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Medal of Honor: quando a 2ª Guerra chegou ao PlayStation

Saiba como Steven Spielberg fez uma ousada aposta e, com o Medal of Honor, conseguiu despertar o interesse de público mais jovem pela Segunda Guerra Mundial

21 semanas atrás

Se hoje muitas pessoas estão fartas de jogos ambientados na Segunda Guerra Mundial, houve uma época em que eles eram praticamente inexistentes, ainda mais em se tratando de títulos que tentavam recriar o conflito de maneira mais realista. E foi naquele cenário que nasceu o Medal of Honor, jogo idealizado por Steven Spielberg e que daria início a uma nova febre entre os jogos de tiro em primeira pessoa.

Medal of Honor

Crédito: Reprodução/EA

Para contarmos a história do desenvolvimento daquele jogo é preciso voltar a novembro de 1997. O mundo ainda não havia tido a oportunidade de assistir superproduções como Além da Linha Vermelha ou O Resgate do Soldado Ryan, mas enquanto filmava este e ao ver o seu filho jogando GoldenEye 007, Spielberg percebeu que poderia usar os videogames para apresentar histórias da guerra a um público mais novo.

O cineasta então marcou uma reunião com o pessoal da DreamWorks Interactive, estúdio que ele havia fundado alguns anos antes e nela ficou decidido que Peter Hirschmann assinaria o projeto como roteirista e produtor. Visando fazer com que o jogo fosse tanto uma forma de entretenimento quanto uma obra educativa, Spielberg convidou alguém que era bastante conhecido de Hollywood, o veterano Dale Dye.

Tendo servido na Guerra do Vietnã, Dye acabou se tornando um consultor militar e ator. Com a sua carreira tendo iniciado no filme Platoon, entre outros ele ainda participou da criação de obras como Nascido em 4 de Julho, JFK: A Pergunta que Não Quer Calar, Assassinos por Natureza e o próprio O Resgate do Soldado Ryan, além de séries como JAG: Ases Invencíveis e posteriormente, a espetacular Band of Brothers, onde interpretou o Coronel Robert Sink.

Medal of Honor

Crédito: Reprodução/Youtube/EA

A aposta no realismo e as limitações técnicas

Pelos próximos meses coube aos profissionais da desenvolvedora descobrir como transformar a visão de Spielberg em um jogo, com a plataformna escolhida para o seu lançamento sendo o primeiro PlayStation, devido a enorme popularidade do console na época. Como explicou Hirschmann, o primeiro desafio seria fugir da temática de ficção-científica presente na maioria dos FPS lançados até então, além do pequeno poder de processamento daquele videogame.

Olhando para trás, isso é ridículo, mas a ideia foi controversa na época porque ele estava propondo um FPS que não teria armas de alta tecnologia e que não passaria em outro planeta. E isso foi antes da Segunda Guerra voltar à consciência pública, antes do [O Resgate do Soldado] Ryan e antes do [livro] The Greatest Generation, de Tom Brokaw.

Além disso, tínhamos apenas 2 Mb de memória, então esquecendo o contexto mais amplo da Segunda Guerra, primeiro tínhamos que descobrir como entregar uma experiência de tiro divertida. Sem querer nos comparar ao [filme] Tubarão, mas o Steven disse que não ter um tubarão funcionando o tempo todo o forçou a ser criativo. O mesmo aconteceu com a nossa equipe.”

E uma das pessoas que mais teve que colocar os neurônios para funcionar foi Christopher Cross, designer chefe do Medal of Honor. Segundo ele, querer fazer um jogo de tiro em primeira pessoa para o console da Sony era uma loucura e uma demonstração disso estava na quantidade de polígonos que poderia usar em cada personagem, algo em torno de 200. Mesmo assim, o jogo só permitiria que quatro inimigos aparecessem na tela ao mesmo tempo,  o que os obrigou a recorrer a truques como fumaça e espelhos para que não percebêssemos quando eles eram gerados.

Além disso, a equipe não conseguiria utilizar skyboxes, que é uma técnica de criar planos de fundo para fazer com que o cenário pareça muito maior do que realmente é. Assim, eles foram obrigados a fazer com que todas as fases se passassem a noite, mas como na campanha atuávamos como um membro do Escritório de Serviços Estratégicos realizando missões secretas, a ambientação acabou incrementando a imersão.

Medal of Honor

Crédito: Reprodução/Youtube/EA

Houve também uma opção de design que mostrou-se um grande desafio para a equipe, que foi a estrutura das missões. Enquanto a maioria dos FPSs até então exigiam apenas que o jogador chegasse ao final da fase, o Medal of Honor seguiria um estilo parecido com o do GoldenEye 007, onde as missões contavam com estruturas diferentes. De sabotar um foguete V2 a invadir um submarino nazista, tínhamos até que recuperar um cópia do livro Os contos de Canterbury e para que tudo funcionasse da maneira correta, eles tiveram que desenvolver uma linguagem de scripts que enviassem mensagens entre os objetos.

Porém, com alguns estágios contando com diversos objetivos, eles não poderiam ser carregados todos na memória do PlayStation, então era preciso que funcionassem direto do disco. Foi por isso que as fases precisaram ser divididas em partes, permitindo assim que ela fosse carregada conforme avançássemos e sem um sistema de inventário, os criadores tiveram que encontrar maneiras de explicar ao jogo que um objeto necessário para o progresso já havia sido encontrado.

Por fim, outro problema inicial estava relacionado ao controle do PlayStation. Embora o DualShock já tivesse sido lançado quando o jogo saiu, existia o receio de que a quantidade de pessoas que possuíssem um não fosse grande o suficiente e por isso a DreamWorks Interactive optou por utilizar o direcional digital. O problema é que isso prejudicava a agilidade, então os designers optaram por entregar uma jogabilidade mais cadenciada, que não focasse tanto nos reflexos rápidos como temos hoje em dia.

Crédito: Reprodução/Youtube/EA

As polêmicas

Mas se a versão final do jogo conseguiu agradar muitas pessoas, por pouco o Medal of Honor não teve sua criação interrompida pouco tempo antes dele ir para as lojas. O responsável por isso seria Paul Bucha, então presidente da Sociedade da Medalha de Honra do Congresso, associação esta criada para cuidar dos interesses daqueles que receberam tamanha honraria e que via no projeto uma falta de respeito com algo que é motivo de orgulho para os americanos.

Após realizar uma reunião com o soldado que havia lutado na Guerra do Vietnã, Spielberg ficou arrasado, pois estava vendo ruir o seu sonho de entregar uma visão da Segunda Guerra para um público mais novo — além dos milhões de dólares que sua empresa havia investido na produção. E foi foi Peter Hirschmann o responsável por acalmar os ânimos e convencer Bucha de que aquilo que eles estavam fazendo não diminuía os feitos dos que receberam tal medalha.

Sabendo que o sujeito não tinha visto o jogo em ação, ele o convidou para uma demonstração e após mostrar a dedicação da equipe para retratar os soldados americanos, o produtor não só convenceu a organização a desistir de perseguir o título, como ela  passou a apoiar o projeto. No entanto, o game ainda teria que encarar outra provação.

Poucos meses antes do Medal of Honor ser lançado, dois adolescentes entraram em uma escola no estado do Colorado e realizaram o que ficou conhecido como o Massacre de Columbine. Ao todo 15 pessoas morreram (contando a dupla, que cometeu suicido) e outras 24 ficaram feridas. O caso levantou críticas aos jogos de tiro em primeira pessoa e sabendo que aquilo poderia ser péssimo para a imagem da Dreamworks, a empresa tratou de providenciar uma mudança significativa.

Como inicialmente o título era recheado de sangue, mutilações e todo o horror típico de uma guerra, a empresa previu que a carnificina virtual seria associada a o que aconteceu naquela escola e assim os executivos optaram por eliminar todo o sangue da versão final. Por um lado isso tirou um pouco do realismo do Medal of Honor, mas por outro serviu para algumas pessoas o veissem como um produto mais maduro, que não precisava se apoiar na violência para vender.

Então, novembro de 1999 chegou e quando o jogo finalmente foi lançado, o sucesso foi imediato. Publicado pela Electronic Arts, depois a gigante acabou adquirindo os direitos sobre a franquia, que recebeu diversas continuações e ensinou algumas coisas ao interessados pelo maior guerra da história.

Já a contribuição de Peter Hirschmann para o sucesso do Medal of Honor foi reconhecido, com  o seu talento tendo sido recomendado pelo próprio Spielberg a George Lucas e assim ele foi trabalhar na LucasArts, onde ajudou na criações de diversos jogos da saga Star Wars.

Mas além de ter mostrado ao mundo como um jogo de tiro não precisava se situar no futuro para ser bom, aquela criação da DreamWorks Interactive ainda serviu para provar como os videogames poderiam ser uma ótima maneira de se contar boas histórias, ajudando bastante a fazer com que a mídia passasse a ser aceita por aqueles que nunca haviam segurado um controle.

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