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Altair 8800: 45 anos do computador que deu início à Revolução Digital

O Altair 8800 não foi o primeiro computador, mas foi o primeiro a ser produzido e vendido como kit, atraindo um exército de entusiastas.

19 semanas atrás

O Altair 8800, para um jovem gamer de hoje em dia (micreiros já foram extintos) parece, e honestamente é algo pré-histórico, feito com barro fofo e pedra lascada, mas ali tínhamos a essência da microinformática, pela primeira vez os computadores rastejavam do lodo do simbólico mar e se aventuravam na terra da casa das pessoas.

Altair 8800 em exposição no Instituto Smithsoniano. (Crédito: Ed Uthman / Wikimedia Commons)

Em 1974 existiam três tipos de computadores: Mainframes, ocupando salas inteiras, custado milhões, minicomputadores, que custavam o equivalente a uns US$250 mil hoje em dia, e os computadores montados por hobbystas, que tinham profundos conhecimentos de eletrônica digital.

Esses micros eram exclusivos, e a graça era construí-los. Os circuitos eram compartilhados em fanzines e encontros de entusiastas, mas pouca gente conseguia replicar os projetos.

Em Julho de 1974 a Radio-Electronics publicou um artigo com o  Mark-8 de Jerry Ogden, mas ele usava o processador Intel 8008, que era BEM fraco, e era realmente um kit, tudo que Jerry vendia eram as instruções, esquemas, layout das placas de circuito impresso e lista de componentes, o leitor tinha que se virar para achar tudo.

Os editores da revista Popular Electronics decidiram que seria muito legal publicar um artigo resenhando um kit de microcomputador, um kit de verdade. Várias empresas foram contatadas, incluindo a MITS, fundada por Ed Roberts e Forrest M. Mims III. Eles construíam equipamentos de telemetria para foguetes amadores, e mais tarde kits de calculadoras.

Como todo mundo, a MITS estava de olho em computadores, e os processadores estavam começando a se tornar viáveis. Em Abril de 1974 a Intel laçou o 8080, processador de 8 bits com incríveis 6000 transístores. Ele tinha capacidade de processamento de sobra e Ed Roberts começou a brincar com o bichinho, construído um computador em volta dele.

CPU Intel 8080 (Crédito: Wikimedia Commons)

Quando a Popular Electronics o contatou com a oferta de publicar o projeto na revista e vender o computador com kit, a MITS abriu um sorriso enorme; a empresa estava falindo, seu negócio de calculadoras já era, e não havia fogueteiros suficientes para tornar o negócio lucrativo.

Com já tinham experiências com kits, a MITS conseguiu projetar o Altair 8800 para ser simples o bastante para que um hobbysta com experiência mediana o conseguisse montar. Mais ainda: Roberts era um dos maiores clientes da Intel, e ajudou a empresa a direcionar seu negócio de processadores.

Sem experiência (ok, ninguém na época tinha) eles começaram a vender ochip  8080 pelo equivalente hoje a US$1700. E a coisa não era exatamente um Xeon. Roberts disse que não, e como queria comprar uma quantidade bem razoável, negociou o preço para pouco mais de US$350. Depois isso baixou mais ainda.

Isso confundiu a Intel, que produzia uma plataforma de referência e desenvolvimento para o 8080, o Intellec 8 que era vendida pelo equivalente a US$50 mil em 2021.

Ed Roberts (Crédito: Los Angeles Times)

Comprando todos os componentes no atacado, a MITS conseguiu produzir um computador montado por US$2100 nos valores atuais. Soa caro? Estamos falando de um computador, o Altair 8800 era algo que simplesmente não existia como kit. Quando você pagaria por um kit de um disco voador?

Produzido em tempo recorde, o Altair foi enviado para a Popular Electronics enquanto Ed Roberts pegava um avião, mas somente um deles chegou em New York, o Altair foi roubado ou sumiu durante uma greve na empresa.

Ed Roberts, afundado em dívidas, pedindo dinheiro emprestado para bancar o projeto, teve que convencer o conselho editorial da funcionalidade do Altair 8800 usando apenas esquemas do circuito eletrônico.

Eles ainda pediram um gabinete bonito pois seria matéria de capa.

No Novo México, aonde a sede da MITS ficava, Bill Yates (Não confundir com outro Bill – spoiler) montou um gabinete não-funcional, e enviou para a editora. Foi esse gabinete fake que apareceu na capa da Popular Electronics de Janeiro de 1975.

Popular Electronics, Janeiro de 1975 (Crédito: Reprodução)

O Altair 8800 era baseado em um processador Intel 8080, com clock de 2MHz e 256 BYTES de memória. Isso mesmo, crianças, BYTES. Ele não tinha teclado, não tinha porta de joystick, não tinha saída de vídeo, porta de disquete, porta paralela, nada. O barramento era de 16 bits então o 8080 podia endereçar até incríveis 64KB de memória, mas isso custaria uma fortuna.

Toda a comunicação do Altair 8800 era feita através do painel frontal, aonde você programava o bicho usando linguagem de máquina, bit a bit.

Hoje, quando a imensa maioria dos usuários sequer programa seus computadores, e os que o fazem usam todo tido de frameworks, é impensável ter acesso ao metal diretamente, sem nenhum sistema operacional no meio do caminho.

Para o entusiasta de 1975, o Altair 8800 era um presente dos deuses, ainda mais com o kit desmontado custando meros US$1920.

Na primeira versão Roberts fez o Altair 8800 com quatro placas empilhadas, mas isso não era prático para construir. Ele então bolou um barramento com nada menos do que 18 slots, no qual eram inseridas placas com RAM, CPU, lógica auxiliar, etc. O Altair 8800 vinha com quatro placas com as funções básicas.

Altair 8800b de 1976. (Crédito: Michael Holley / Wikimedia Commons)

A MITS prometeu uma bela lista de expansões, que tornariam o Altair 8800 bem menos misantropo, incluindo placas de 1KB e 4KB de RAM, interface paralela, serial, RS-232, para teletipo e até uma porta para gravador K7.

Todas eram vendidas em kit ou montadas.

O artigo, assinado por Ed Roberts e Bill Yates vendia bem o Altair, e abria com o parágrafo:

“A era do computador em cada casa – um tópico favorito entre os autores de ficção científica – finalmente chegou!”

Mais adiante eles descrevem possíveis usos para o o Altair 8800, entre eles:

  • Calculadora científica
  • Sistema de aquisição de dados multicanal
  • Sistema de alarme
  • Testador de Cis
  • Controlador de máquinas industriais
  • Piloto automático para aviões e barcos
  • Cérebro para um robô

Quando pediu empréstimo para o projeto, Roberts explicou para o gerente do banco que a perspectiva era vender 800 kits no primeiro ano. Internamente a MITS trabalhava com a idéia de 200.

Um mês depois do artigo publicado já tinham vendido mais de 1000 unidades, com funcionários novos sendo contratados só para atender os telefones. A MITS não dava conta dos pedidos, alguns levaram seis meses para ser entregues, mas os hobbystas queriam mais. Em três meses Ed tinha 4000 Altairs encomendados.

Altair 8800 conectado a um terminal de teletipo (Crédito: Tim Colegrove / Wikimedia Commons)

Como o barramento do Altair 8800 era bem documentado simples e aberto (ninguém havia pensado em patentear) e as placas da MITS demoravam a sair, surgiram montes de fornecedores projetando e construindo suas próprias expansões, todo um mercado foi criado.

O que atrasava o Altair 8800 era a interface. Mesmo com um terminal de teletipo, você era obrigado a programar em assembler (assembly é coisa de n00b). Havia espaço para uma linguagem de programação de alto nível, e isso chamou a atenção de três nerds de Harvard, Bill Gates, Paul Allen e Paul Gilbert.

Nas horas vagas eles tinham uma pequena empresa que tabulada dados de trânsito nas ruas de Seattle, mas ela nunca foi muito longe. Eles gostavam mais de computadores em si do que de aplicações, e a necessidade que a MITS nem sabia que tinha era perfeita.

Só havia um problema: Nenhum dos três nunca tinha visto um Altair 8800. Mesmo assim eles ligaram para Ed Roberts e perguntaram se ele estaria interessado em um interpretador de linguagem BASIC para o Altair 8800.

Roberts gostou da idéia, e marcou uma reunião em Albuquerque para dali a um mês.

Paul Allen e Bill Gates, 5 anos antes. (Crédito: Bruce Burgess / Wikimedia Commons)

Além de nunca terem visto um Altair, nenhum dos dois (Gilbert não entrou na nova sociedade) tinha visto um Intel 8080. Tudo que tinham era um emulador da CPU 8008 que Paul Allen havia escrito para um projeto anterior.

Allen modificou seu emulador para funcionar como um 8080, e ele e Gates escreveram um interpretador BASIC que conseguiu ocupar menos de 4KB de RAM. Monte Davidoff, um colega deles de Harvard foi contratado para escrever as rotinas de matemática de ponto flutuante.

Funcionando no emulador, foi chegado o dia da demonstração. Gates e Allen embarcaram para o Novo México, levando o BASIC em uma fita de teletipo, uma forma primitiva de armazenamento de dados aonde os bits eram literalmente perfurados em uma fita de papel. Imagine uma evolução dos cartões perfurados...

Nesse momento eles se lembraram que o Altair 8800 não tinha nenhum meio de LER a fita. Não havia ROM, FIRMWARE e outras modernidades. Você tinha que programar no terminal frontal uma rotina para ler a porta serial do teletipo, receber os dados e executá-los.

É essencialmente o que a BIOS do seu computador faz, procurando no setor de boot do hard disk instruções de como carregar o sistema operacional. Só que como o Altair 8800 não tinha BIOS, cada vez que você ligava o computador tinha que literalmente programar em RAM a seqüência de comandos para iniciar o leitor de fita e carregar o BASIC.

Aqui o boostrap original do Altair 8800:

Três seqüências de boot do Altair 8800 (Crédito: Reprodução)

A primeira versão foi escrita por Paul Allen durante o vôo, e eles se surpreenderam quando depois de inserida pacientemente no painel do Altair 8800, na sede da MITS, o programa rodou de primeira.

Demorou bastante para inserirem os 46 bytes do bootstrap de Allen. Mais tarde ele e Gates disputaram quem conseguiria escrever a menor versão. Bill ganhou, reduzindo para 17 bytes.

NOTA: em 2015 um sujeito conseguiu bater o recorde de Bill escrevendo um bootstrap de apenas 12 bytes.

Depois que a fita de papel foi lida, o teletipo imprimiu uma mensagem perguntando o tamanho da memória disponível. Em um sistema com 4KB o BASIC deixava 760 Bytes disponíveis para programas, o resto era ocupado pelo interpretador.

Diante do “OK” impresso no teletipo, Paul Allen digitou a célebre “PRINT 1+1” <enter>, comando que o interpretador BASIC prontamente respondeu “2”.

No vídeo abaixo reproduzem o exato processo, de programar a rotina de boot a executar o comando em BASIC.

Com o BASIC era possível escrever programas com muito, muito, muito mais facilidade do que em linguagem de máquina, e estavam livres do painel frontal, ao menos até o próximo reboot. Ah sim levava 9 minutos para o terminal ler a fita com o BASIC 4K da Micro-Soft, como a empresa se chamava na época.

Novas versões e expansões foram aparecendo, o BASIC 4K original passou a dividir espaço com o BASIC 8K, com mais funções e recursos. Não, mesmo com o BASIC o Altair 8800 não rodava Crysis.

A nova linguagem era cara, a Microsoft vendia o BASIC mais básico pelo equivalente a US$725 em 2021, a Extended, US$1700, mas se você comprasse uma expansão de memória da MITS havia um desconto significativo, o BASIC básico saía por US$290 em valores atuais, os outros sofriam reduções semelhantes.

Apesar de todo o sucesso, da verdadeira febre criada pelo Altair 8800, A MITS não teve um destino muito feliz. Em 1977 ela faturava o equivalente hoje a US$26 milhões, mas era pouco, o Altair 8800 era vendido a preço de custo, o lucro vinha das expansões, e todo mundo estava produzindo expansões, além de clones e derivados estarem surgido de todo lado.

Em verdade em 77 ele já estava mais que obsoleto, ainda mais com a introdução em Abril de um tal de Apple II.

Esse já dá pra brincar (Crédito: FozzTexx / Wikimedia Commons)

A MITS acabou sendo vendida para a Pertec Computer Corporation, que tirou o Altair 8800 de linha, aproveitando os funcionários e a fábrica para produzir seus próprios computadores. Ed Roberts pegou sua parte da venda, equivalente a US$9 milhões hoje, e comprou uma fazenda. Tempos depois ele se formou em medicina e foi morar em uma cidadezinha do interior, sendo médico local, até morrer em 2010, aos 68 anos.

Seu legado foi uma série de gerações de hobbistas, nerds, micreiros, fuçadores, hackers, programadores e curiosos. Jovens que tinham uma atração instintiva por tecnologia, que gostavam de construir seus próprios brinquedos e compartilhar com os amigos.

Altair 8800 com duas unidades de disquete de 8 polegadas. Cada um comportava incríveis 300KB (Crédito: Dr. Bernd Gross / Wikimedia Commons)

Clubes eram formados, convenções e feiras. Nomes como Gates, Allen, Simonyi, Wozniack, Draper, Bricklin, gente que mudou o mundo teve seu mundo mudado quando viram aquela capa da Popular Electronics.

Toda a revolução tecnológica que resultou no incrível mundo conectado que temos hoje foi apoiada no ombro desses gigantes, e nenhum deles é maior do que Ed Roberts e sua humilde caixinha azul, o Altair 8800.

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