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Fato: Google nunca soube o que fazer com tablets

Google tira Pixel Slate do mercado, um ponto final numa história que poderia ter sido diferente, se a empresa tivesse dado atenção devida aos tablets

01/02/2021 às 12:25

O Google anunciou em junho de 2019 que a companhia havia desistido de produzir tablets, e em janeiro de 2021, descontinuou o último produto da categoria que ainda mantinha, o Pixel Slate, lançado em 2018.

Ele foi a última tentativa de uma empresa que embora gigantesca, nunca conseguiu entender o que é um tablet e como vendê-lo, não conseguindo concorrer com fabricantes de dispositivos Android, como a Samsung, e muito menos com a linha iPad da Apple.

Pixel Slate: mais um rumo ao cemitério do Google (Crédito: Divulgação/Google)

Pixel Slate: mais um rumo ao cemitério do Google (Crédito: Divulgação/Google)

Quando Steve Jobs apresentou o iPad em janeiro de 2010, fabricantes de celulares Android e de laptops correram atrás do prejuízo, abandonando conceitos como o Slate da Microsoft (algo parecido, mas com teclado e caneta stylus), e trataram de lançar seus próprios tablets, um movimento que acabou por tabela matando os netbooks, que embora baratos, não tinham lá uma boa performance.

Samsung e LG foram as primeiras a apresentarem tablets Android bem decentes, o Galaxy Tab original, lançado em novembro daquele ano, tinha uma proposta mais portátil, com tela originalmente de 7 polegadas e mesmo rodando um sistema cheio dos bloatwares da época, era um gadget bem decente. Como normal na época, a versão brasileira tinha suporte a TV analógica e digital.

O Google resolveu fazer diferente, e usar a mesma estratégia empregada com seus celulares rodando Android puro. Através da linha Nexus, fabricantes parceiras desenvolviam o hardware, a gigante das buscas fornecia o software e todas ganhavam.

O problema dessa estratégia é a perda do controle fino, além da óbvia concorrência desses produtos com outros lançados pelas próprias OEMs. Ainda assim o Nexus 7 original, fabricado pela ASUS e lançado em julho de 2012, vendeu 7 milhões de unidades ao todo, principalmente pelo preço sugerido de US$ 199, mesmo tendo apenas 8 GB de espaço interno no modelo básico e não ter câmera traseira, só a selfie.

A título de comparação, o iPad começava em US$ 499, embora oferecesse 16 GB de espaço no modelo de entrada.

Hugo Barra, então VP de Android, apresenta o Nexus 7 original em 2012 (Crédito: Stephen Shankland/Wikimedia Commons)

Hugo Barra, então VP de Android, apresenta o Nexus 7 original em 2012 (Crédito: Stephen Shankland/Wikimedia Commons)

Foi o Nexus 7 original o pivô da história mais mal contada da distribuição de tablets no Brasil. Em 2013, lotes do produto voltados (até onde se sabe) para clientes corporativos foram parar na rede varejista, sendo vendidos de forma "acidental" para o público final em janeiro de 2013, pelo preço sugerido de R$ 1.299.

Em abril do mesmo ano, a ASUS se viu forçada a "lançar oficialmente" o Nexus 7 no Brasil por R$ 999, e na época, o então VP de Android Hugo Barra disse que o lançamento como um todo no território brasileiro foi "um mal entendido". Tanto foi verdade que findo o estoque, o tablet não foi reposto.

Nenhum outro tablet da linha Nexus foi lançado no Brasil pelo Google de forma oficial, diferente de alguns celulares, como o Samsung Galaxy Nexus (por aqui, Galaxy X) e o LG Nexus 4. De qualquer forma, os resultados embora razoáveis, não faziam frente a outros produtos Android similares, e nem faziam cócegas no iPad.

Em 2015, a empresa decidiu ela mesma tomar as rédeas da fabricação de dispositivos móveis com a linha Pixel, e apresentou o tablet Pixel C. A proposta era de um produto mais profissional, similar ao iPad Pro, com suporte a teclado, mas ainda rodando Android.

Pixel C: bom hardware, software nem tanto (Crédito: Divulgação/Google)

Pixel C: bom hardware, software nem tanto (Crédito: Divulgação/Google)

Equipado com um processador Nvidia Tegra X1 e 3 GB de RAM + 1 GB de VRAM, ele foi um produto um tanto inconsistente, e mesmo com um preço sugerido de US$ 499 na versão de 32 GB de espaço, não foi considerado um produto bem posicionado, principalmente quando o Google já tinha os Chromebooks bem estabelecidos.

Enquanto a linha Pixel substituiu a Nexus totalmente em smartphones, o novo tablet do Google só surgiria em 2018, com o Pixel Slate, este sim um concorrente de peso do iPad Pro. Equipado com processadores Intel, indo do Celeron e Core m3 até os mais potentes Core i5 e i7, de 4 a até 16 GB de RAM e GPU integradas Intel UHD 615, ele foi pensado como um ultrabook 2 em 1 e não necessariamente como um tablet, tanto que ele não roda Android, mas Chrome OS.

A tela de 12,3 polegadas tem resolução de 3.000 x 2.000 pixels, e seus acessórios incluem o teclado retroiluminado e a stylus desenvolvida em parceria com a Wacom, empresa referência em mesas digitalizadoras e canetas para escrita e desenho em telas.

O problema, desta vez, foi o preço. O modelo mais modesto, com Celeron e 4 GB de RAM custava US$ 699, enquanto que para ter um com Intel Core i5 era preciso desembolsar US$ 999. Quer o com Core i7? São US$ 1.599, o preço de um laptop Windows de ponta.

O Pixel Slate caiu em uma categoria em que não era nem um tablet, nem um notebook, com um preço alto demais em comparação a um Chromebook, e próximo demais de um iPad, e convenhamos que quem está disposto a gastar tanto assim, fecha com a Apple.

Por isso a decisão de sair do mercado de tablets, anunciada em 2019 não surpreendeu. O Google manterá o suporte do Android aos produtos de fabricantes parceiras como de praxe, mas não mais investirá em novo gadgets por conta própria.

No momento, o Slate não está mais à venda e foi movido para suporte, enquanto é elegível para atualizações futuras do Chrome OS. O Pixel C, que parou no Android 8.1 Oreo, não mais recebe updates de segurança.

Ainda que as vendas de tablets tenham caído nos últimos anos, a categoria ganhou força em 2020 graças à pandemia da COVID-19, com mais gente trabalhando de casa. O Google poderia ter aproveitado esta onda e investido novamente na categoria, mas preferiu se focar na linha Chromebook através de OEMs, visto que o Pixelbook Go, seu último modelo próprio, foi lançado em 2019.

Seria interessante ter mais um concorrente ao iPad, que segue firme na liderança, e o Google era uma das, se não a única empresa que poderia fazer frente ao tablet da maçã. Claro, se tivesse entendido como vender tablets desde o início.

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