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A indústria de games e os vendedores de óleo de cobra

Indignado com as promessas feitas pelos game designers, criador do Ori and the Blind Forest publica carta criticando as mentiras na indústria de games

37 semanas atrás

Atenção, atenção! Venham comigo conhecer a próxima grande maravilha que chegará em breve(?) às lojas! Um título que trará uma complexidade nunca vista, que lhe permitirá explorar o mundo mais fantástico já criado e que revolucionará a indústria de games! Embarque comigo neste trem que não tem dia certo para chegar ao seu destino e cuja viagem (provavelmente) será mais empolgante do que aquilo que encontraremos na estação final!

Vendedor de oléo de cobra, mas poderia ser alguém da indústria de games

Snake Oil Salesman (Crédito: Reprodução/Morgan Weistling)

Sim, o início deste texto não passa de um devaneio do autor, mas ele bem que poderia ter sido declamado tanto por aqueles homens que vendiam remédios milagrosos enquanto o oeste dos Estados Unidos estava sendo desbravado, quanto por vários desenvolvedores de jogos. A diferença é que se há mais de um século aqueles vendedores de ilusões precisavam montar seus modestos palcos nos povoados que visitavam, os de hoje aproveitam o poder da internet e a ânsia dos consumidores por novidades para tentar vender seus (teoricamente) fabulosos mundos virtuais.

Mas não pense que esta é uma linha de raciocínio apenas minha, um mero apaixonado por jogos, pois mesmo pessoas diretamente ligadas à indústria de games estão começando a externar toda a sua indignação com as mirabolantes promessas que tem sido feitas nos últimos anos. Um destes profissionais é Thomas Mahler, CEO da Moon Studios, uma desenvolvedora austríaca que ganhou destaque por duas ótimas criações, Ori and the Blind Forest e Ori and the Will of the Wisps.

Insatisfeito com a maneira como alguns dos seus companheiros de trabalho tem agido, o game designer usou o fórum Resetera para publicar uma carta aberta intitulada “Por que os jogadores estão tão ansiosos para confiar e até mesmo perdoar os vendedores de óleo de cobra?” Em tom um tanto áspero, Mahler não poupou críticas a figuras renomadas do meio e a maneira como eles tem tratado os consumidores. Ele escreveu:

Tudo começou com Molyneux. Ele era o mestre de ‘em vez de dizer o que o meu produto é, permita-me enlouquecer com o que acho que poderia ser e deixá-los empolgados!’ E estava tudo bem, até que você realmente colocasse seu dinheiro naquilo e então o jogo não era nada parecido com o que o Peter estava alardeando que fosse […]

Então veio Sean Murray, que aparentemente aprendeu direto com o manual do Peter Molyneux. Esse cara aparentemente adorouuuu os holofotes. Mesmo dias antes do No Man's Sky ser lançado, ele exaltou o multiplayer que nem existia e estava muito feliz para deixar as pessoas acharem que o No Man's Sky era um ‘Minecraft no espaço’, onde você podia fazer literalmente tudo (você poder fazer tudo é um tema comum por trás dos vendedores de óleo de cobra dos games, porque ei, isso atrai todo mundo!) […]

E então veio o Cyberpunk 2077. Feito pelos caras que fizeram o The Wicther 3, então esta porcaria tinha que ser boa. Aqui está o novo universo Cyberpunk e — acredite em nós — você pode fazer a po*** toda! Aqui o departamento inteiro de relações públicas da CD Projekt pegou todas as dicas que funcionaram para o Molyneus e para o Murray e enlouqueceram completamente. Os jogadores acreditaram que aquilo se tratava de um ‘GTA Sci-fi em primeira pessoa.’ Como não amar? Cada vídeo lançado pela CDPR era cuidadosamente feito para criar na mente dos jogadores uma imagem que era simplesmente irresistível. Eles pararam um pouco antes de dizer que essa coisa curaria o câncer. Essa estratégia resultou na sensacional pré-venda de oito milhões de cópias […]

Mahler também aproveitou para criticar Geoff Keighley, jornalista e produtor executivo do The Game Awards, já que na sua opinião, premiar o No Man's Sky por ele continuar recebendo atualizações e só anos depois ter aquilo que foi prometido para o seu lançamento, é algo que não ajudará a indústria de games a se tornar mais forte.

O game designer ainda admitiu que como desenvolvedor foi afetado pelo oba-oba criado em torno do jogo da Hello Games. Isso aconteceu porque lá 2014 o Ori and the Blind Forest chegou a ser cogitado para estampar a capa de uma grande revista, mas a editora acabou optando pelo No Man's Sky por se tratar de um “jogo maior”. Para Mahler, na época a justificativa fez sentido, mas quando o jogo finalmente saiu e ficou claro que o hype foi criado em cima de mentiras, ele se sentiu enganado.

Crédito: Divulgação/Hello Games

Não sendo comum profissionais da área criticarem abertamente outros desenvolvedores, as palavras de Thomas Mahler caíram como uma bomba na imprensa e não demorou para que ele aparecesse com um pedido de desculpas. Usando sua conta no Twitter, o também diretor de criação afirmou que estragou tudo e que após uma longa conversa com outras pessoas da sua empresa, chegou à conclusão de que ele não representou o Moon Studio da maneira que deveria.

O CEO admitiu ter utilizado um tom exageradamente agressivo, algo que não é adequado alguém na sua posição, além de afirmar que não tinha intenção de machucar ninguém, apenas levantar um debate sobre problemas que tem afetado a indústria de games. Segundo Mahler, “todos nós compartilhamos um amor comum por esta forma de arte e devemos sempre manter o respeito uns com os outros”, algo que ele não fez no texto publicado anteriormente. Por fim, Mahler disse lamentar a situação, principalmente pelas pessoas que citou pelo nome e que promete ter aprendido a lição.

Alegando também ser um jogador e que gosta da ideia de desenvolvedores e o público terem um canal aberto para que possam discutir assuntos relacionados a criação de games, parece que o executivo não tinha muita noção da repercussão que suas palavras teriam e pensando apenas pelo lado dos negócios, podemos dizer que ele foi no mínimo indelicado.

Contudo, todo mundo que gosta de videogames já teve o desprazer de comprar um título que não entregava aquilo que nos foi vendido e por isso tenho certeza que Thomas Mahler passará a ser admirado por muitos consumidores. Se isso por si só será suficiente para aumentar as vendas de seus jogos, eu até imagino que não, mas que ao se expor o sujeito conseguiu reapresentar imensidão de pessoas, não tenho a menor dúvida.

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