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Real Sound: o presente de Kenji Eno aos jogadores cegos

Conheça a história de Real Sound: Kaze no Regret, um audiogame criado pelo game designer Kenji Eno e que foi pensado para jogadores cegos

03/03/2021 às 11:50

Os videogames sempre foram uma forma de entretenimento focada na parte visual, com as empresas chegando a se vangloriar da quantidade de polígonos que cada objeto conseguia mostrar na tela. Mesmo assim, isso não impediu que cegos tentassem se divertir com a mídia e foi pensando nessas pessoas que em meados da década de 90 nascia o Real Sound: Kaze no Regret, um dos projetos mais fantásticos da história dos jogos eletrônicos.

Real Sound: Kaze no Regret

Capa do Real Sound: Kaze no Regret (Crédito: Reprodução/Warp Inc.)

Fundada em 1994 por Kenji Eno, a Warp Inc. — hoje From Yellow to Orange (FYTO) — era um estúdio que aos poucos foi chamando a atenção graças aos adventures que produzia, jogos que muitos costumam classificar como “cinema interativo”. Foi de lá que surgiram jogos de suspense que fizeram um certo sucesso na época, como D e Enemy Zero, fazendo com que a desenvolvedora conquistasse alguns fãs.

Entre eles estavam pessoas que não enxergavam e que começaram a enviar cartas a Eno agradecendo pelo trabalho que ele vinha realizando. O motivo para esta admiração estava no fato de que por também ser um compositor, o game designer sempre deu muita atenção ao áudio de suas criações, com a música e os efeitos sonoros chegando a fazer parte da jogabilidade, como foi o caso do Enemy Zero. Naquele jogo tínhamos que enfrentar inimigos invisíveis, com o som feito por eles sendo a única maneira de sabermos onde estavam.

Fascinado pela ideia de pessoas que conseguiam aproveitar suas criações mesmo tendo que lidar com uma limitação tão importante, Kenji Eno começou a pensar em como ele poderia criar um jogo que pudesse ser melhor aproveitado por este tão apaixonado público. A ideia no entanto não era desenvolver algo apenas para os cegos, mas sim uma experiência que pudesse ser aproveitada por todos, conforme ele explicou em uma entrevista para o site 1Up:

Tive a chance de visitar pessoas com deficiências visuais e aprendi que existem pessoas cegas que jogam games de ação. É claro, elas não são capazes de ter a experiência completa e elas meio que tentam se forçar a serem capazes de jogar, mas estão fazendo o esforço. Então pensei que se você desligar o monitor, também estará apenas ouvindo o jogo. Então, após terminar o jogo, você poderá ter uma conversa em pé de igualdade sobre ele com uma pessoa cega. Esta foi a inspiração por trás do Real Sound: Kaze no Regret.

Restava saber como um projeto tão ousado seria financiado e foi aí que entrou outra jogada de mestre de Eno. Para garantir que o título fosse exclusivo do Sega Saturn, o criador pediu que a fabricante doasse mil consoles para pessoas cegas, cada um deles acompanhando uma cópia do jogo que a Warp desenvolveria. Além disso, a embalagem do game ainda contaria com algo incomum, que era uma folha de instruções impressa em braille.

Com o enredo tendo sido escrito por Takamatsu Ogawa, a história que se passava em Tóquio falava principalmente sobre amor e medo, começando com uma dublagem que dizia que “de vez em quando, quando conhece outra pessoa, você tem a sensação de que não é a primeira vez.” Essa era a deixa para acompanharmos Izumi Sakurai, uma estudante que mudava para uma nova escola e lá se aproximava de Hiroshi Nonomura. Os dois logo se apaixonam e decidem fugir, mas o plano não se concretiza e a dupla acaba perdendo contato.

Funcionando como um audiogame, durante a maior parte do tempo resta ao jogador apenas acompanhar a narração, com ele tendo que tomar uma decisão em momentos em que a história pode seguir por mais de um caminho. Nessa hora é possível ouvir um sino que avisa a pessoa que ela precisa escolher como o enredo se desenrolará.

Real Sound: Kaze no Regret chegou ao Sega Saturn em 1997 e recebeu uma versão para o Dreamcast dois anos depois, onde inclusive passou a contar com um modo visual. Porém, ele apenas adicionou algumas imagens estáticas em certos momentos da história e que nada tinham a ver com o que estava sendo contado. Mesmo assim, o jogo conseguiu criar uma complexa atmosfera apenas aproveitando as ótimas dublagens, músicas e efeitos sonoros que se encaixavam de maneira magistral.

Embora o título nunca tenha se mostrado um grande sucesso comercial, uma continuação chamada Kiri no Orgel e voltada para o terror chegou a entrar em produção, inclusive com propagandas chegando a ser publicadas em revistas japonesas, mas devido a problemas com tecnologia de compressão de áudio, ela nunca foi finalizada. Também existiam planos para um terceiro capítulo, este chamado Spy Lunch e adotando um tom cômico, mas seu desenvolvimento não passou dos estágios iniciais.

Mesmo assim, Real Sound: Kaze no Regret tornou-se o jogo para cegos mais popular de todos os tempos, chegando a ter uma das vertentes da sua história sendo transmitida através da rádio Tokyo FM em 1997.

A prematura partida de um gênio

Kenji Eno (Crédito: Reprodução/Joi Ito/Flicker)

Nascido em 1970 no município de Arakawa, Kenji Eno desde cedo mostrou um enorme interesse por duas coisas: música e games. Isso o levou a trabalhar na empresa chamada Interlink, onde esteve diretamente envolvido na criação de jogos, mas a falta de liberdade para tocar seus projetos era algo que o deixava muito incomodado. Percebendo que teria que se livrar das amarras impostas por ser um mero funcionário, em 1989 ele juntou algumas economias e fundou a EIM (Entertainment Imagination and Magnificence).

Contudo, aquele que deveria ser o salto que deveria lhe garantir autonomia não funcionou como imaginava. Para garantir que teria dinheiro para pagar as contas, ele fechou contratos para criar continuações ou spin-offs para séries famosas, mas assim, Eno precisava continuar seguindo as imposições feitas por aqueles que controlavam tais franquias.

Aquela situação acabou prejudicando muito a saúde mental de Kenji Eno, que conseguiu se dedicar ao estúdio até 1992, quando encerrou suas atividades e passou a atuar como consultor para uma revista de automóveis. O interesse por voltar a trabalhar com games só retornaria dois anos mais tarde, após o game designer visitar a Macworld. Ele então decidiu fundar a Warp, estúdio que contava com a participação de, entre outros, um jovem animador chamado Fumito Ueda.

Produzindo títulos principalmente para o 3DO, os projetos chamavam a atenção não somente por seus estilos pouco convencionais, mas também por acompanharem brindes no mínimo estranhos. Por exemplo, quem comprasse o Short Warp ganharia algumas camisinhas (?!), enquanto cada cópia do Real Sound: Kaze no Regret trazia consigo um saco cheio de sementes de erva.

Sua carreira também ficou marcada por atitudes polêmicas. Quando estava desenvolvendo o jogo D, Eno queria chocar o público e uma das maneiras de fazer isso seria incluindo uma cena de canibalismo. Sabendo que a censura não a aprovaria, ele entregou para a avaliação uma versão sem este trecho e após o título ser aprovado, trocou os discos e enviou para publicação aquilo que tinha idealizado.

Outra situação surgiu como resposta à maneira como a Sony estava menosprezando o lançamento do Enemy Zero, tendo diminuído para  um terço a produção de cópias. Inicialmente o jogo seria exclusivo para o videogame da empresa, mas em 1996 Eno participou de uma conferência da Sony onde mostrou o logo do PlayStation se transformando no do Saturn. Ou seja, ele conseguiu anunciar o título para o console da Sega num evento da concorrência! Pouco depois, durante a Tokyo Game Show, Eno divulgou um vídeo onde funcionários da sua empresa dançavam e cantavam enquanto jogavam no chão pelúcias do Muumuu, mascote que a Sony havia criado para o jogo Jumping Flash!.

O problema é que fechar aquelas portas acabou não se mostrando uma estratégia acertada, com as vendas dos quatro jogos que a Warp criou para o Saturn passando longe de serem boas. Então, logo após eles lançarem o D2, o estúdio teve que fechar as portas e as empresas que Eno criou nos anos seguintes — a Superwarp e a From Yellow to Orange — nunca repetiram o sucesso dos anos de glória do game designer.

Propaganda do Real Sound: Kaze no Regret (Crédito: Reprodução/@retro_ko/Twitter)

Mesmo assim, uma mente tão brilhante quanto a de Kenji Eno poderia dar vida a uma nova obra de arte a qualquer momento, mas no dia 20 de fevereiro de 2013 a indústria dos games foi abalada com a terrível notícia de que ele havia morrido. Vítima de uma insuficiência cardíaca decorrida da hipertensão, o japonês nos deixou com apenas 42 anos.

O que ficou foi a dedicação de Eno aos games, ao seu público e o respeito por aqueles que acreditaram nas suas ideias. Em certa ocasião, o game designer foi questionado sobre porque não relançava o Real Sound: Kaze no Regret, afinal muitas pessoas adoravam o game, quando ele explicou que “o contrato provavelmente não é mais válido, mas a razão para eu não ter feito nada com esse jogo é que fiz uma promessa à Sega naquela época e ele é exclusivo por causa disso.”

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