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Starlink já incomoda operadoras dos EUA, o que é ótimo

A SpaceX mal abriu a pré-venda de planos da Starlink, e operadoras dos EUA se posicionam contra financiamento da FCC à internet espacial de Elon Musk

25 semanas atrás

A Starlink, serviço de internet via satélite direto ao usuário final da SpaceX, mal chegou e já está tirando o sono da concorrência. Enquanto a companhia de Elon Musk segue nos testes do período de beta, ela já está realizando pré-vendas em mais regiões dos Estados Unidos, bem como no Canadá e Reino Unido.

Aparentemente os negócios estão indo tão bem, que dois consórcios norte-americanos que representam operadoras, que oferecem serviços de fibra e de acesso a zonas rurais, estão tentando barrar a participação da SpaceX em uma nova licitação da FCC (Federal Communications Commission, o equivalente local à Anatel).

Satélite da Starlink com painel solar (Crédito: Divulgação/SpaceX)

Satélite da Starlink com painel solar (Crédito: Divulgação/SpaceX)

Como já explicamos em artigos passados, internet via satélite não é algo novo e muito menos trivial, a Física não perdoa e a distância percorrida pelo sinal de internet, do satélite até o usuário e vice-versa, leva a um ping teórico de 238,7 ms, mas na prática se trabalham com números na casa de 600 ms. Embora não seja ideal para jogar, é o suficiente para trabalhar e acessar páginas e redes sociais.

Um satélite geoestacionário, fixo na órbita de Clarke (35.786 km de altitude) consegue cobrir um hemisfério, mas projetos como o da Starlink trabalham com uma constelação deles, em uma órbita bem mais baixa. Atualmente a companhia tem autorização para operar mais de 40 mil deles, além de mais 1.600 para as regiões polares. Estes estão entre os mais recentes colocados em órbita e usam feixes de laser para trocarem dados entre si, dispensando estações terrestres.

Originalmente a altitude média dos satélites da Starlink ficaria entre 1.100 e 1.325 km, mas a FCC autorizou a empresa a reduzir a altitude para 560 km, o que derrubou em muito o ping. Em agosto de 2020, os satélites atingiram uma marca de 20 ms a uma velocidade de conexão constante de 60 Mb/s, mas Musk quer chegar a 16 ms, o que habilitaria a Starlink para jogos online.

Claro que o foco inicial da Starlink não é o usuário que já tem acesso a fibra ultrarrápida, e sim usuários em regiões remotas, onde a oferta é escassa e os preços absurdos. Se você pensou nos planos de internet disponíveis no interior do Brasil, que têm valores elevados e velocidades limitadas, saiba que nos Estados Unidos isso não é muito diferente. O problema é que Musk entrou no jogo com os dois pés na porta.

Graças a subsídios da SpaceX, vindo de seus contratos com agências espaciais, a Starlink pôde miniaturizar a tecnologia de phased array para reposicionamento eletrônico da antena em relação aos satélites, algo usado em navios de guerra, e por isso mesmo, nada barata.

Ainda assim, o preço do plano de 150 Mb/s foi fixado em US$ 99/mês. A antena custa US$ 499.

Sim, há planos para fornecer o serviço no Brasil (Crédito: Reprodução/SpaceX)

Sim, há planos para fornecer o serviço no Brasil (Crédito: Reprodução/SpaceX)

Pode parecer caro, mas quando você compara com valores locais no interior dos Estados Unidos, as coisas mudam. A Hughesnet, por exemplo, oferece 25Mb/s via satélite por US$ 150/mês, enquanto a Viasat cobra US$ 170/mês em um plano de 50 Mb/s. Em poucos meses, o cliente da Starlink economiza na conta o valor da antena.

E exatamente por isso a empreitada de Elon Musk está incomodando os concorrentes. Em um estudo (cuidado, PDF) encomendado por duas associações, a Fiber Broadband Association (FBA), que reúne operadoras de fibra, e a NTCA-The Rural Broadband Association, de companhias de internet para clientes nas zonas rurais, é defendido o argumento que a velocidade da internet fornecida pela Starlink é "lenta demais", e que até 2028, os usuários sofrerão com uma possível degradação do sinal devido ao congestinamento (mais usuários = queda de qualidade).

Claro que esse último argumento se aplica a qualquer companhia que não invista em infraestrutura, como demonstrado pela qualidade do serviço de internet fornecido pelas operadoras brasileiras, mas divago. Aqui, FBA e NTCA se agarram à possibilidade de que a SpaceX não conseguirá atender a demanda crescente de usuários, e não garantirá a qualidade do serviço com o passar dos anos.

Por esse motivo, ambas associações defendem que a SpaceX deve ser impedida de participar da licitação da FCC que distribuiu US$ 9,2 bilhões a 180 companhias diferentes, como meta de levar internet a 5,2 milhões de residências e empresas.

A Starlink garantiu acesso a US$ 885,51 milhões por 10 anos, e deverá fornecer internet de 100 Mb/s de download e 20 Mb/s de upload a 642.925 usuários, para atender as exigências da comissão.

A decisão não é final e pode ser revogada, fazendo com que a Starlink fique de fora do bolo outra vez, lembrando que a SpaceX já perdeu uma licitação bem maior, por conta de prazos irreais para demonstrar que o serviço funcionava. Na ocasião, o então diretor da FCC Ajit Pai era apoiado por lobistas das operadoras tradicionais.

Hoje Pai não mais faz parte da FCC, que é presidida interinamente pela comissária Jessica Rosenworcel, apontada pelo presidente dos EUA Joe Biden para o cargo, e que entrou na comissão por indicação de Barack Obama. Como os ventos mudaram, é provável que as reclamações não sejam ouvidas desta vez e Musk possa avançar com seus planos.

No fim das contas, o incômodo que a Starlink está causando poderá ser benéfico aos usuários, afinal é mais concorrência entrando no mercado. As operadoras que se virem para correr atrás de Musk e ofereçam serviços melhores e mais baratos, ou ficarão para trás.

Fonte: Ars Technica

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