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Constance Tipper – A Rainha do Frio e do Aço

Constance Tipper foi uma engenheira que se impôs em um mundo masculino, se tornando a melhor do mundo em sua área e salvando seu país

23 semanas atrás

Para chegarmos à contribuição de Constance Tipper precisamos voltar bastante no tempo. Mais precisamente para 1939, uma época que alguns chamavam de “Tempos Felizes”. Esses alguns eram os submarinistas nazistas na Batalha do Atlântico.

O bicho pegou feio na Batalha do Atlântico. (Crédito: Domínio Público)

Hitler sabia que sua maior chance de vencer a Inglaterra era colocar o país de joelhos, fazendo com que a fome e a falta de suprimentos e matéria prima tornassem impossível o esforço de guerra.

Como assim como a Dilma a Europa estava sitiada, a única fonte de recursos dos ingleses eram os Estados Unidos, que ainda não estavam formalmente em guerra. Os alemães partiram então com seus submarinos, a flotilha de Karl Dönitz tocou o terror sem ser incomodada, ao menos no começo.

Os americanos tinham zero experiência com guerra submarina, e o povo não ajudava. Na área de New York as pessoas paravam os carros na praia, com faróis acesos para tentar ver os tais u-boats nazistas. Enquanto isso do outro lado os tais u-boats nazistas viam a silhueta dos navios partindo, devidamente iluminadas pelos faróis.

Com sorte os comboios tinham escola aérea. Por algum tempo. (Crédito: Domínio Público)

Somente com muito trabalho e sangue foi possível vencer os alemães, que estavam em todos os lugares, do Atlântico Norte à Patagônia, afundando navios indiscriminadamente, seja através de encouraçados como o Graf Spee, navios mercantes que eram corsários disfarçados, ou matilhas de submarinos. Sobrou até para o Brasil, nessa brincadeira perdemos 35 navios e 1074 almas.

O combate aos u-boats envolveu técnicas de comboio, como você pode ver no excelente Greyhound, com Tom Hanks. Também eram essenciais as patrulhas aéreas, mas por muito tempo o meio do Atlântico era Terra de Ninguém, os aviões não tinham autonomia para chegar até lá, e os submarinos estavam livres para atacar à noite, às vezes entrando no meio dos comboios, desviando dos navios de escolta.

O saldo final da Batalha do Atlântico foram 47 navios e 783 submarinos nazistas afundados, com 30 mil marinheiros mortos. Os aliados por sua vez perderam 175 navios de guerra, 741 aviões, 3500 navios mercantes e 72200 mortos entre marinheiros civis e militares.

Boa parte desses 3500 navios perdidos foram dos chamados Navios Liberty, um projeto iniciado no final da Década de 1930, aonde os ingleses, prevendo a necessidade de uma ponte de suprimentos com os EUA e outros aliados desenvolveram especificações de um navio barato, simples de ser construído e capaz de grande autonomia.

Apostando no poder industrial dos EUA, o projeto foi apresentado ao Governo, que o incluiu no sistema Lend-Lease, aonde os EUA emprestavam dinheiro a longo prazo para aliados, que por sua vez o usavam para adquirir bens americanos. (34ª Regra de Aquisição: Guerra é bom para os negócios)

SS Jeremiah O'Brien um dos -spoiiler- sobreviventes da Segunda Guerra. (Crédito: Wikimedia Commons / Godsfriendchuck)

Os Navios Liberty tinham capacidade de carga de 11 mil toneladas, e autonomia de 37 mil Km. Com 134 metros de comprimento, não eram nada pequenos. Seu complemento era entre 38 e 62 marinheiros civis e entre 21 e 40 da Guarda Naval Armada, que eram responsáveis pela defesa, que incluía armas leves, antiaéreas e um canhão de 102mm que ajudava a espantar submarinos.

Entre 1941 e 1945 foram construídos 2710 navios Liberty, o que dá uma média de três a cada dois dias. Se você acha isso insano, acredite, é. Os aliados literalmente construíam navios mais rápido do que os nazistas conseguiam afundar.

Entra Constance Tipper

O problema é que não eram apenas os nazistas afundando navios. Vários deles sofreram falhas catastróficas, partindo ao meio durante suas viagens. Análise dos destroços mostrou que o aço havia se tornado quebradiço, e a suspeita era o método novo de construção, usando solda ao invés de rebites. Isso economizava 1/3 da mão-de-obra e do tempo, mas se era perigoso...

O trabalho de Constance Tipper evitou desastres assim.

Um navio Liberty fraturado (Crédito: Domínio Público)

Em 1943 20 navios sofreram fraturas. Em 1944 o número chegou a 120. Os melhores especialistas americanos não conseguiram chegar a uma conclusão, então o problema foi levado dos estaleiros até Londres. Mais precisamente para Constance Fligg Tipper (née Elam).

Nascida em 1894, Constance Tipper era filha de um cirurgião. William Henry Lam tinha idéias bem progressistas para sua época, e Constante frequentou excelentes colégios, e ao invés de se preparar para casar ou estudar prendas domésticas, pediu e foi fazer Engenharia em Cambridge, se formando em 1912.

Dois anos depois ela arrumou um emprego no National Physical Laboratory, o equivalente inglês ao INMETRO. Depois disso foram vários postos como pesquisadora em instituições importantes, até 1929, quando se mudou para Cambridge com o marido de um ano (de casados, não idade) George Tipper. Lá ela continuou como pesquisadora, e em 1939 se tornou uma das primeiras mulheres a ter cargo de professora. Sim, eu sei que é chocante mas mulheres na Inglaterra da 1ª metade do Século XX não eram vistas como material para cargos realmente importantes, como professores universitários.

Assim como o @bqeg Constance Tipper adorava uma pescaria

Constante tinha duas paixões: Metalurgia e... pescaria. (Crédito: Domínio Público)

A Guerra, claro, mudou tudo e Constance Tipper crescia em carreira e importância, tornando-se uma especialista em metalurgia e cristais (de verdade, não os que curam tudo segundo sites new age).

Quando o problema dos navios rachando chegou a Londres, os especialistas locais, muitos a contra-gosto foram repassando a batata-quente e indicando Constance Tipper. Ela por sua vez estudou as amostras, e chegou a desenvolver um teste -que existe até hoje e é chamado Teste de Tipper- para calcular a fragilidade do aço.

Constance Tipper testou e eliminou a hipótese de que o problema estava nas soldas. Ela descobriu que o aço rachava em outras áreas, de forma aparentemente aleatória, e internamente.

Quando comparou os dados, ela viu que navios no Atlântico Sul em média sofriam bem menos acidentes catastróficos, e mais um bom tempo de pesquisa a experimentação acharam o culpado: O aço usado pelos estaleiros americanos se tornava quebradiço em baixas temperaturas, e durante o Inverno os navios Liberty que seguiam rotas no Atlântico Norte ficavam muito, muito frios.

Constance Tipper recomendou que o aço usado fosse alterado, para uma liga menos propensa a sofrer com baixas temperaturas. Nesse ponto marinheiros já estavam se recusando a embarcar nos navios, mas com a solução de Constance, rapidamente implementada eles só tinham que se preocupar com torpedos nazistas.

Not Constance Tipper

Ainda bem que a Skynet não conhecia o trabalho de Constance. (Crédito: Carolco)

Constance Tipper continuou sua carreira depois da Guerra, desbravando espaços para outras mulheres, inclusive tornando-se a primeira mulher professora em período integral da Faculdade de Engenharia de Cambridge, em 1949. Ela também foi a primeira pessoa a usar microscópios eletrônicos de varredura para examinar estruturas metálicas.

Constance recebeu uma série de prêmios, e se aposentou de Cambridge em 1960. Ela viveu até 14 de Dezembro de 1995, quando morreu aos 101 anos. Os navios Liberty tinham uma vida projetada de cinco anos. O último saiu do serviço ativo em 1981. Hoje há cinco ainda existentes, três deles operacionais, inclusive um deles no Alaska, o SS Albert M. Boe, que graças à pesquisa de Constance Tipper provavelmente sorri em sua aposentadoria, cantarolando baixinho “The cold never bothered me anyway...

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