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Tudo sobre a maleta nuclear de Joe Biden

A maleta nuclear é o dispositivo que está sempre perto do Presidente e permite que ele controle o arsenal nuclear, mas não é um controle-remoto mágico.

20/01/2021 às 20:09

O pessoal adora falar que com sua maleta nuclear o Presidente dos Estados Unidos pode lançar um ataque nuclear a qualquer momento, mas na realidade quais as limitações, e qual a função da tal maleta?

Oficial carrega a Maleta Nuclear (Crédito: AFP)

Você com certeza já reparou que sempre que o Presidente dos EUA aparece, perto dele há um oficial das forças armadas carregando uma bolsa enorme. Essa maleta nuclear tem todo o material necessário para o POTUS lançar um ataque nuclear. Não confundir com a maleta carregada pelo ajudante de ordens do POCOTOPUS, essa só tem Cloroquina.

A maleta nuclear surgiu nos Anos 60, quando John Kennedy percebeu que o sistema de autenticação das forças nucleares era falho, e era preciso criar uma forma do Estado Maior das Forças Armadas confirmar a identidade do Presidente.

Com a possibilidade de mísseis russos a 150Km da Flórida, e submarinos russos podendo surgir em ambas as costas, o tempo de reação entre um lançamento russo e o impacto deixou de mais de 40 minutos para menos de 15. O Presidente não podia mais se dar ao luxo de longas discussões com seus generais.

Kennedy e sua maleta nuclear (Crédito: John F. Kennedy Presidential Library and Museum)

O Presidente tinha à sua disposição o Plano Operacional Integrado Único, uma série de cenários aonde era recomendada a retaliação adequada. Mais tarde durante a administração Carter o plano foi simplificado mais ainda, para acelerar a decisão.

A maleta nuclear, apesar do que os filmes mostram, não traz um grande botão vermelho e uma chave de girar. A maior parte do conteúdo dos 20Kg da pasta é... papel.

São os tais planos, na forma de um livro preto. Também há um livro descrevendo locais secretos nos EUA, como bunkers, bases militares fora do mapa, paióis e abrigos nucleares. Junto há procedimentos para acionar o sistema de transmissão de emergência, que forma uma rede nacional assumindo o controle de sinais de rádio, tv e telefonia, com mensagens assim:

Ah sim abaixe o volume.

Cada uma das opções é acompanhada de códigos, que são autenticados pelos comandantes do outro lado. Junto a isso o Presidente leva em seu bolso um cartão conhecido como “biscoito” (ou bolacha, tanto faz, não comprei esse meme) com códigos de identificação pessoal. Ele sabe quais códigos usar no momento certo.

Há indícios que a maleta nuclear tenha também equipamentos de telecomunicações, para servir de backup caso as linhas convencionais estejam danificadas, mas dificilmente há um equipamento que permita controle direto de equipamentos de lançamento, isso vai contra a doutrina de múltiplas autorizações.

O oficial que carrega a maleta nuclear, mais conhecida nos EUA como Football nunca pode se afastar do Presidente. Deve estar sempre no mesmo elevador e no mesmo veículo. Na Casa Branca a situação é mais relaxada, mas na rua ele sempre está bem próximo.

O que, claro, não funciona 100%. Em 1973 Richard Nixon recebeu Leonid Brezhnev em sua visita aos EUA. Sabendo eu Brezhnev era fanático por carros e tinha uma grande coleção particular (você sabe, comunistas) os diplomatas americanos organizaram para que Nixon presenteasse o Premiere com um Lincoln Continental zero km, tirando as provavelmente 250 escutas que a CIA instalou no carro.

Sim o vídeo abaixo é uma recriação mas dá uma boa idéia do acontecido.

Brezhnev adorou, pegou as chaves, sentou ao volante e chamou Nixon pra dentro. Para desespero dos agentes do Serviço Secreto, Nixon entrou e Brezhnev disparou com o carro, percorrendo as estradas apertadas em torno de Camp David. Por meia-hora o Presidente dos EUA ficou fora do alcance de sua maleta nuclear, mas como seu maior inimigo estava ao lado, dirigindo feito um maníaco, não havia tempo para aproveitar e atacar os EUA de surpresa.

Várias outras ocasiões a maleta nuclear foi afastada do Presidente. Chegou a ser esquecida em um balcão em um aeroporto na Itália, e o oficial responsável a pegou da janela de outro carro, em movimento.

Os Presidentes também não colaboram. Bill Clinton ficou vários meses no ano 2000 sem perceber que tinha perdido seus códigos de autenticação. Já os charutos ele (e todo mundo) sabia aonde estavam.

Como funciona a Maleta Nuclear

Em caso de uma suspeita de ataque com armas de destruição em massa, o Presidente é informado do tempo disponível para reação. Ao mesmo tempo ele comanda o ajudante de ordens responsável para abrir a maleta e pegar os planos de resposta adequados.

Os dois estudam os planos e presumivelmente com ajuda do ajudante, o Presidente seleciona a resposta adequada.

Usando os equipamentos de comunicação da maleta nuclear o ajudante de ordens contacta a junta do Estado Maior das Forças Armadas (Join Chiefs) e o Secretário de Defesa, que revisam os planos.

Em seguida os mesmos rádios são usados para contatar o Centro Nacional de Comando Militar e o NORAD. Sinais são enviados por satélites militares para bases de mísseis e submarinos, com procedimentos e planos a ativar.

O tempo todo a identidade do Presidente é questionada e deve ser autenticada com os códigos.

Depois dos planos enviados para as unidades de combate é preciso enviar um código de ativação que armará as ogivas nos mísseis e bombas. Esse código só é enviado depois que o Secretário de Defesa autentica a identidade do Presidente.

Tecnicamente o SECDEF não pode vetar a ordem, mas se ele se negar a reconhecer o Presidente pode enrolar a situação o suficiente para o Jack Ryan salvar o dia.

E a Maleta Nuclear do Trump?

Normalmente existem três maletas nucleares: Uma com o Presidente, outra com o Vice e uma terceira na Casa Branca, de backup. Em 2021, como Donald Trump fez pirraça e se recusou a participar da posse de Joe Biden, criou-se uma situação rara.

Trump, a mala. (Crédito: CBS)

Trump saiu da Casa Branca, seguido do oficial com a Maleta Nuclear, enquanto isso em Washington outro oficial com outra maleta acompanhava Joe Biden. Especula-se que no momento da posse os códigos de Trump foram invalidados, e os de Biden ativados.

Conclusão:

A tal maleta nuclear não é um dispositivo mágico do fim do mundo. Ela é um menu do fim do mundo e um hub de comunicações, mas todos os comandos são enviados para pessoas, que seja nos silos seja nos submarinos estão sujeitos à Regra dos Dois Homens (ou duas pessoas, em tempos politicamente corretos).

Não há nenhum link direto com o WOPR. Alguma coisa aprendemos de Wargames. Nos submarinos o comandante e o primeiro-oficial precisam concordar para lançar, nos silos os dois oficiais devem concordar, e como proteção adicional não só as duas chaves de lançamento devem ser giradas, como outro silo conectado ao sistema deve girar também suas chaves.

E sim, claro que os russos tem um sistema equivalente. Eles chamam a maleta nuclear deles de Cheguet e nunca está muito longe do Putin.

Putin e o cara da maleta (Crédito: Daily Mail)

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