (que pode ser tanto homem quanto mulher) que acorda na Ilha Dourada após o navio em que estava naufragar. Conhecida como o lar dos deuses, o/a protagonista logo percebe que todos os humanos que viviam ali foram transformados em pedra e não demora até descobrirmos que o problema foi criado por Tifão, um titã que havia sido enviado ao Tártaro por Zeus e que agora está em busca de vingança.

Dando continuidade à Titanomaquia, que na mitologia grega é a guerra entre os titãs e os deuses do Olimpo, no jogo Tifão consegue escapar do seu confinamento e realizar um contra-ataque, derrotando seus adversários e roubando suas essências. Assim veremos uma Afrodite sem o seu amor característico ou Ares sem todo o ódio pelo qual ele ficou conhecido e caberá ao nosso personagem encarar diversas tarefas para fazer com que os deuses percebam o quanto são importantes.

Com uma história um tanto simples e sem muitas reviravoltas, onde um reles mortal deverá juntar forças para enfrentar um ser com poder absurdo, o destaque vai para o tom bem humorado proposto para o enredo e para a maneira como a narrativa se desenrola, o que nos leva a um dos pontos altos do jogo.

Prometeu e Zeus, uma dupla lendária!

Embora seja um jogo de mundo aberto onde podemos escolher para onde ir e quais missões realizar, Immortals Fenyx Rising tem a sua história narrada por aquele que é conhecido como o defensor da humanidade, o titã Prometeu. Sabendo o desfecho da saga encarada por Fenyx, ele promete contar os eventos vividos pelo herói, mas faz uma aposta com Zeus: se o mortal sair vencedor, estará livre do castigo ao qual foi submetido no passado pelo pai dos deuses.

A partir daí o que acompanharemos será um divertido embate entre os dois, já que enquanto Prometeu busca contar a história da protagonista e da mitologia grega em geral, Zeus está sempre pronto para fazer alguma piada, reclamar de como o “amigo” está demorando em sua narrativa ou mostrar toda a sua arrogância e até mesmo uma certa ingenuidade. Com os diálogos da dupla sendo muito bem escritos, é fascinante vermos que mesmo estando repleta de tragédias, esta mitologia pode ser tratada de uma maneira mais leve e caricata.

Essa abordagem também ajuda a distanciar o títulos de outros jogos que já se dedicaram a falar sobre o assunto e junto com o estilo visual cartunizado, parece ter sido a escolha ideal. Mas seja por situações como a nítida vergonha de Prometeu ao contar a verdadeira história da criação de Afrodite, o que envolve um caso de espuma do mar e a castração de Urano, seja por uma direção de arte tão colorida, não pense que o Immortals Fenyx Rising é um jogo voltado para o público infantil.

Crédito: Divulgação/Ubisoft

Explore, colete, evolua e repita (à exaustão)

Mas se no enredo o jogo não tem muita semelhança com a tão aclamada criação da Nintendo, o cenário muda completamente quando se trata da jogabilidade. Um exemplo está no fato de termos que lidar com uma barra de resistência que será consumida enquanto estivermos escalando ou planando com o auxílio das asas de Dédalo, numa clara referência ao paraquedas do Breath of the Wild.

Immortals Fenyx Rising ainda aproveita outros elementos que tornaram a aventura do Link tão memoráveis, como a possibilidade de erguermos objetos com o auxílio das Braçadeiras de Hércules, que adquirimos nos primeiros minutos, ou de revelarmos parte do mapa após subirmos em determinadas estruturas, assim como acontecia com as Torres Sheikah — embora este seja um elemento bastante característico dos jogos da própria Ubisoft.

Outros detalhes que nos remetem ao Breath of the Wild são as Câmaras de Tártaro, locais onde teremos que passar por uma série de quebra-cabeças e que se assemelham às Shrines, ou ainda as bênçãos que receberemos ao ajudar os deuses, algo nos mesmos moldes das Divine Beasts. Há inclusive um desses presentes divinos que nos fará voltar dos mortos caso sejamos derrotados em uma batalha.

Mas um ponto em que o jogo não consegue replicar toda a genialidade presente na obra da Nintendo, é quando se trata da exploração. Sim, o mundo de Immortals Fenyx Rising é imenso, estando repleto de detalhes, inimigos para serem derrotados ou itens para serem coletados. Porém, há algumas escolhas de design que prejudicam o ato de vasculhar cada canto.

Uma delas está na possibilidade de destacarmos itens, câmaras e baús no mapa. Isso acontecerá ao mudarmos a visão para primeira pessoa e ao movermos o cursor sentiremos o controle vibrar e a mira ficará maior conforme a aproximarmos do item ainda não revelado. O problema é que depois de um tempo esse processo se torna um tanto maçante e como os itens podem ser identificados mesmo se não estivermos numa posição mais alta, usar os monumentos que servem para revelação do mapa perde um pouco do sentido.

Immortals Fenyx Rising

Crédito: Divulgação/Ubisoft

Já na parte dos combates, como o jogo não conta com uma sistema de ganho de experiência, abandonar o nosso caminho para encarar um grupo de inimigos é algo que logo percebemos que só servirá para tomar o nosso tempo, então, a menos que eles estejam guardando algum baú, não há necessidade de nos preocuparmos. As exceções são as formas corrompidas de heróis como Aquiles ou ainda seres mitológicos que aparecerão eventualmente, como a Medusa.

Mesmo assim, vascular o mapa ainda será extremamente necessário, pois há diversos itens que serão obrigatórios para criarmos porções, aumentar nossas barras de saúde e resistência ou melhorar armas e armaduras. Passar um bom tempo procurando por eles é algo com o qual teremos que lidar, mesmo quando o nosso maior interesse for apenas partir em direção a alguma missão. Para quem está acostumado a jogos de mundo aberto, especialmente os das Ubisoft, esta incessante busca por recursos não chegar a ser uma surpresa, mas não há como negar o modelo tem mostrado sinais de cansaço.

Eu também não gostei muito do ritmo com que ganhamos novos golpes e habilidades. Com as Moedas de Caronte sendo um pouco raras, passei boa parte do jogo sem ter o número suficiente delas para poder fazer melhorias no meu personagem. É claro que isso vai depender da maneira como a pessoa avançará pela campanha, afinal podemos focar em adquirir primeiro essas moedas, mas para isso é preciso ter consciência que muitos desafios terão que ser superados.

Contudo, há uma boa ideia por parte dos desenvolvedores quando se trata dos itens, que é a maneira como as armas e peças de armadura são diferenciadas. Aqui elas nos darão habilidades passivas como um aumento no ataque aéreo, uma barra de saúde maior ou maior recuperação de resistência. Assim, quando optarmos por fazer uma melhoria na espada ou no capacete, todos os itens do mesmo tipo ficarão mais fortes, cabendo ao jogador decidir qual melhor lhe servirá. Isso faz com que não corramos o risco de abrir um baú e nos deparar com um equipamento mais fraco do que aquele que já usamos, já que todos são capazes de para alterar algum tipo de status.

Uma animação em forma de jogo

Embora eu tenha citado brevemente o estilo visual mais caricato do Immortals Fenyx Rising, preciso deixar claro o quanto o jogo me agradou neste aspecto. Não seria exagero dizer que ele lembra muito as animações que temos visto ser produzidas por grandes estúdios de Hollywood, com o mundo criado pela Ubisoft estando certamente entre os mais bonitos dos últimos anos.

Dos personagens até os cenários, tudo se encaixa de maneira muito harmoniosa, com destaque para a forma como cada região do mapa reflete o deus que a habita. Por exemplo, quando você chegar na morada de Hefesto, que é o deus do fogo e da metalurgia, estará numa região montanhosa, com oficinas e robôs espalhados por todos os lados. Já a morada de Afrodite é muito mais bonita, com florestas cheias de árvores coloridas, rios cortando as montanhas e belos palácios.

Isso ajuda a trazer alguma variedade ao jogo e de certa forma nos incentiva a explorar, mas aquilo que considero mais importante é maneira como a direção artística distancia o título da pegada mais realista que nos acostumamos a ver na indústria nos últimos anos. De certa forma, é como se ele fosse um sucessor espiritual do Herc's Adventures, um excelente jogo lançado pela LucasArts em 1997, para PlayStation e Sega Saturn.

Immortals Fenyx Rising

Crédito: Divulgação/Ubisoft

Uma divertida, mas longa viagem

Sem nunca esconder sua fonte de inspiração, a semelhança do Immortals Fenyx Rising com o The Legend of Zelda: Breath of the Wild é ao mesmo tempo a sua glória e a sua desgraça. Por um lado, é muito bem ver que aqueles que não possuem um Switch ou um Wii U terão a oportunidade de experimentar algo que tenta seguir os passos da obra de arte criada pela Nintendo. Por outro, as comparações são inevitáveis e talvez apenas a parte dos combates seja aquela que consegue superar o que vimos no título que lhe inspirou.

Sim, Fenyx é um personagem carismático, sempre deixando claro suas falhas, fazendo questão de dizer que gosta de ajudar as pessoas e tendo que lidar com a ajuda de um sarcástico Hermes; a parceria entre Zeus e Prometeu já entra para o panteão — com o perdão do trocadilho — dos games; o mundo criado pela Ubisoft Quebec é lindo e a jogabilidade não possui um defeito marcante, conseguindo nos entregar um combate sólido e quebra-cabeças divertidos e em muitos casos, bastante desafiadores.

Ainda assim, parece faltar um pouco de alma ao Immortals Fenyx Rising e sobrar coisas para serem feitas. Acho louvável uma empresa tentar fornecer o máximo possível de conteúdo para nos manter entretidos, mas se o jogo focasse mais em nos entregar missões e trouxesse os divertidos diálogos entre os “apresentadores” com mais frequência, além de o seu mundo aberto ser mais enxuto e sem tanta necessidade de coleta de recursos, acredito que a experiência seria muito mais intensa e consequentemente mais memorável.

Contudo, estamos falando de uma nova franquia, onde os responsáveis por ela poderão aprender com os erros e nos propor viagens ainda mais divertidas no futuro. Dada a sua temática, acredito que ainda veremos outros seres imortais recebendo o mesmo tratamento por parte da Ubisoft e se isso acontecer, certamente passarei mais algumas dezenas de horas nessas mitologias.

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