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Diretor da Roscosmos critica restrições à montadora das Soyuz

Dmitri Rogozin, diretor da Roscosmos, não gostou de restrições à montadora das Soyuz, que dificultam negócios com empresas dos EUA

24/12/2020 às 8:04

Outro dia, outra reclamação de Dmitry Rogozin, diretor da agência espacial russa Roscosmos, direcionada aos Estados Unidos. A picuinha da vez envolve as Soyuz, ou sendo mais preciso, a montadora das cápsulas, que foi listada entre outras companhias chinesas e russas como tendo "ligações militares"; por causa disso, empresas americanas teriam que pedir autorização para negociarem com elas.

Cápsula Soyuz-TMA, 4ª geração da espaçonave russa, vista da ISS (Crédito: Thegreenj/Wikimedia Commons)

Cápsula Soyuz-TMA, 4ª geração da espaçonave russa, vista da ISS (Crédito: Thegreenj/Wikimedia Commons)

O rolo da vez se deu quando o Departamento de Comércio dos EUA apresentou uma lista, contendo 103 empresas da China e Rússia que possuem vínculos com as Forças Armadas de seus respectivos países. Informes sobre a existência da lista já causam mal estar entre o governo Trump e o governo de Pequim desde novembro de 2020, mas a lista final foi relativamente menos danosa do que se esperava para os chineses.

O relatório final incluiu 58 empresas da China, menos do que as 89 inicialmente esboçadas, e deixou de fora entidades como a COMAC (Commercial Aircraft Corporation of China), a montadora estatal de aviões que concorre com Airbus, Boeing e Embraer, e a fabricante de componentes eletrônicos TTI Inc., subsidiária da Berkshire Hathaway. Por outro lado, o Shanghai Aircraft Design and Research Institute, que projeta os aviões da COMAC, e a Shanghai Aircraft Manufacturing Co., que fabrica os aviões, entraram na lista.

Já do lado da Rússia, o caldo entornou. O rascunho original previa a inclusão de 28 entidades, mas o documento final fez menção a 45 empresas. Tanto lá quanto cá, a listagem prevê que empresas norte-americanas que desejarem fazer negócios com elas, deverão pedir autorização ao governo, o que na prática restringe enormemente as negociações de compra e venda entre as partes.

No entanto, o que realmente surpreendeu foi a inclusão na lista da Progress Rocket Space Centre, uma joint russa sob supervisão da Roscosmos, que é responsável pela montagem das cápsulas Soyuz projetadas pela RSC Energia, antes conhecida como Korolev Rocket and Space Corporation, empresa que desenvolve cápsulas espaciais e outras coisinhas... como ICBMs.

A Progress, por sua vez, desenvolveu o foguete Soyuz-U usado por décadas, e mais recentemente o Soyuz-FG, que será substituído pelo Soyuz-2 em missões tripuladas, também projeto da Progress.

Na prática, a restrição do Departamento de Comércio dos EUA dificulta que a NASA e a Roscosmos troquem tecnologias, bens e serviços, o que poderia incluir até mesmo passagens para astronautas nas cápsulas Soyuz, o que a bem da verdade, não é mais tão necessário assim.

E Rogozin tanto sabe disso, que novamente bateu na tecla do "trampolim", finalmente admitindo que ficou mordido com a devolução da gentileza por Elon Musk, quando a Crew Dragon foi lançada com sucesso.

Diretores Jim Bridenstine (NASA) e Dmitri Rogozin (Roscosmos) "conversam" durante encontro em 2019 (Crédito: Alexei Filippov/TASS/Getty Images)

Diretores Jim Bridenstine (NASA) e Dmitri Rogozin (Roscosmos) "conversam" durante encontro em 2019 (Crédito: Alexei Filippov/TASS/Getty Images)

Em nota publicada no portal da Roscosmos nesta terça-feira (22), Rogozin classificou as restrições imposta à Progress como "ilegais" e "estúpidas", citando o histórico passado de sanções dos EUA contra empresas russas, à ligação absurda, segundo o diretor, entre a empresa e as Forças Armadas.

Rogozin lembrou que o Centro de Comando da ISS foi projetado pela Progress, e que o "trampolim" (a Crew Dragon) foi usado como a desculpa perfeita para a administração Trump "cuspir no poço de Samara" (cidade onde a Progress é sediada), de modo a colocar a Roscosmos para escanteio após esta permitir, na base da piedade (e de pagamentos bem gordos), que a NASA usasse as Soyuz por uma década.

Rogozin diz que a decisão de chutar a Roscosmos é precipitada, citando a possibilidade da Crew Dragon dar pau e a NASA se ver novamente dependente das Soyuz, o que caso ocorra (não vai) poderia permitir à agência enfiar a faca mais fundo e girar na hora de estipular os preços.

No mais, Rogozin diz que as restrições são prejudiciais à exploração espacial, o que não deixa de ser verdade, pois criam obstáculos e causam indisposição desnecessária entre russos e americanos; assim, o diretor da Roscosmos está exigindo que a Progress e outras empresas aeroespaciais russas restritas sejam removidas da lista, o que caso ocorra, será considerado como um "mau entendido" pelo governo russo, sem que sanções sejam aplicadas a empresas dos EUA em retaliação.

Ainda que Rogozin tenha tirado sarro dos Estados Unidos quando a situação estava a seu favor, e agora se mostra fulo da vida porque o jogo virou, ele está certo ao dizer que as restrições à Progress causarão mais estresse nas relações entre EUA e Rússia no que tange ao espaço, que já não andam boas por causa dos Acordos Artemis, que os russos se recusaram a assinar.

A última coisa que todos os envolvidos querem, incluindo a NASA, que prefere agregar do que separar (ao menos é o que o diretor Jim Bridenstine diz), é mais dor de cabeça, que é tudo o que essa lista do Departamento de Comércio trouxe.

Fonte: Ars Technica

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