Meio Bit » História » A Inundação do Rio Amarelo: Quando a China partiu pro tudo ou nada

A Inundação do Rio Amarelo: Quando a China partiu pro tudo ou nada

A Inundação do Rio Amarelo foi uma atitude desesperada em uma guerra desesperada e até hoje não há consenso se valeu a pena.

26 semanas atrás

Seja por negligência, seja por interesse político fora da China pouca gente conhece a história da Grande Inundação do Rio Amarelo, que até hoje é considerado o maior ato de guerra ambiental de todos os tempos, um gesto de desespero, insanidade e com um custo impossível, tudo para deter um invasor implacável.

Soldados japoneses na Manchúria (Crédito: Domínio Público)

Para chegarmos lá, precisamos antes passar por um pouquinho de História, do tipo que a gente raramente vê nas escolas daqui do Ocidente, e nas do Oriente ela é contada de acordo com a vontade do freguês.

7 de Dezembro de 1941, um dia que viverá na Infâmia, o ataque a Pearl Harbor. A grande maioria das pessoas encerra (ou melhor, começa) aqui seu conhecimento da participação do Japão na Segunda Guerra, pouca gente questiona os motivos do ataque.

Uma minoria, em geral estudantes de História de esquerda (perdoem o pleonasmo) vão mais além e relatam que o ataque foi um ato de desespero pois o Japão estava sofrendo um bloqueio naval dos Estados Unidos. Eles gostam de passar a ideia que o Japão era uma terra de leite e mel, pacífica e bondosa que sonhou expandir seus limites e foi tolhida pelos ianques imperialistas malvados.

O Império Japonês não era nada disso, e como suas atitudes resultaram na Grande Inundação do Rio Amarelo, depende de voltarmos algumas guerras.

No final do Século XIX a Coréia passava por um vácuo de poder, com um herdeiro de 12 anos assumindo o trono. A China começou a se aproximar, enquanto a Coréia aceitou a influência de países do Ocidente, como os Estados Unidos. Em dado momento todo mundo queria a Coréia, incluindo Rússia e Japão.

Em Julho de 1894 as tensões se tornaram grandes demais e o Japão invadiu a Coréia, desafiando a Dinastia Qing, o último governo imperial da China. A briga durou até Abril de 1895, com o Japão invadindo Taiwan e a Manchúria, aonde fincaram pé. A guerra terminou com a China levando uma surra, e a Coréia caindo na esfera de influência japonesa. Essa foi a 1ª Guerra Sino-Japonesa.

1a Guerra Sino-Japonesa (Crédito: Domínio Público)

A Manchúria, uma região no norte da China e com fronteira com a Rússia logo se tornou mais disputada ainda, os russos queriam um porto de águas quentes no Pacífico, e os japoneses queriam se livrar da presença russa ali.

O Czar resolveu partir pra porrada, com uma frota obsoleta a milhares de quilômetros de casa, mesmo assim a briga durou de Fevereiro de 1904 a Setembro de 1905. O Japão, de novo ganhou.

Com governos-fantoche nos territórios conquistados, o Japão colocou em ação seu plano para criar a cinicamente chamada “Esfera de Coprosperidade da Grande Ásia Oriental”, aonde eles invadiriam países, tomariam os recursos naturais deles e todo mundo ficaria feliz.

Entra a Segunda Guerra Sino-Japonesa, que se confunde com a Segunda Guerra Mundial.

A Manchúria é aqui. (Crédito: Encyclopædia Brittanica)

O Japão, aliado da Alemanha e se armando até os dentes em Julho de 1937 invade a China Continental, aproveitando que o país está em meio a uma guerra civil, com duas facções principais guerreando entre si, a República da China, de Chiang Kai-Shek, apoiado pelos Estados Unidos, e o Partido Comunista Chinês de Mao Tsé-tung, apoiado pela União Soviética de Stalin.

Shangai caiu com facilidade, as forças chinesas, mesmo combinadas não eram páreo para o formidável exército japonês. Chiang Kai-Shek se viu diante da única estratégia possível: Trocar terreno por tempo, e realizou uma gloriosa retirada estratégica, o que colocou a cidade de Nanquim nas mãos do exército japonês.

Digamos assim: Eles não eram exatamente embaixadores da boa vontade, e se você já leu meu artigo sobre a Unidade 731, sabe que os japoneses não viam os chineses como exatamente gente. E o período de seis semanas iniciais da invasão ser chamado de Estupro de Nanquim também não é um bom indicador.

Prisioneiro chinês prestes a ser executado (Crédito: Domínio Público)

Os japoneses foram bárbaros, estima-se que possa chegar a 300 mil o número de mortos pelos invasores, grande maioria civis. As atrocidades japonesas envolviam tudo de ruim que você pode imaginar. Estupros em massa incluindo crianças pequenas, bebês jogados pro alto e espetados em baionetas, parentes sendo obrigados a estuprar familiares como entretenimento dos soldados. Prisioneiros usados para treino de baionetas.

Um caso clássico envolveu dois tenentes japoneses que enfileiraram prisioneiros e fizeram uma aposta sobre quem conseguiria matar 100 deles com uma katana primeiro.

A crueldade dos japoneses foi tanta que virou tema de cartas do adido militar nazista, que acompanhava a invasão chinesa e ficou enojado com o que viu.

As notícias da invasão chegavam ao ocidente, mas todo mundo estava ocupado com um certo austríaco de bigode esquisito, e quem não estava em guerra não queria entrar. Nos Estados Unidos o sentimento de isolacionismo era enorme, e o Governo só podia ajudar a China indiretamente, com dinheiro e suprimentos. Os russos por sua vez ajudavam discretamente as tropas de Mao Tsé-tung, que nessa altura já tinha acordado com Chiang Kai-Shek que o inimigo do meu inimigo às vezes é meu inimigo também e é melhor cessar a briga interna até expulsar os japas.

Mao Tsé-Tung (Crédito: Domínio popular, camarada)

Com as tropas japonesas cada vez mais no interior da China, em 1938 Chiang Kai-Shek se viu sem opções. Ele não conseguiria atrasar os chineses o suficiente para esperar uma eventual entrada dos Americanos na Guerra, e os Ingleses não tinham condições de vir ao socorro dos chineses, eles estavam ocupados brigando em seu quintal.

Surgiu então um plano basicamente suicida, que tornaria o avanço japonês muito mais lento e custoso, mas a um preço altíssimo: Chiang Kai-Shek ordenou que as represas do Rio Amarelo, a principal artéria fluvial do país fossem abertas ou dinamitadas.

3 milhões de refugiados, 800 mil mortos, 5 milhões de pessoas afetadas. (Crédito: Wikimedia Commons)

O Rio Amarelo tem 5464Km de extensão, sua bacia é IMENSA, com 1100km de extensão norte-sul e 1900 leste-oeste. A vazão de 2,571 m3/s é igualmente imensa. Literalmente milhões de pessoas vivem às suas margens, com cidades, hidroelétricas, portos, tudo.

Nenhuma delas foi avisada do plano, sob o risco da informação chegar a algum espião japonês.

No dia 5 de Junho de 1938 começaram as explosões, e o Rio Amarelo voltou a ocupar seu antigo leito, livre das represas criadas pelo Homem. Isso resultou em milhares de vilas e cidades destruídas, plantações arrasadas, estradas intransitáveis. O curso do Rio Amarelo foi alterado em centenas de quilômetros.

Luta na Lama não é tão divertido quanto na TV, né Mr Japa? (Crédito: Domínio Público)

As estimativas atuais colocam o número de mortos em 893 mil, a imensa maioria civis chineses. Quatro milhões de pessoas perderam tudo e se tornaram refugiados, vagando pelas intermináveis planícies alagadas.

O exército japonês foi detido, temporariamente, mas em Outubro do mesmo ano eles tomaram a cidade de Wuhan. A enchente impediu que o Japão consolidasse sua posição em muitas das cidades inundadas, até porque não havia mais nada de valor para ocupar e defender.

Quem estava no caminho da inundação não aceitou a ideia de que era “estratégia de guerra”, e boa parte da população culpou mais a República da China, de Chiang Kai-Shek do que os invasores japoneses. Há muitos relatos de chineses se tornando colaboradores do Japão depois disso.

Refugiados fugindo da inundação. (Crédito: Domínio Público)

Outro que se beneficiou? Mao Tsé-Tung, muitos membros foram inscritos no PCC, depois que as pessoas viram horrorizadas o resultado da Inundação do Rio Amarelo.

É claro que não existe guerra sem baixas civis. Na Invasão da Normandia o bombardeio preparatório que enfraqueceu as defesas costeiras alemães matou mais de 40 mil pessoas nas cidades próximas, e nem chega perto das vítimas propositais em bombardeios em cidades como Dresden e Tóquio (+100 mil).

O que é assustador é a idéia de um líder apelar para uma medida que matou 900 mil de seu próprio povo, quatro vezes mais que as vítimas de Hiroshima e Nagasaki (que eram alvos militares válidos) combinadas.

A China sofreu horrores nas mãos de Mao Tsé-tung, entre massacres expurgos e fome a Revolução Cultural matou 20 milhões de pessoas, mas depois da Inundação do Rio Amarelo, não dá pra afirmar que com Chiang Kai-Shek a China teria melhor sorte.

A campanha nos EUA era fortemente pró-China. (Crédito: Domínio público)

Leia mais sobre: , , .

relacionados


Comentários