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As coisas burras que a moça do TikTok não entende

Um vídeo do TikTok está fazendo muita gente xingar uma moça por fazer perguntas "burras", mas será xingar o melhor meio de divulgar ciência?

12/03/2021 às 14:51

As Interwebs ontem pegaram fogo com um vídeo do TikTok aonde uma moça faz várias perguntas “burras”, com um ar meio pretensioso, parecendo muito com uma boa isca para incautos, e funcionou. Um monte de gente está xingando a menina, e o MeioBit não poderia ficar fora dessa onda.

Essa é a vibe. Neil teve oportunidade de devorar o cérebro da Katy Perry, mas achou melhor não.(Crédito: Startalk)

Mas calma, não vamos tirar o couro da moça, muito pelo contrário. Esse, aliás é o grande problema da divulgação científica em geral. Muita gente se veste de arrogância, sobe na Torre de Marfim da Academia e acha que está alimentando os famintos com suas pérolas de sabedoria, e se eles não as aceitam com gratidão, são camponeses ignorantes.

Em um xkcd relevante (e sempre tem um xkcd relevante) o autor comenta que é muito mais legal contar um fato “que todo mundo sabe” pra alguém que o desconhece, do que zoar o sujeito pelo desconhecimento.

Eu mesmo adoro quando alguém usa a expressão “Deus não dá asa a cobra”. É uma oportunidade pra responder “Com Darwin, nem precisa” e mostrar uma espécie de cobra da Indonésia que aprendeu a subir em árvores, saltar de galhos altos, achatar o corpo como uma fita e colear pelo ar, direcionando o planeio.

Isso mesmo, cobras que voam, ou pelo menos caem com estilo. Diz que não é algo super-legal de descobrir que existe?

Outro problema é que com o tempo quem faz divulgação científica acaba evoluindo junto com o público, assume que vários conceitos que já explicou em textos anteriores foram assimilados, e quando percebe, deixou muita gente no vácuo. A alternativa é sempre explicar, mesmo que rapidamente os conceitos. Isso infelizmente gera comentários negativos de leitores antigos.

Aqui entra uma regra criada pelo Stan Lee: Todo gibi é o primeiro gibi de alguém, então ele sempre colocava um resumo do personagem na primeira página. Tal qual, todo texto é o primeiro texto de divulgação científica de alguém, e se a pessoa chegou até ali, ela tem curiosidade, quer aprender. Chamá-la de burra, jogar uma tonelada de links de referência, não é produtivo. Não é legal.

Algumas vezes é uma página inteira de apresentação. (Crédito: Marvel Comics)

As dúvidas da tal moça do vídeo são bem básicas, mas adivinhe: Ninguém nasceu sabendo e ninguém construiu o LHC do nada. Newton dizia que só enxergou mais longe por estar apoiado no ombro de gigantes. Eu vejo o contrário. A Ciência está apoiada nos ombros de quem não sabe nada, mas tem curiosidade e tenta aprender. Carl Sagan diz que toda criança nasce cientista, é a sociedade que tanto bate, tanto doutrina que extirpa a curiosidade delas.

Crianças querem saber como o mundo funciona, crianças adoram fazer perguntas e receber respostas. Explicar essas idéias para elas é o verdadeiro desafio, por isso gosto tanto da série da Wired aonde cientistas explicam conceitos científicos em vários graus de dificuldade, começando com crianças.

O truque é fazer isso de forma não-condescendente, sem passar a mão na cabeça nem desdenhar da pessoa. Então, moça do TikTok, vamos ver se eu consigo.

O vídeo:

1 – Falta de Oxigênio

“como uma pessoa morre de falta de Oxigênio se tem Oxigênio no ar, é só pegar?”

Se sangue tem um monte de células chamadas hemácias, que transportam o oxigênio e liberam gás carbônico, imagine um garçom que pega uma garrafa d’água na geladeira, leva até sua mesa, recolhe a garrafa vazia, joga fora e vai pegar uma nova. Agora imagine que você passou SuperBonder na garrafa. O garçom não consegue jogar a antiga fora, e mesmo com a geladeira cheia, não consegue pegar mais água para você. Envenenamento por Monóxido de Carbono funciona assim. Você tem Oxigênio no ar e nos pulmões mas não tem quem leve até as células.

2 – Bluetooth

“A coisa flutua de um lugar pro outro? Como, se eu não estou vendo?”

Do mesmo jeito que você não vê o carteiro, mas sua correspondência aparece na portaria todo dia. Bluetooth é um protocolo de comunicação, um conjunto pré-estabelecido de regras que determina como dois dispositivos irão trocar dados. Eles usam ondas de rádio, do mesmo jeito que WIFI, televisão e a rede de telefonia celular. Ondas de rádio são só um tipo de luz que a gente não enxerga, aliás a gente só enxerga uma fração do chamado espectro eletromagnético.

Tudo que você consegue enxergar está restrito a esta faixa colorida. (crédito: wikipedia)

Imagine um monte de lâmpadas piscando em alta velocidade e em intensidades diferentes. É assim que você veria Bluetooth. E quer fazer um experimento legal, jovem cientista? O controle-remoto da sua TV usa luz invisível (no caso infravermelho) para se comunicar. Quer uma prova? Pegue seu celular, ligue a câmera, aponte o controle-remoto para ela e aperte algum botão. Sim, câmeras costumam ser sensíveis a luz infravermelha.

3 – Disco de Vinil

“Como o mesmo pedaço de plástico, passando pela mesma agulha faz sons diferentes?”

Em resposta "como é o disco?" (Crédito: Wikipedia)

Faça o experimento: imprima uma página d’Os Lusíadas em uma folha, e a letra de Dako É bom, de Tati Quebra-Barraco, em outra. Cole num poste, lado a lado. Se afaste 20 metros. Consegue perceber a diferença? Não, né. São duas folhas de papel, é o máximo que dá pra definir dessa distância.

Imagem de microscopia eletrônica mostrando agulha em disco de vinil (Crédito: Fact Magazine)

De longe, ou vendo só pela internet, como a maioria dos Millenials os experimenta, discos de vinil parecem idênticos, assim como CDs, e sendo honesto fora a separação das faixas, mesmo ao vivo não há muito o que ver, exceto se você usar um microscópio. Aí verá que cada trilha é um lindo e complexo terreno de vales e picos, que quando percorridos pela agulha fazem o pequeno diamante em sua ponta vibrar. Essa vibração é amplificada e temos... música.

4 – Porcentagem do Oceano

“Falam que a gente só conhece 30% do oceano, como você sabe que é 30% se não conhece tudo?”

Essa pergunta nem deveria ser classificada pela moça como “burra”. E é verdade, sabemos mais sobre a superfície de Marte do que sobre o fundo dos oceanos, e mais gente andou na Lua do que foi ao fundo da Fossa das Marianas. Quanto à porcentagem, é simples: Sabemos a área ocupada pelos oceanos e continentes na Terra. São 361.9 milhões de quilômetros quadrados, de um total do planeta de 510.1 milhões de quilômetros quadrados.

Planeta Terra com os oceanos e continentes invertidos (Crédito: Reprodução Internet)

Desse total eu devo dizer, moça do TikTok, você está errada. Nós exploramos menos de VINTE porcento dos oceanos. Esse número é fácil e entender, é só subtrair da área total todas as áreas que já mapeamos ou sondamos. É como um hotel com 100 quartos, e você só visitou 20. Você tem perfeita noção do tamanho do hotel, da localização dos quartos, mas não faz idéia do que há neles.

5 -Evolução do Macaco

“Se o Homem veio do macaco por que ainda tem macaco no mundo?”

Essa é a mais fácil de explicar e entender. A simplificação “o Homem veio do macaco” é falada desde os tempos de Darwin, com esta famosa caricatura.

Darwin foi MUITO zoado pela grande mídia de seu tempo. (Crédito: Wikimedia commons)

Mesmo hoje em dia até quem se diga divulgador científico, como o tal Marcelo Gleyser repete essa bobagem. A verdade, moça do TikTok, é que nenhum cientista disse que o Homem veio do macaco.

Na verdade humanos e macacos vieram de um ancestral em comum. Mesmo entre humanos e bonobos, aqueles Chimpanzés do Bem, o último ancestral em comum viveu 6.7 milhões de anos atrás.

Usando o excelente site Time Tree,  descobrimos que o Homem e o Mico Leão Dourado descendem de um ancestral em comum que viveu 43.2 milhões de anos atrás. Esse ancestral não era um Mico, nem um Homem.

Quanto a ainda haver macacos hoje, é pelo mesmo motivo que tubarões são tubarões desde mais de cem milhões de anos atrás. Ele é perfeitamente adaptado a seu ambiente. Ele é o rei da cocada preta, não dá pra melhorar um tubarão, talvez só com lasers.

Divisão das espécies, a escala vertical é em milhões de anos. (Crédito: By Dbachmann - Own work, CC BY-SA 4.0)

Não há pressão ambiental para que o tubarão mude. Nossos ancestrais tiveram a sorte de desenvolver inteligência, o que aumentou nossa capacidade de sobrevivência, e foi nos distanciando de nossos ancestrais. Outras espécies, como as que deram origem aos gorilas e chimpanzés, deram a sorte de viver em ambientes mais benignos, com comida abundante, aonde inteligência não é uma grande vantagem.

Convenhamos, em um ambiente com comida abundante um macaco que parece um blogueiro não é tão atraente para as fêmeas quanto um que parece o Keanu Reeves e consegue caçar iguanas apetitosas para ela e os filhotes.

Conclusão

Carl Sagan dizia que a Ciência é uma vela solitária na escuridão. O que ele não contava é que estava chovendo, no meio de um furacão, em Atlântida. Curiosidade é mal-vista, ceticismo é visto como intolerância, e nada dogmático deve ser questionado. Crianças questionadoras são impertinentes e desagradáveis.

Nossa única saída dessa enorme encrenca em que nos encontramos é estimular a curiosidade, é celebrar quem tem coragem de fazer perguntas “burras”, bait ou não. Toda pergunta é válida, todo desejo de aprender deve ser recompensado e ninguém deve ser desrespeitado ou menosprezado por não conhecer algo.

É uma oportunidade única ampliar os horizontes de alguém, e todos são bem-vindos a contribuir, com respostas ou perguntas.

Menos terraplanistas, esses são retardados mesmo.

 

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