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O dia em que Scotty foi "contrabandeado" para a ISS

Richard Garriott conta como levou e escondeu as cinzas de James Doohan, nosso querido Scotty, na Estação Espacial Internacional

28/12/2020 às 9:33

James Doohan, nosso eterno Scotty, o maior de todos os engenheiros do espaço e da Terra nos deixou em 2005, mas seu legado vai muito além de Star Trek. O carisma de seu personagem, que não podia ignorar as leis da Física mas sabia muito bem contorná-las, a fim de sempre manter a Enterprise funcionando, inspirou gerações de fãs e muitos deles perseguiram carreiras na engenharia, por sua causa.

James Doohan como Scotty em "Jornada nas Estrelas: Generations" (Crédito: Reprodução/Paramount Pictures)

James Doohan como Scotty em "Jornada nas Estrelas: Generations" (Crédito: Reprodução/Paramount Pictures)

Infelizmente, Doohan não conseguiu realizar um de seus maiores desejos em vida, que era de fato ir ao espaço. Sua vontade foi atendida postumamente de forma pública em 2012, quando a cápsula Dragon se tornou a primeira espaçonave comercial a se acoplar com a Estação Espacial Internacional. Na ocasião, uma urna com as cinzas do ator e de várias outras pessoas foi lançada para o Cosmos, onde permaneceu em órbita por um tempo.

O que ninguém sabia, entretanto, é que Doohan já havia chegado ao espaço exterior 4 anos antes, graças a Richard "Lord British" Garriott, criador da série de games Ultima. A história em si não é nova e já vem sendo contada há algum tempo, mas recentemente ganhou novos holofotes graças ao jornal britânico The Times, que publicou o causo com detalhes.

Em outubro de 2008 Garriott embarcou como turista espacial na ISS (sim, estou ciente das piadinhas com a estação, Star Trek e Universo Espelho), ele próprio filho do astronauta Owen Garriott (1930-2019), que passou 60 dias no Skylab em 1973, e mais 10 dias no Spacelab-1 uma década depois.

Isso fez dele o segundo astronauta de segunda geração, cujo pai ou mãe também foi para o espaço. O primeiro foi o cosmonauta russo Sergey Volkov, filho de Aleksandr Volkov; sua missão foi lançada 4 meses antes da de Garriott, mas voltemos à história.

Garriott foi um dos primeiros endinheirados a bancar uma viagem à ISS do próprio bolso, onde ele ficaria por 12 dias. "Lord British" conta que quando já estava na fase de quarentena, ele foi contatado por Chris Doohan, filho de James, que lhe fez um pedido inusitado: levar as cinzas de Scotty para a estação, de modo a atender o desejo não realizado em vida pelo pai.

Ele recebeu os restos mortais de Scotty, mas a janela de tempo para a formalização do manifesto de carga para a ISS já havia se fechado, e pedidos formais anteriores, feitos pela família de Doohan para que as cinzas fossem embarcadas, foram todos previamente negados.

Sabendo que ia ouvir um sonoro "não" da NASA e Roscosmos (a missão subiu e desceu em uma cápsula Soyuz-TMA, já que o "trampolim" ainda não estava pronto), Garriott fez o que qualquer um faria na mesma situação: ele "muquiou" as cinzas de Scotty na ISS.

Richard Garriott a bordo da ISS em 2008, exibindo um dos cartões com as cinzas de Scotty (Crédito: Reprodução/The Times)

Richard Garriott a bordo da ISS em 2008, exibindo um dos cartões com as cinzas de Scotty (Crédito: Reprodução/The Times)

"Lord British" preparou três cartões laminados plastificados, contendo as cinzas de Doohan e sem avisar ninguém, embarcou com eles para a ISS. O vídeo em que ele exibe um dos cartões para Chris, a bordo da estação foi gravado de forma "completamente clandestina" segundo o próprio, assim como toda a operação de contrabando espacial dos restos mortais de Scotty. Só ele e os Doohan sabiam.

Dos três cartões, um voltou para a Terra e foi devolvido a Chris Doohan, o segundo foi ejetado secretamente para o espaço exterior durante o processo de reentrada (diz "Lord British" que ele o colocou na conexão entre os módulos habitacional e de reentrada da Soyuz), e o terceiro foi escondido sob o piso do módulo Columbus, o laboratório da ISS construído pela Agência Espacial Europeia (ESA).

Tirando a parte do cartão ejetado para o espaço, que seria um procedimento bastante arriscado, o que torna a menção um tanto estranha (se alguém tiver mais informações sobre isso, favor acrescentar aos comentários), o mero transporte dos cartões com as cinzas de Scotty para a ISS, caso a NASA só esteja descobrindo isso agora, resultará em consumo de esfíncteres sem pena de uma série de envolvidos.

Vale lembrar que a NASA encrencou no passado por coisas como selos, resultando em "demissões voluntárias" e cancelamentos de missões posteriores dos astronautas envolvidos. É bem provável que "Lord British", ou qualquer parente de Scotty, nunca mais sejam autorizados a embarcarem em voos espaciais em que a agência norte-americana esteja em situação de controle.

De qualquer forma, este pequeno causo relata uma justa homenagem a James Doohan, que completaria 100 anos em 2020. Scotty, assim como todo o elenco de Star Trek: The Original Series, inspirou gerações de fãs que perseguiram carreiras relacionadas em STEM, incluindo engenharia, área de atuação do maior de todos os miracle workers.

Hoje, esses fãs estão explorando o espaço e a Terra, ativamente fazendo do mundo um lugar melhor, aproximando-nos da utopia que a série e suas derivações exibiram na TV, cinema, livros, quadrinhos, games e outras mídias. Apesar das dificuldades, e 2020 foi um ano especialmente duro para todos, esse pessoal carrega um pouco da visão de Gene Roddenberry para um futuro onde todos seremos iguais, independente de raça, credo, gênero, orientação sexual, nacionalidade, idade ou qualquer outra característica.

O caminho será longo e duro, mas há gente que está fazendo sua parte, como Scotty, Kirk, Spock, Uhura, McCoy, Sulu e cia nos ensinaram a fazer.

Fonte: The Times

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