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Carro da Apple? Entenda como isso faz todo o sentido

O carro da Apple voltou à moda. Há vários motivos para que essa idéia não dê certo, mas também há vários que apontam para uma jogada de mestre.

28/12/2020 às 0:26

A idéia que um carro da Apple estaria sendo desenvolvido em segredo de vez em quando volta à baila, as evidências circunstanciais se acumulam, e há um monte de excelentes artigos por aí listando todas essas. Aqui pularemos essa parte e veremos como é irrelevante SE a Apple está preparando um carro, o fato é que ela DEVERIA investir nesse segmento.

Uma coisa podemos ter certeza: O Carro da Apple não será horroroso assim. (Crédito: The Town Project)

Reza a lenda a Apple teria interesse em criar um carro desde o tempo de Steve Jobs, com a idéia tento sido aventada pelo menos desde 2008, e pelo menos 5000 funcionários estejam alocados para o projeto, o que a princípio soa estranho, visto que outras empresas estão abandonando o barco, como a Uber, que vendeu sua divisão que pesquisava carros autônomos.

Uma das regras básicas do mundo dos negócios é nunca investir fora da sua área de expertise. Você pode ter o melhor açougue do mundo, se abrir um restaurante, tem 90% de chances de falir.

Isso, claro, não quer dizer que uma empresa não possa criar projetos fora de sua área de atuação, mas o know-how não é transferível. Os vícios são. Idealmente você abre uma outra empresa, contrata funcionários da área, e vive feliz como um conglomerado.

Concorrência

No caso do carro da Apple, a empresa tem como competidores nomes como Ford, Chrysler, FIAT, Honda, qualquer um que entrar no mercado automobilístico enfrentará empresas com em alguns casos mais de 100 anos. Seria como o MeioBit abrir uma subsidiária para produzir aviões comerciais para mercados regionais. Seríamos massacrados pela EMBRAER.

Tabula Rasa

O que muita gente que aposta no fracasso do carro da Apple não leva em conta é que a briga será muito mais nivelada. O mundo está em um ponto próximo a uma mudança fundamental na forma com que encaramos nossos veículos.

Vários países já decidiram ou estão planejando adotar Leis banindo veículos de combustão interna, a maioria começando em 2035. A maioria por enquanto está restringindo apenas a carros novos, mas em alguns casos a proibição é total. Ou seja: Em breve todo carro novo será elétrico, e isso é tão evidente que em nenhum momento você pensou no carro da Apple como sendo movido a gasolina, acertei?

As grandes montadoras são um paradoxo; elas investem bilhões de dólares anualmente em pesquisa, ao mesmo tempo são extremamente conservadoras. Por décadas elas tentaram criar carros elétricos, mas junto trouxeram todos os vícios e ranço dos carros antigos.

Focus Electric. Vendeu menos de 5000 unidades em 4 anos. Usa a mesma plataforma do Focus normal. (Crédito: Mariordo / wikimedia commons)

Só com a chegada da Tesla o carro elétrico se tornou um desejo de consumo do público normal, fora dos hippies e ecochatos de Hollywood que adoravam exibir seus Prius (que nem elétricos eram, apenas híbridos).

Qual o segredo da Tesla? Simplicidade. Os Teslas são uma solução de hardware bem simples com um conjunto extremamente complexo de software em volta.

Vejam um Tesla pelado:

O motor do Tesla tem uma parte móvel. (Crédito: Oleg Alexandrov / wikimedia commons)

Há pouco, quase nada para dar errado, é o resultado de projetar um carro elétrico pensando como uma empresa de tecnologia, e não como uma montadora que planeja adaptar o mínimo possível sua linha de montagem, e tem 100 anos de conhecimento de como se faz um carro, para quê mudar?

O Tesla Modelo S pode ser considerado o primeiro carro “de verdade” da empresa. Anteriormente o Roadster era baseado no Lotus Elise, e vendeu 2450 unidades em 4 anos. Era um carro esporte, nada prático e extremamente de nicho.

O Modelo S por sua vez é um carro de tiozão, com pretensões futuristas. O sujeito compra um carro bem caro, mas que não grita pra todo lado “crise de meia-idade”. Mas se quiser, dependendo do modelo ele faz de 0-100Km/h em menos de dois segundos, isso é performance de super-carro.

O Modelo S foi anunciado em 2012. Todas as grandes montadoras compraram vários, desmontaram e estudaram, comparando com seus próprios protótipos, mas todos aqueles vícios e inércia que já falamos impediram que lançassem algo sequer parecido.

O carro da Apple pode e será construído do zero, com a Apple contratando gente especializada não em carros comuns, mas em elétricos, inclusive alguns ex-Tesla. A expertise da Apple será aplicada na Interface e nos softwares de controle, na IA de navegação, na integração com o usuário.

Hoje a Tesla solta updates para seus carros via rede 4G, Elon Musk mais de uma vez acatou sugestão de clientes postadas no Twitter e em alguns dias, estavam implementadas. Qualquer um que conhece o fluxo de operações de uma montadora sabe o quão insano é achar que chegariam a esse nível de agilidade.

Só para lembrar, montadora é aquela empresa filha da pleura que pega o carro, tira o isqueiro, chama a tomada de “power tomada” ou algo assim e cobram mais caro.

Mas e a Fábrica?

Essa é a beleza do mundo moderno: Se você tiver dinheiro, consegue contratar uma linha de montagem inteira para produzir carros, com a mesma facilidade com que manda fazer plaquinhas de circuito impresso na China.

Claro, é beeem mais caro e o pedido inicial é de mais ou menos 100 mil unidades. Isso demanda uma quantidade de dinheiro vivo obscena, mas adivinhe quem tem US$192.8 bilhões em dinheiro vivo? Isso mesmo, a Apple.

Esqueça o iFusca

Trabalhar pra pobre é pedir esmola pra dois, já diz o velho ditado. A Tesla sabe que precisa produzir carros mais baratos. Seu carro mais em conta, o Modelo Y custa uns US$40 mil, ou R$89499485923,75. Já foram vendidas 500 mil unidades.

Pros EUA esse preço ainda é BEM caro, um Chevrolet Spark custa US$14.395. Uma Picape F-150, que o americano médio adora custa US$28.940.

A Tesla já chegou no tamanho aonde precisa crescer para baixo. A Apple, com sua história de produtos premium para um mercado diferenciado de gente que paga US$1000 por um suporte de monitor pode e vai apostar em veículos de luxo.

Mas não muito. O carro da Apple não pode competir com os Aston Martins, Jaguares e Ferraris, quem compra essas marcas está comprando a marca, e nunca vai aceitar que quem faz seu telefone faça seu carro. (o contrário ironicamente acontece)

O Cenário dos próximos 20 anos

Veremos mais e mais restrições a carros convencionais, e infraestrutura para veículos elétricos se espalhando como nunca.

A indústria automobilística será forçada por Lei a se renovar, uma indústria inteira está sendo declarada obsoleta, abrindo um mercado gigantesco para quem quiser arriscar.

As montadoras tradicionais tentarão emplacar seus novos modelos, mas o carro elétrico ainda será visto como novidade. Mesmo não sendo, historicamente ele surgiu antes do carro a gasolina.

O consumidor então terá que decidir: Vai comprar os novos e modernos carros elétricos da empresa que é sinônimo de tecnologia ou das empresas que tentaram por anos fazer carros elétricos e foram passados para trás por um sujeito que batiza o filho com nome de personagem do Cyberpunk 2077?

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