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O dia em que Final Fantasy XIV reaproximou pai e filho

Relembre a história de como Final Fantasy XIV reconectou um pai reservado com seu filho, que nos deixou ao perder a luta contra o câncer

41 semanas atrás

ATUALIZAÇÃO: Naoki Yoshida, diretor e produtor de Final Fantasy XIV, publicou no blog de desenvolvedores do jogo um longo e emocionado texto em homenagem à "Maidy", falando sobre como o conheceu e de seus gostos em comum. Vale a leitura.


Final Fantasy XIV é talvez um dos poucos MMORPGs que conseguiu, ao longo dos anos, reunir uma comunidade exemplar e saudável, com jogadores verdadeiramente dispostos a curtir o jogo e ajudar quem está começando. E como não podia deixar de ser, ele reuniu diversas histórias.

No entanto, nenhuma delas é mais tocante ou teve mais impacto do que a contada pelo jogador japonês conhecido como "Maidy", sobre como ele usou o jogo para se reconectar com seu pai recluso.

Infelizmente, o autor do emocionante relato faleceu recentemente, vítima de um câncer contra o qual ele lutou por anos.

Cena da minissérie Final Fantasy XIV: Dad of Light (Créditos: Reprodução/MBS/TBS/Square Enix)

Cena da minissérie Final Fantasy XIV: Dad of Light (Créditos: Reprodução/MBS/TBS/Square Enix)

A história original foi contada entre agosto de 2014 e abril de 2016, em uma série de postagens no blog pessoal de "Maidy", um jogador ativo de Final Fantasy XIV no servidor Gungnir. Segundo o relato, o pai de "Maidy", agora um senhor de mais de 60 anos, se tornou recluso ao longo dos anos, o que dificultou a comunicação entre eles, limitada apenas ao básico do básico.

No entanto, ele sempre foi um gamer inveterado e consumia títulos diversos, como FPS. Quando "Maidy" viu seu pai jogando Monster Hunter, ele teve a ideia de atraí-lo para Final Fantasy XIV e tentar uma reaproximação através do jogo, com sua miqo'te agindo como uma guia para o recém-chegado highlander (não aquele), que escolheu o hilário nome (segundo o filho) de "Inoue".

O plano de "Maidy", chamado "Hikari no Otousan" (literalmente "Pai da Luz") consistia em instruir "Inoue" e guiá-lo pelo mundo de Eorzea sem revelar sua real identidade, o que só seria feito no momento oportuno.

O que "Maidy" não sabia, é que "Inoue" estava com câncer e escondeu o fato da família, que achou muito estranho ele deixar o emprego que tinha sem nenhum aviso. Apenas quando ele passou por complicações e quase morreu, "Maidy" entendeu o que estava realmente se passando com seu pai.

Ainda assim, pai, filho e outros jogadores travaram diversas aventuras no jogo, e "Maidy" só revelou sua identidade depois que ambos derrotaram um chefe poderoso. Você pode ler o relato completo neste blog, que traduziu as postagens de "Maidy" para o inglês.

"Inoue" e "Maidy", pai e filho, se divertem em Final Fantasy XIV (Crédito: Reprodução/Square Enix)

"Inoue" e "Maidy", pai e filho, se divertem em Final Fantasy XIV (Crédito: Reprodução/Square Enix)

A história chamou a atenção da Square Enix, que em 2016 publicou um livro com o nome Final Fantasy XIV: Hikari no Otousan, em uma versão romanceada onde nomes e eventos foram alterados, para dar mais peso dramático. A publicação se tornou um best-seller, e logo ele foi adaptado em uma minissérie.

Disponível na Netflix, Final Fantasy XIV: Dad of Light possui 8 capítulos e intercala cenas da vida real com material diretamente de Final Fantasy XIV, usando uma taxa de quadros proposital de 30 fps, para reproduzir como o jogo funcionaria em uma conexão ADSL, como a da residência de "Maidy" e "Inoue".

A minissérie foi bastante elogiada pelo público, já a crítica especializada, por sua vez, apontou que o formato deixou a narrativa mais longa do que precisava ser. Ainda assim, os elementos originais do conto de "Maidy", incluindo os problemas de saúde de seu pai, foram reproduzidos.

Em 2019, a história foi novamente recontada, mas desta vez, na forma de um filme para o cinema. Embora o nome no Japão tenha sido mantido como Final Fantasy XIV: Hikari no Otousan — O Filme, no ocidente ele foi renomeado como Brave Father Online: our story of Final Fantasy XIV.

A história e formato são basicamente os mesmos, mais condensados para se adequarem ao formato cinematográfico, mas por outro lado, o elenco foi todo reescalado em relação ao da minissérie. Um dos motivos foi o fato de que o ator Ren Osugi, que interpretou o pai, faleceu em 2018.

O filme possui uma boa avaliação no IMDb, no entanto, a pandemia da COVID-19 atrapalhou os planos de distribuição da película deste lado do mundo.

O relato de "Maidy" sobre como o relacionamento com seu pai for retomado através de Final Fantasy XIV demonstra, mais uma vez, como os jogos podem ser usados como forças construtivas e elos entre as pessoas, ainda mais no momento em que vivemos hoje. Embora "Inoue" tivesse seus motivos para ser um homem reservado, a história é uma prova de que videogames não precisam, não pdem ser encarados como experiências individuais.

No jogo, "Inoue" era muito mais aberto a "Maidy" e outros aventureiros do que era com sua família na vida real, e este é também um ponto positivo não só sobre os games, mas especificamente para Final Fantasy XIV. É consenso que ambientes online, em especial MMORPGs, costumam reunir uma comunidade integrada por muitos jogadores problemáticos, alguns até mesmo para lá de tóxicos.

Isso é algo que nem mesmo World of Warcraft conseguiu sanitizar ao longo de seus 16 anos de história (talvez a Blizzard não tenha interesse), mas a Square Enix sempre foi zelosa ao extremo com sua franquia mais valiosa (segundo o estúdio). Quando Final Fantasy XI foi lançado em 2002, houve a preocupação genuína de garantir um ambiente saudável e bem-vindo a todos, e os jogadores entenderam o recado.

Final Fantasy XIV é um dos ambientes online mais amigáveis para jogadores que seriam hostilizados em outros títulos (Crédito: Reprodução/Square Enix)

Final Fantasy XIV é um dos ambientes online mais amigáveis para jogadores que seriam hostilizados em outros títulos (Crédito: Reprodução/Square Enix)

A recusa da Square Enix em abolir a cobrança de mensalidade em Final Fantasy XIV e Final Fantasy XI, que continua online, ou de transformar o jogo em um free-to-play, é justificada pelo desejo de manter um ambiente saudável. Só quem estiver disposto a pagar (muito) vai entrar, e esses consumidores não vão querer perder uma boa grana jogando como trolls, e acabarem sendo banidos.

Não obstante, a comunidade de Final Fantasy XIV é composta não só dos fãs da franquia, mas também de muitos jogadores que fugiram de ambientes tóxicos em outros jogos, incluindo World of Warcraft. Por esse mesmo motivo, o diretor Naoki Yoshida nem cogita a ideia de incluir o jogo no Xbox Game Pass, embora haja planos de lançá-lo para os consoles da Microsoft em breve.

No fim das contas o alto custo do jogo, das expansões e da mensalidade (hoje existe uma versão gratuita parcial, que permite avançar até o nível 60 e libera algumas raças para o jogador criar seu avatar, mas não todas) funcionam como o filtro definitivo para manter os trolls bem longe de Final Fantasy XIV, e mesmo que alguns entrem, os moderadores e os próprios jogadores atuam para coibir suas ações.

Cena da minissérie Final Fantasy XIV: Dad of Light (Créditos: Divulgação/MBS/TBS/Square Enix)

Cena da minissérie Final Fantasy XIV: Dad of Light (Créditos: Divulgação/MBS/TBS/Square Enix)

Mas voltemos a "Maidy" e "Inoue". Em junho de 2020, o filho revelou em seu blog que estava tratando um câncer colorretal, quando o tumor maligno se manifesta na última porção do intestino grosso, o 3º tipo mais frequente em homens, depois do de próstata e o de pulmão. Segundo o autor, ele passou por uma cirurgia para extirpá-lo no fim de 2018, mas recentemente, a doença voltou.

Sua última postagem no blog foi ao ar no dia 21 de novembro de 2020, e nesta quinta-feira (10), a conta da obra original no Twitter, ligada à Square Enix, comunicou o falecimento de "Maidy".

"O sr. "Maidy", autor original da série "Final Fantasy XIV: Dad of Light", faleceu.
Como um guerreiro da luz, ele amava o mundo de Eorzea e se esforçou para produzir e promover a versão cinematográfica.
Oremos por sua alma do fundo de nossos corações."

Este não é o desfecho que as pessoas queriam para a história de reaproximação entre um pai e seu filho, mas a vida é... bem, a vida. Ainda assim, "Maidy" e "Inoue" deixaram um exemplo de como os games podem ser não apenas peças de entretenimento, mas também pontes entre as pessoas, que se tornaram distantes por mais próximos fisicamente que estejam.

Por mais que a Square Enix tenha usado a história para capitalizar em cima, com um livro, uma minissérie e um filme, é importante notar que "Maidy" sempre esteve envolvido em todas as produções e mais, a experiência que ele teve com seu pai foi única e genuína, de uma forma que não poderia ter se dado de outra forma com o mesmo desfecho.

No fim "Inoue" e "Maidy" são o pai e o filho da luz, que encontraram no mundo fantástico de Eorzea um laço que os uniu de uma forma que ninguém poderia imaginar, e que serviu de inspiração para muitos outros jogadores, em muitos casos o filho que cresceu jogando com o pai, que agora usa um novo jogo para se aproximar novamente de seu parente recluso ou reservado.

Cena do filme Brave Father Online: our story of Final Fantasy XIV (Créditos: Divulgação/Gaga Corporation/Square Enix)

Cena do filme Brave Father Online: our story of Final Fantasy XIV (Créditos: Divulgação/Gaga Corporation/Square Enix)

Quanto à "Maidy", que ele agora possa caminhar sob a luz do cristal de Eorzea.

Fonte: Siliconera

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