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Carros elétricos serão o futuro, por bem ou pela canetada

Após décadas de inércia, a indústria automobilística será arrastada a contra gosto para o futuro dos carros elétricos, por força da Lei

26/01/2021 às 11:40

Os carros elétricos atravessaram décadas não sendo mais do que curiosidades internas das grandes montadoras, ou iniciativas menos que ideais de empresas menores. A Tesla foi a primeira companhia a apresentar carros decentes, com aparência comum e performance de supercarro, sem custar o mesmo que um, mas mesmo Elon Musk não despertou a atenção de gigantes como Volkswagen, Ford, Fiat e outras.

Só que no mundo atual, motores a combustão são vilões e serão extintos, se não por uma evolução voluntária da indústria automobilística, pela força da Lei, com vários países se preparaando para banir veículos movidos a combustíveis fósseis, dentro de no máximo 30 anos.

Carro elétrico recarregando em estação (Crédito: Mikes-Photography/Pixabay)

Carro elétrico recarregando em estação (Crédito: Mikes-Photography/Pixabay)

A rigor, o carro elétrico surgiu antes do movido a gasolina ou diesel, mas a eficiência energética dos combustíveis fósseis, combinada à fraca autonomia das baterias do passado, fez com que a indústria motora se apoiasse na petrolífera por mais de um século. Montadoras possuem à disposição mais de 100 anos de experiência compartilhada sobre como montar um carro, suas linhas de montagem são devidamente azeitadas para produzir um veículo tradicional em tempo recorde.

Ainda que as mesmas invistam milhões em carros elétricos, o ato geralmente vem acompanhado de vícios da montagem dos movidos à combustão, onde a mesma plataforma e expertise são adaptadas da forma que der. Isso quando as montadoras não mandam recados bem claros, relacionando o carro elétrico a um sentimento de culpa.

Até a chegada da Tesla, carros elétricos tinham quase a obrigação de serem horrorosos, e nem falo das pequenas montadoras: o Renault Twizy, por exemplo, foi uma abominação classificada pela revista Quatro Rodas como o equivalente a ir trabalhar só de cueca.

Na Europa, ele custava o equivalente a um hatch comum. No Brasil, ele chegou a ser usado pela empresa, mas não foi oficialmente vendido por aqui.

Renault Twizy (Imagem: Divulgação/Renault)

Renault Twizy (Imagem: Divulgação/Renault)

Precisou a Tesla, com uma plataforma de hardware extremamente simples, adicionar novos fatores na indústria. Um carro da montadora não é nada mais do que um computador com rodas, o motor elétrico, embora bastante eficiente é bem simples, tudo é resolvido via software. E mais importante, não há nenhum vício importado de outros carros, com exceção do Roadster original.

O primeiro carro lançado pela empresa de Elon Musk era um Lotus Elise adaptado, que embora tenha vendido pouco, serviu para a Tesla ganhar experiência. O Model S é um sedan de tiozão que vai de 0 a 100 km/h em 2 segundos, e o Model 3 é um carro de família comum, por US$ 35 mil no preço base.

Tirando os opcionais e pegando incentivos fiscais, é possível comprar um por US$ 25 mil, o que é bem acessível para o norte-americano médio.

O Model 3 é um elétrico que leva toda a família (Crédito: Divulgação/Tesla Motors)

O Model 3 é um elétrico que leva toda a família (Crédito: Divulgação/Tesla Motors)

Mesmo assim, os carros elétricos da Tesla não despertaram a atenção de suas concorrentes de grande porte. Tais montadoras já possuem seus veículos elétricos, e mesmo tendo estudado os veículos de Musk parafuso por parafuso (ou byte por byte, o que for mais fácil), ninguém se mexeu para mudar sua estratégia de mercado. O consumidor continuaria procurando carros a combustão, tanto pela confiança quanto pelo preço, e o mundo seguiria seu curso, com a Tesla comendo pelas beiradas.

Só que no mundo de hoje, ser ecologicamente correto não é apenas uma questão de princípios, mas também rende muitos votos. A Noruega (mesmo sendo um dos maiores exportadores de petróleo do mundo) foi o primeiro país a estipular um prazo para o banimento dos carros a combustão, que entrará em vigor em 2025, e vários outros países seguiram o movimento. A maioria das regras visa a interrupção da comercialização de carros novos, que passarão a ser todos elétricos.

Na Noruega e Holanda (ou Países Baixos, é complicado) o banimento será estendido também a carros já vendidos, o consumidor ou terá que comprar um carro elétrico, ou andar de transporte público. Já na Índia, Taiwan e Sri Lanka, o banhammer valerá para todos os veículos a combustão, incluindo caminhões, ônibus e motos.

Paralelamente, a fábrica de motores da Peugeot Citröen em Tremery, na França, anunciou que vai mudar o foco de diesel para elétricos. Até 2025, a meta é produzir até 900 mil novos motores, mais do que o atual produzido de modelos a combustão. Esta é uma das medidas tomadas na nova gestão, onde o Grupo PSA (Peugeot) e FCA (Fiat Chrysler) se fundiram em uma nova companhia, chamada Stellantis N.V.

Fábrica de motores da PSA em Tremery; foco em elétricos (Crédito: Divulgação/Stellantis N.V.) / carros elétricos

Fábrica de motores da PSA em Tremery; foco em elétricos (Crédito: Divulgação/Stellantis N.V.)

De fato, a ideia dos países que preferiram banir as vendas de carros movidos a combustão se baseia em permitir que o consumidor use seu veículo antigo até o ponto que não puder mais ser reparado, diferente dos poucos países que decidiram banir o uso de vez.

Com o tempo, grandes países consumidores como Japão, Espanha, França e Reino Unido começaram a entrar na onda e anunciaram seus planos para mudança da frota de carros para um futuro elétrico, dando o recado de que ao menos na Europa e Ásia, a gasolina não teria mais vez.

E então temos os Estados Unidos. Ainda que cada estado seja livre para legislar (a Califórnia irá banir ônibus a combustão até 2040, Los Angeles vai barrar todos os carros antigos em 2030, Nova Iorque só permitirá elétricos a partir de 2040), Donald Trump não mexeu um dedo para promover a indústria de carros elétricos por diversas razões enquanto presidente.

Já Joe Biden sinalizou que o país seguirá a cartilha da sustentabilidade.

O Corvette Stingray xodó do Biden irá para a garagem. Em definitivo. (Crédito: Joe Biden Channel/YouTube) / carros elétricos

O Corvette Stingray xodó do Biden irá para a garagem. Em definitivo. (Crédito: Joe Biden Channel/YouTube)

Além de reverter e reanalisar uma série de decisões de Trump, incluindo a volta dos EUA aos Acordos de Paris, uma das promessas de campanha de Biden inclui uma transição gradual da indústria automobilística para um futuro sustentável e ecológico, o que inclui a adoção de carros elétricos e o fim dos movidos a combustão.

O plano segue os moldes vistos na Europa e já implementados por alguns estados, e define a meta de 2040 para a remoção de todos os carros movidos a combustão das ruas dos EUA. Como forma de dar o exemplo, Biden anunciou que pretende trocar toda a frota veicular federal, em torno de 645 mil unidades (dados de 2019) por modelos elétricos.

O movimento atual de governos minimamente sérios é de se comprometer com a conservação do meio ambiente, nem que seja de fachada e apenas para garantir votos, e os carros a combustão sumirão na base da canetada. Já o Brasil deverá imitar o que for decidido no exterior e com base e pressão de players externos, visto a inércia costumeira do governo, independente de qual seja.

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