Meio Bit » Ciência » Cientistas usam tecnologia de CSI de TV para desdobrar carta medieval

Cientistas usam tecnologia de CSI de TV para desdobrar carta medieval

Tecnologia CSI é algo que a gente imagina como pura mentira, mas uma universidade em Londres está fazendo mágica digna de TV para ler cartas

12/03/2021 às 0:34

Quando CSI se tornou um seriado extremamente popular as faculdades se encheram de gente querendo fazer curso de Ciências Forenses, mas na prática aquela tecnologia de CSI toda era puro exagero, e na maior parte das vezes, ficção. Exceto que às vezes a Ciência supera a TV.

Holly Jackson, uma das pesquisadoras do projeto estuda uma carta da coleção (Crédito: Unlocking History Research Group archive)

Todo mundo que trabalha com TI adora a clássica cena de CSI aonde a personagem diz que vai “criar uma GUI em Visual Basic pra rastrear um endereço IP”, mas a maioria das pisadas de bola em CSI são basicamente exagero.

Os exames de DNA saem em minutos, nunca há qualquer contaminação cruzada e acima de tudo, nenhuma fila. Em uma cena especialmente cruel de Lei e Ordem um dos detetives reclama de uma chefatura de polícia de uma cidade pequena, por não terem os resultados de um exame de estupro.

O xerife explica que eles não têm laboratório forense, os kits de estupro são enviados para o laboratório estadual de NY e há 10 mil casos na fila, o tempo de espera por um resultado é de mais de dois anos. Esses dados são reais.

Claro, as séries tendem a pecar no sentido oposto, com equipamentos que detectam exatamente as substâncias necessárias para identificar o suspeito, e mais ninguém, e botequins decantes de subúrbio com câmeras de segurança gravando em 8K HDR 120fps, mas se a câmera de segurança for uma batata, tudo bem, a tecnologia CSI consegue transformar o vídeo em algo incrível.

Isso foi deliciosamente satirizado em várias séries, incluindo na criminosamente pouco conhecida NTSF:SD:SUV: - e sim, a líder é a Kate Mulgrew, a Capitã Janeway.

Sim, é a Janeway. NTSF:SD:SUV: é o seriado mais retardado que você vai achar por aí e vale cada segundo. (Crédito: Divulgação)

Essa percepção de que tecnologia CSI consegue fazer coisas impossíveis não está 100% errada; hoje em dia nosso maior limitador é nossa imaginação. Com Inteligência Artificial, Machine Learning e algoritmos criativos frutos de maratonas de programação e consumo industrial de café, pensamos fora de caixa e criamos conceitos incríveis, como o criado pela Universidade Queen Mary, de Londres.

A técnica está sendo usada para analisar a chamada Coleção Brienne, um baú com mais de 3100 cartas do Século XVII que nunca foram entregues, e foram encontradas entre as posses de um carteiro chamado Simon de Brienne, que obviamente era do Correio Brasileiro.

O Baú que não é do Raul nem do Sílvio. (Crédito: Unlocking History Research Group archive)

A coleção foi doada ao Museu Postal de Haia em 1926, mas nem todas puderam ser abertas. 577 cartas estão seladas usando várias técnicas, de lacres de cera a dobraduras elaboradas, e quando se fala de papel com centenas de anos de idade, ele tende a se desfazer quando você tenta desdobrar uma carta colada por tanto tempo.

E, claro, as cartas lacradas são as mais interessantes, com os maiores segredos, fofocas e notícias do cotidiano. A Coleção Brienne como um todo é uma verdadeira cápsula no tempo do dia-a-dia de pessoas comuns de 600 anos atrás, graças a um carteiro preguiçoso que preferia esconder cartas num baú a sair pra fazer sua rota de entrega.

Scan de cartas dobradas. (Crédito: Unlocking History Research Group archive)

Pensando nas cartas mais suculentas uma equipe da Universidade Queen Mary teve a idéia de adaptar equipamentos digitais de raio-x dental, sensível o bastante para criar camadas extremamente finas de material, e escrever um algoritmo que deduzisse e simulasse a dobradura do papel.

Nem o Plim-Plim faria melhor. (Crédito: UNLOCKING HISTORY RESEARCH GROUP ARCHIVE)

Com isso cada camada da carta era escaneada, identificada e montada, e os cientistas puderam ler sobre parentes discutindo discussões de heranças, mulheres reclamando de maridos infiéis, dívidas sendo cobradas, famílias conversando com parentes distantes, em holandês, inglês, francês, italiano, latim e espanhol.

Levarão anos para processar todas as cartas, mas agora esse algoritmo servirá para muitos outros casos, com a vantagem de não ser uma potencial invasão de privacidade, afinal de contas hoje em dia ninguém mais manda cartas.

Fontes:

Leia mais sobre: , , .

relacionados


Comentários