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Mathias Rust - O Alemão que fez o Império do Mal passar vergonha

Mathias Rust foi um jovem idealista que resolveu promover a Paz através de um gesto meio suicida: Ele voou com um monomotor até Moscou.

04/12/2020 às 20:40

Mathias Rust era um pacifista, mas mesmo assim conseguiu humilhar a maior potência militar do planeta, em uma aventura envolvendo sorte, insanidade, incompetência e um alinhamento de circunstâncias que se contado em um filme seria criticado por roteiro “conveniente” e “tudo dá certo pro mocinho”.

Moscou, temos um problema.(Crédito: Reprodução Internet)

O Cenário

O ano era 1987. A Guerra Fria estava pegando fogo. De um lado Ronald Reagan, que em 1983 havia chamado a União Soviética de Império do Mal. Do outro lado Mikhail Gorbatchov, Secretário-Geral do Partido Comunista, comandando um país e arrastando-o à força para o Século XX, implementando suas políticas de Glasnost e Perestroika promovendo abertura e reformas políticas estruturais e econômicas.

Isso não quer dizer que os russos fossem bonzinhos, Gorbatchov continuava com tropas no Afeganistão, Rambo só seria lançado em 1988, os silos de mísseis nucleares permaneciam aquecidos e prontos para disparar. Nos mares submarinos de ambos os lados patrulhavam e se caçavam mutuamente.

A linha dura de Reagan deixava os russos com a certeza de que um ataque era questão de tempo e por causa disso construíram o maior e mais eficiente sistema antiaéreo do mundo.

Mapa secreto de defesas aéreas soviéticas nos Anos 60 (Crédito: NRO)

Radares, bases aéreas com caças interceptadores e esquadrões de mísseis antiaéreos em toda a fronteira e no interior protegiam a União Soviética dos bombardeiros da OTAN. Nas principais cidades, uma arma de último recurso: Mísseis carregados com ogivas nucleares seriam lançados caso mísseis inimigos fossem detectados.

O plano era detonar as ogivas na alta atmosfera, destruindo ou inutilizando as bombas inimigas.

As duas superpotências vinham de um encontro fracassado aonde tentaram inutilmente reduzir seus arsenais nucleares. Em meio a isso, um jovem alemão de 18 anos levemente perturbado escreveu um manifesto com propostas de paz e resolveu entregar em mãos a ninguém menos que Mikhail Gorbatchov, mas como não era exatamente trivial viajar para a União Soviética, Rust apelou para o transporte alternativo.

O Plano

Fora resolver conflitos globais seu outro passatempo e paixão era a aviação. Ele tinha 50 horas de vôo como piloto privado, e como não tinha lido este artigo, não sabia nada das defesas antiaéreas da União Soviética, então achou uma boa idéia voar para Moscou.

Ele alugou um Cessna F172P, removeu a maioria dos assentos, instalou tanques de combustível extras, comprou cartas de navegação que cobriam boa parte do Leste Europeu e em 13 de Maio de 1987 ele decolou de Hamburgo rumo às Ilhas Faroé ao norte da Escócia mas pertencentes à Dinamarca.

Cessna F172P. Não exatamente um SR-71. (Crédito: Wikimedia)

De lá ele foi para a Islândia, a viagem na direção oposta a Moscou era pra treinar suas habilidades de navegação, em 1987 GPS ainda era uma tecnologia essencialmente militar e Cessninhas não vinham equipados com receptores, e nem queiram saber como era ruim o Google Maps de 1987.

Mathias Rust passou uns dias em Reykjavik pensando na vida e refinando seus planos. Depois decolou para Bergen, na Noruega, e de lá para Helsinki, na Finlândia. Era o momento decisivo. Ele abasteceu todos os tanques auxiliares, que aumentavam a autonomia do avião de 324Km para 1400Km. Temendo a defesa antiaérea russa, Rust se equipou com um capacete de motociclista.

Decolando 28 de Maio com plano de vôo tendo com destino Estocolmo, ele esperou sair da área de cobertura da Torre, rumou para Leste e desligou o rádio. Acharam até que Mathias Rust havia se acidentado, e buscas foram feitas no mar, mas ele seguia firme e forte rumo ao Império do Mal.

Mathias Rust havia dobrado suas horas de vôo, e se sentia confiando o suficiente para achar que suas chances de chegar a Moscou eram de 50%.

A Comédia de Erros dos Outros

Sobrevoando o que hoje é a Látvia, o Cessna logo apareceu em radares soviéticos, mas alguns ignoraram, ele voava baixo e lento demais, e sua assinatura era pequena demais para ser um avião militar.

Em Tapa dois caças foram mandados para investigar, pois ele não tinha um sinal de transponder. Se aproximando, o piloto soviético viu um avião parecido com um Yak-12 um monomotor multiuso bem comum na União Soviética. Achando que era só algum adolescente confuso em um vôo de treino, o piloto russo voltou pra base.

Sem saber, Mathias Rust complicou mais ainda a vida dos soviéticos. Ele estava voando a 2500 pés, mas nuvens baixas o fizeram descer bem abaixo disso, e ele sumiu dos radares. Só foi recapturado bem depois, mais de duas horas dentro da União Soviética.

Um MIG-23 é mais que suficiente pra estragar o dia de um Cessna. (Crédito: DOD)

Novamente caças foram enviados para interceptá-lo. Dessa vez dois  MIG-23, que tiveram  que reduzir o motor ao mínimo, baixar flaps ao máximo e estender o trem de pouso para conseguir voar tão devagar quanto o Cessna. O russo tentava fazer Mathias usar o rádio, mas o rádio do Cessna não trabalhava nas frequências militares russas.

Os dois pilotos repassaram para o comando o prefixo do avião de Mathias Rust, e informaram que ele tinha uma bandeira da Alemanha Ocidental pintada. O comandante não acreditou e não passou adiante a informação.

Depois de algum tempo os caças foram embora. Rust não entendeu como não foi abatido, mas isso se deveu principalmente a um incidente em 1983, quando um caça russo derrubou um 747 da Korean Air Lines matando 269 pessoas, depois que o avião se desviou da rota e passou perto das Ilhas Sakhalinas, no Mar do Japão. Os russos acharam que o vôo KAL007 era um vôo espião.

A imprensa não mediu palavras. (Crédito: Reprodução internet)

O Major pilotando o caça soviético identificou o avião como um Boeing civil, mas não reportou isso pois “aviões civis podem ser usados para espionagem” e logo veio a ordem do abate.

A repercussão foi mundial e negativa, e mesmo negando que tenham feito algo errado, os soviéticos ficaram bem mais contidos, então ninguém queria dar a ordem de abater o Cessna.

Mais adiante Mathias Rust entrou em uma zona de treinamento de vôo aonde 12 outros aviões faziam manobras de rotina. Todos tinham assinaturas de radar parecidas, mas transmitiam sinais de transponder de identificação.

Os soviéticos eram bem anais com sua segurança então os pilotos em treinamento deveriam mudar os códigos dos transponders de tempos em tempos seguindo uma tabela pré-estabelecida, para evitar que algum invasor imperialista se disfarçasse com um código de transponder amigável.

Quando um operador de radar apontou que um dos aviões não tinha um código de transponder válido, o superior disse que provavelmente era um estudante confuso, e mandou marcar aquele avião como amigo. Era o invasor imperialista Mathias Rust.

Sendo justo eu confundiria um Yak-12 com um Cessna mas eu não sou um piloto de caça! (Crédito: Wikimedia)

Chegando a Torzhok, Rust foi novamente identificado pelo radar. Quer dizer, havia dois helicópteros fazendo uma operação de busca e salvamento na região, o operador de radar achou que o sinal do Cessna era o de um dos helicópteros. De novo, marcaram Rust como contato amigável.

Passando por Leningrado, o controlador de vôo responsável recebeu a informação de que havia um avião soviético de pequeno porte sem transponder, o que não era exatamente raro. Ninguém informou que ele vinha sendo rastreado desde a Finlândia, todas as unidades de controle de tráfego e defesa não conseguiam se comunicar.

Mathias Rust continuava seu vôo. Sem perceber ele atravessou o Anel de Ferro, três círculos concêntricos de baterias de mísseis em volta de Moscou, que deveriam deter esquadrilhas de bombardeiros inimigos, e ignoravam alvos pequenos como um Cessna.

Rust chegou a Moscou 6 da tarde e começou a circular tentando achar o Kremlin.

A Rota de Rust (Crédito: Wikimedia)

Depois de rodar bastante ele identificou o prédio, daria para pousar fácil lá mas pensando melhor, ele se tocou que a KGB iria simplesmente fazer o Cessna e ele desaparecerem. Mathias Rust decidiu então pousar na Praça Vermelha.

Ele acabou escolhendo a ponte Bolshoy Moskvoretsky, que estava interditada. Alinhando o cessninha com a ponte, Mathias Rust fez um pouso perfeito, evitando cabos no começo e no fim da ponte. Eram parte da fiação do trólebus, normalmente havia cabos por toda a ponte, mas naquele dia em especial a fiação havia sido removida para manutenção.

Às exatas 18 horas e 43 minutos Mathias Rust pousava em Moscou, tendo ludibriado o maior e mais poderoso sistema de defesa aérea do mundo, usando nada além de um simples avião civil tão básico quando... um Lada.

As pessoas começaram a cercar o avião, algumas tiravam fotos, quando descobriram que ele era estrangeiro, ficaram maravilhadas. Uns ofereciam comida, outros pediam autógrafos. Em meio à multidão agentes da KGB começavam a confiscar as máquinas fotográficas, mas o mais incrível foi que em uma era anterior a smartphones, o pouso foi filmado, e na horizontal.

Uma das muitas fotos que escaparam à censura da KGB (Crédito: Internet)

Robin Stott era um turista inglês que conseguiu um raro visto para a União Soviética, e estava filmando a Praça Vermelha com o auge da tecnologia da época, uma trambolhosa câmera VHS. Ele ouviu a agitação, apontou a câmera e bingo! Pegou o Cessna em flagrante.

Depois de duas horas finalmente apareceram agentes para deter Mathias Rust, perguntar se ele tinha passaporte e inspecionar o avião. Em seguida ele (Mathias, não o avião) foi levado para a prisão de Lefortovo.

Os interrogadores não conseguiam acreditar na história de Mathias Rust. Primeiro o acusaram de planejar em detalhes o vôo, pois foi no Dia dos Guardas Da Fronteira, um feriado aonde a maioria dos militares estava de folga. Rust explicou que não fazia idéia dos feriados soviéticos. As acusações de praxe de espionagem foram feitas, alguns diziam que ele era um agente da CIA que estava em um vôo kamikaze para ser derrubado e criar outro KAL007. Havia até quem dissesse que ele estava espalhando panfletos nazistas exigindo a libertação de Rudolph Hess.

O Cessninha espera os comunistas terminarem a reunião que decidirá o que acontecerá com ele. (Crédito: Internet)

O avião foi desmontado até o último parafuso, mas nada de suspeito foi achado. Com as fotos e o vídeo sendo divulgados não havia como abafar o caso.

Ele foi rapidamente julgado e depois de 3 dias condenado a 4 anos de trabalhos forçados, por invasão de espaço aéreo, violação de legislação aeronáutica e “malicious hooliganism”, que pode ser traduzido por “trollagem extrema”.

Internamente Gorbatchov estava furioso E extremamente satisfeito. Estava evidente que as defesas russas eram um lixo, um Cessna poderia perfeitamente carregar uma ogiva nuclear e, sem ser detectado varrer uma cidade soviética do mapa.

Mathias Rust entra para ser julgado e condenado. (Crédito: EASTBLOCKWORLD.COM)

Rapidamente o Marechal Sergei Sokolov, Ministro da Defesa, e Alexander Koldunov Chefe das Defesas Aéreas Soviéticas foram demitidos. Gorbatchov aproveitou para fazer uma limpa eliminando (no bom sentido, não no do Stalin) milhares de oficiais linha-dura que eram contra suas reformas.

A população por sua vez havia sido adestrada para achar que a União Soviética estava à beira da Guerra e só era protegida por suas defesas inexpugnáveis. Se um simples Cessna conseguia voar até Moscou, talvez os americanos não estivessem prontos para pular no pescoço deles afinal.

Reagan e Gorbatchov, agora fortalecido politicamente assinaram em Maio de 1988 um tratado eliminando a presença de mísseis balísticos de alcance intermediário na Europa, e em Agosto do mesmo ano Mathias Rust foi libertado, como gesto de boa vontade.

Ele passou 14 meses preso.

14 meses depois Mathias volta para casa. (Crédito: EASTBLOCKWORLD.COM)

Retornando à Alemanha, Rust teve uma vida atribulada, sendo preso por esfaquear uma enfermeira que recusou seus avanços. Ele também se meteu com um esquema de fraude, casou com uma indiana, se converteu ao hinduísmo, roubou um casaco, virou jogador de poker profissional, montou uma ONG de meditação para salvar o mundo e trabalha em um banco de investimentos em Zurique. Vidinha agitada.

É impossível determinar o quanto Mathias Rust foi importante para as reformas de Mikhail Gorbatchov e eventualmente para o fim da União Soviética, mas é inegável que ele mostrou ao mundo que o rei estava nu, e deixou muita gente sem dormir tanto em Moscou quanto em Washington, pois o que ninguém comentou na época é que as defesas da OTAN eram igualmente frágeis e um russo poderia ter feito o mesmo vôo, do Alaska até a Casa Branca, sem ser identificado ou abatido.

Fontes:

 

 

 

 

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