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Penicilina - A droga mágica made in USA que salvou Hitler

Penicilina hoje é algo que a gente compra em farmácias, tipo Plutônio em 1985, mas surgiu como uma droga milagrosa salvando milhões de vidas.

48 semanas atrás

Em 1944 uma bomba colocada sob uma mesa detonou, matando 4 pessoas, digo, nazistas, e deixando vários feridos, entre eles Adolf Hitler. Agora a mesa de madeira maciça que o salvou era o que ameaça sua vida. Por sorte seu médico, Theodor Morell, tinha uma carta na manga: Uma droga mágica recolhida de prisioneiros americanos: A Penicilina.

Sir Alexander Fleming (Crédito: Biblioteca do Congresso)

Hitler foi atingido por estilhaços de madeira, e corria grave risco de desenvolver septicemia, com os ferimentos infeccionando e envenenando seu sangue. Não era uma condição excepcional, septicemia era um risco grave em qualquer acidente ou cirurgia durante boa parte da História da Humanidade.

Hoje temos antibióticos de todos os tipos. Pneumonia? Antibiótico. Dedo inchado com Panarício? Antibiótico. 60 anos atrás isso era pura ficção científica, e o primeiro medicamento com razoável sucesso no tratamento de infecções foi a Sulfa, descoberta pelo cientista alemão Gerhard Domagk em 1932. Você já viu, é aquele pozinho branco que os soldados jogam nas feridas nos filmes de guerra. Não, o de Scarface é outro tipo.

Sulfas salvaram milhares de vidas, mas tinham diversos efeitos colaterais e muitas reações alérgicas, e não eram tão eficientes quanto o desejado. Para piorar Sulfa foi tão usada e de forma tão indiscriminada que em poucos anos quase toda bactéria já era resistente.

Era preciso uma solução mais eficiente e elegante, e essa solução começou a ser criada em 1928, quando um microbiologista chamado Alexander Fleming voltava de férias para seu laboratório no Hospital St Mary, em Londres.

A história de que Fleming descobriu a Penicilina em um sanduiche de pasta de amendoim é falsa, o que ele reparou foi que algumas culturas de bactérias que ele havia deixado em placas de petri haviam desenvolvido fungos, o que não é incomum, mas desta vez os fungos estavam mantendo as bactérias longe.

Na imagem acima vemos o fungo, grandão, e as colônias de bactérias,na parte de baixo. Mais próximo do fungo, bactérias sofrendo lise, tendo suas paredes celulares destruídas pela penicilina. (Crédito: Alexander Fleming)

O que ele presenciava era o resultado de milhões de anos de Evolução. Em algum momento uma mutação em um parente distante do fungo Penicillium rubens fez com que uma das substâncias excretadas por ele sofresse uma alteração. Como todo mundo o fungo vive cercado de bactérias malditas e bacilos vacilões, que o infectam. A substância excretada pelo fungo era desagradável para bactérias, e elas se afastavam, preferindo atacar outros fungos.

Com essa vantagem aquele fungo viveu uma vida longa e fértil, produzindo muitos funguinhos, e dia após dia século após século mutações aleatórias produziam versões mais eficientes da tal substância, que ganhou o nome de Penicilina.

Ele pesquisou os efeitos bactericidas do composto, e publicou um dos papers seminais da História da Microbiologia: On the Antibacterial Action of Cultures of a Penicillium, with Special Reference to their Use in the Isolation of B. influenzæ.

O paper foi prontamente ignorado pela comunidade científica, dadas as dificuldades de isolar o fungo. Fleming então se dedicou a outras pesquisas, deixando a Penicilina de lado. O fungo ficou na gaveta mofando metaforicamente por dez anos, até que em 1938 dois pesquisadores de Oxford deram prosseguimento à pesquisa.

Sir Alexander Fleming em seu laboratório (Crédito: Biblioteca do Congresso)

Howard Florey era um australiano, Ernst Chain um judeu alemão refugiado. Eles isolaram a Penicilina e demostraram que ela era segura e extremamente eficiente em conter infecções bacterianas em ratos.

Dessa vez houve interesse, a Guerra estava começando a ficar séria e soldados morriam mais de infecção do que por envenenamento por chumbo em alta velocidade, mas o problema continuava o mesmo. Norman Heatley, outro bioquímico de Oxford sofria para produzir uma quantidade mínima de Penicilina. Seu laboratório era repleto de fracos, placas e petri e até comadres.

O maldito fungo só se reproduzia em uma camada finíssima sobre o material de cultura, a quantidade obtida era insignificante. Seria preciso ajuda para produzir Penicilina em quantidade industrial, e que melhor lugar para coisas industriais que os Estados Unidos?

Florey e Heatley atravessaram a poça e foram apresentar seu trabalho para cientistas e técnicos americanos. Rapidamente foram encaminhados para um administrador do Ministério da Agricultura, Percy A. Wells, que por acaso era especialista em... fermentação.

Howard Florey, Ernst Chain, Norman Heatley e um gato. (Crédito: Reprodução Internet)

Wells sugeriu que ao invés de criar o fungo em uma placa, tentassem um tanque, como o usado para leveduras. Era uma idéia óbvia e eficiente, e imediatamente um dos laboratórios do Ministério em Peoria foi dedicado à produção experimental de Penicilina, com direito até a cientistas como Gladys Lounsbury Hobby pesquisando variedades do fungo mais eficientes. A melhor foi achada em um melão podre em uma quitanda.

Anúncio da 2a Guerra promovendo Penicilina. (Crédito: Domínio público)

Os jornais e rádios alardeavam a Penicilina como uma droga milagrosa, mas basicamente ninguém estava sendo tratado com ela, a quantidade produzida ainda era muito pequena. Em Março de 1942 um paciente consumiu sozinho metade da produção total de Penicilina nos EUA. Junho do mesmo ano o estoque total daria para tratar dez pacientes.

A escassez era tanta que a urina dos pacientes era coletada e a Penicilina não-metabolizada era extraída e usada de novo.

As empresas farmacêuticas estavam receosas em investir em fábricas para algo não-comprovado, até que em 1943 uma menina chamada Patricia Malone mudou tudo.

Patricia tinha dois anos de idade, sofria de um envenenamento do sangue, septicemia e os médicos deram para ela sete horas de vida.

Tanque de produção de Penicilina a Pfizer (Crédito: Domínio Público)

Um jornalista soube do caso e implorou para políticos e administradores em Washington que liberassem Penicilina para tratar a criança. O apelo deu certo, Penicilina foi recolhida de vários laboratórios, e ao invés de morrer em horas, Patricia se recuperou em horas.

Acompanhando o caso de longe estava um sujeito chamado f John L. Smith. Ele era Vice-Presidente de uma empresa chamada Charles Pfizer & Co., e não estava botando muita fé na Penicilina. Só que Smith havia perdido uma filha de 16 anos para uma infecção parecida com a de Patricia.

Revertendo totalmente a posição da empresa, a Pfizer comprou uma fábrica de gelo no Brooklyn e em seis meses tinham funcionando 14 tanques de fermentação de 27 mil litros cada. No total ao final da Guerra 21 fábricas nos EUA produziam Penicilina.

Produção original de Penicilina em Oxford. (Crédito: Norman Heatley)

No Dia D já havia uma reserva de 2.3 milhões de doses e cada soldado levava uma dose em seu kit.

O mais fascinante é que nada disso era segredo. O Paper de Fleming e as pesquisas de Florey e Chain, com instruções detalhadas para a produção de Penicilina foram publicados em periódicos de grande alcance, sendo lidos inclusive por cientistas alemães, mas eles aparentemente estavam casados demais com a Sulfa, e embora alguns laboratórios pesquisassem Penicilina, não havia nenhum esforço nacional.

O máximo foi uma verba equivalente a US$10 mil para um laboratório pesquisar os efeitos bactericidas da Penicilina.

Esse vidrinho era a diferença entre a vida e a morte. (Crédito: Reprodução Internet)

Em outros lugares, como os Países Baixos, havia até produção clandestina. Uma unidade de fermentação foi montada em uma destilaria que produzia Gin, e a Penicilina foi batizada de Bacinol, para não chamar a atenção dos alemães. Já o nazista que supervisionava a destilaria era tratado com generosas doses de gin, e não perdia tempo andando pelo chão de fábrica.

Entre os soldados a Penicilina era definitivamente milagrosa. Ela curava Sífilis em algumas horas, outras doenças venéreas iam embora com a mesma facilidade. Os alemães não tinham nada parecido, e um monte de soldados ficavam incapacitados por causa disso.

Casos de gangrena também eram cada vez mais raros. Os alemães se tratando com sulfa tinham até 30 casos a cada mil soldados feridos. Os aliados, com Penicilina mantinham seus números em 1.5 casos a cada mil.

No final o esforço de produção de Penicilina pelos Estados Unidos foi um projeto que só perdeu para o Projeto Manhattan em termos de complexidade e importância. Centenas de milhares, talvez milhões de vidas foram salvas, a indústria farmacêutica se adaptou em meses, inclusive usando como meio de cultura licor de maceração de milho, um subproduto da produção de maisena.

A Penicilina salvou não só os soldados americanos, como os alemães que davam a sorte de ser capturados e tratados em hospitais aliados. No resto do mundo com o fim da guerra também chegou ao fim a certeza das infecções fatais, doenças venéreas e tantas outras sentenças de morte que hoje a gente resolve com um disk-farmácia.

Isso deve doer bagarai. (Crédito: Military.com)

Por sua descoberta Alexander Fleming recebeu o Nobel em Medicina ou Fisiologia de 1945, dividindo o prêmio com Howard Florey, e Ernst Chain.

Hoje uma dose de Penicilina custa R$6,00 e você acha em qualquer farmácia. Já nos EUA ela, que salvou a vida de milhares de soldados, é o terror dos recrutas, que tem que tomar uma dose da “manteiga de amendoim”, na bunda. O local fica extremamente dolorido e deve ser massageado por mais de uma hora, até o líquido branco e viscoso se espalhar pela corrente sanguínea. É ruim? É, mas muito pior seria a vida sem ela.

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