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Foguete New Glenn adiado pro final de 2022

O New Glenn é o revolucionário foguete reutilizável da Blue Origin, infelizmente ele foi adiado mais uma vez, pro final de 2022

26/02/2021 às 18:40

É muito fácil esquecer do New Glenn, quando a SpaceX nos acostumou mal, construindo um foguete em um galpão, testando ao vivo e sendo transparente em cada fase do projeto. Já a Blue Origin é extremamente reservada, por isso o choque é maior quando eles anunciam pedras no meio do caminho. Essa agora foi um verdadeiro Everest.

Bezos e seu elevador glorificado (Crédito: Blue Origin)

A Blue Origin não é uma empresa novata. Ela existe desde Setembro do ano 2000. Jeff Bezos investe pesado em média US$1 bilhão por ano, mas a empresa ficou fora do radar do grande público por muito tempo.

O primeiro veículo deles, o Charon, só foi voar em Março 2005. Usando um motor a jato, era uma plataforma para validar algoritmos de vôo e pouso. Ele voou uma vez, até 96m de altitude.

Em novembro de 2006 a Blue Origin voou seu segundo veículo, o Goddard, que voou também não muito alto. Reza a lenda foram três vôos curtinhos, depois disso o próximo vôo já seria com o New Sheppard, em Agosto 2011.

Não deu muito certo, o que é normal. O próximo vôo só foi acontecer em Outubro de 2012, demonstrando mais uma vez a velocidade glacial com que a Blue Origin se move, fazendo jus a seu lema, “Gradatim Ferociter”, que pode ser traduzido por “Ferozmente, passo a passo”.

O New Sheppard voou de novo em Abril de 2015, mas uma falha hidráulica fez que que o foguete fosse perdido, embora a cápsula tenha descido normalmente de paraquedas.

A Blue Origin vem prometendo vôos regulares de passageiros para o New Sheppard desde essa época, mas ainda estão na fase de testes não-tripulados. Ao mesmo tempo trabalham no New Glenn, um foguete ordens de magnitude mais complexo.

O projeto começou em 2012. Os detalhes foram anunciados em 2016, e eram extremamente ambiciosos. Com 98 metros de comprimento ele é capaz de colocar 45 toneladas em órbita. A Blue Origin está reformando um navio inteiro para servir de área de pouso.

Foguetes de vários tamanhos. (Crédito: TNYT)

O primeiro vôo do New Glenn estava marcado para 2020, mas entre muitos problemas a Blue Origin não conseguiu entregar os motores BE-4, que propeliriam não só o New Glenn, mas o Vulcan, da United Launch Alliance, que muito a contragosto teve que engolir a promessa de receber motores no Inverno de 2021.

Aqui, um ponto importante: Apesar de nunca ter colocado uma mariola em órbita, e só ter voado com o New Sheppard, que é essencialmente um foguete de brinquedo, os motores BE-4 são excelentes, usando metano ao invés de RP-1, aquele querosene espacial altamente refinado e filtrado. Eles foram mais que testados e aprovados com louvor.

O problema não é o motor, é a ausência dele. Pelo visto a Blue Origin não está conseguindo produzir unidades o suficiente para testes e futuros lançamentos.

Mesmo assim com todos os atrasos a Blue Origin conseguiu capitalizar vários contratos de lançamento, inclusive um suculento contrato com a Força Aérea, aonde seriam investidos US$500 milhões na empresa, utilizados para o desenvolvimento do New Glenn e para cobrir o custo de futuros lançamentos. Isso foi em 2018, mas em Dezembro de 2020 a Força Aérea dos EUA cancelou o contrato com a Blue Origin, que já havia recebido US$255.0 milhões, e com a Northrop Grumman, que recebeu US$531.7 milhões.

ULA e SpaceX são as empresas remanescentes no projeto, passando para a Fase 2. Com a Blue Origin fora, acabaram as verbas e os contratos futuros.

Como diria o Galvão Bueno, a Blue Origin sentiu. Botando na ponta do lápis juntando os US$500 milhões do contrato básico mais os lançamentos agregados, a empresa perdeu uma receita de US3 bilhões.

Visto que a receita da Blue Origin é basicamente venda de motores pra um único cliente, eles estão abalados. Prometeram que a ULA receberá os motores contratados ainda este ano, Tory Bruno, CEO da United Launch Aliance está confiante que o Vulcan voará ainda em 2021, mas quanto ao New Glenn...

A Blue Origin comunicou oficialmente que o vôo inaugural, que seria em 2021 foi adiado para o quarto trimestre de 2022. E quando falam trimestre  semestre, é uma espécie de código pra fim do ano, e em “fogueteria”, fim do ano significa só no ano que vem. Portanto é provável que o New Glenn só veja a luz do dia no começo de 2023.

Motor BE-4 sendo movido (Crédito: Blue Origin)

Até lá já teremos Vulcan voando, o Ariane 6 está planejado para um vôo inaugural no segundo trimestre de 2022 e com a velocidade com que a SpaceX vem desenvolvendo a Starship, com certeza já terão chegado em órbita.

O New Glenn é no papel um excelente foguete, mas com a filosofia de trabalho da Blue Origin, levando mais de um ano para resolve coisas simples, eles vão acabar atropelados pelo realidade, e o New Glenn pode virar um elo elefante branco.

Duvida? Lembre-se do Stratolaunch, aquele avião bancado pelo Paul Allen, que lançaria um Falcon 9 do ar, depois a SpaceX desistiu, eles começaram a procurar alternativas, tentaram desenvolver foguetes próprios e descobriram que não há mais mercado naquela escala. Faliram e o avião será usada para testes aeronáuticos.

Stratolaunch. Lindo e desnecessário. (Crédito: Stratolaunch Systems Corp )

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