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Torpedo juice, ou quando a vontade de beber é maior que o bom senso

A necessidade por birita é a mãe da invenção: conheça a origem do torpedo juice, uma das bebidas mais insanas da História

32 semanas atrás

Em tempos de guerra, racionamento é uma das medidas mais básicas. Provisões precisam ser garantidas às tropas, a produção de bens e alimentos é toda direcionada à máquina de combate, e isso inclui também a boa e velha birita. E como a necessidade por água que passarinho não bebe é a mãe da invenção, surgiram coisas malucas e totalmente imprudentes, como o insano torpedo juice.

O torpedo juice foi uma das invenções mais malucas da 2ª Guerra (Imagem: acervo internet)

O torpedo juice foi uma das invenções mais malucas da 2ª Guerra (Imagem: acervo internet)

O racionamento nos Estados Unidos começou imediatamente após a declaração de guerra ao Japão em 8 de dezembro de 1941, um dia depois do ataque a Pearl Harbor. Por via de regra, a produção de bens, serviços e alimentos é direcionada à manutenção da máquina de guerra, onde até a produção de carros comerciais foi proibida, as montadoras foram direcionadas a fabricar veículos militares.

Nota: a Constituição dos EUA proíbe o país de ser o beligerante original, ele só pode entrar em uma guerra quando atacado primeiro (há controvérsias, vide o Vietnã, onde ele "tecnicamente" não participou), o que lhe impediu de incluir Alemanha e Itália. No entanto, Hitler e Mussolini tomaram as dores do imperador Hirohito, e declararam guerra aos EUA em resposta.

Alimentos de primeira necessidade, como açúcar, café (este graças aos U-Boats afundando navios mercantes brasileiros), queijos, manteiga, margarina, leite, geleias, frutas desidratadas, gordura animal, tudo foi racionado. Famílias recebiam cadernos onde a distribuição era controlada, através de carimbos, para que ninguém pegasse mais do que podia.

Desnecessário dizer que durante a Segunda Guerra Mundial, a produção de bebidas alcóolicas e sua distribuição à população nos EUA foi duramente controlada. Primeiro, 15% da produção de cervejarias e 30% das indústrias de cigarros foi direcionada às tropas, reduzindo a oferta de fermentados. Segundo, todas as destilarias do país foram ordenadas a produzir etanol, para uso principalmente em torpedos, fazendo bebidas como uísque, rum e outras sumirem. O que sobrou, obviamente, foi racionado.

Claro que uma população sem birita não é algo muito agradável, e comerciantes intensificaram a importação do Canadá, desta vez legalmente, diferente do que ocorreu durante a Lei Seca. Mas embora as tropas tivessem acesso a bebidas (de forma controlada), nem todo mundo estava contente só com cerveja e cigarros.

As tropas da Marinha, por exemplo, descobriram que havia um grande estoque de álcool disponível, dentro dos torpedos equipados em submarinos e contratorpedeiros, que a princípio funcionavam com um motor a vapor, movido pela queima do combustível.

Apesar de estarmos falando de álcool industrial, algo bem mais forte do que o vendido para consumo, isso não impediu alguns malucos de drenarem o líquido e misturarem com acompanhamentos diversos, em um drinque batizado apropriadamente de "torpedo juice", ou suco de torpedo em português.

A receita "tradicional" leva duas partes de etanol industrial e três de suco de abacaxi, para os interessados.

O Pica-Pau não conta, ele serviu combústivel de foguetes puro, ou "líquido para isqueiro" como ficou na tradução (Crédito: Reprodução/NBCUniversal)

O Pica-Pau não conta, ele serviu "líquido para isqueiro" puro, como ficou na tradução (Crédito: Reprodução/NBCUniversal)

Claro, o torpedo juice se tornou um sucesso entre os marinheiros, mesmo sendo uma mistura extremamente forte, capaz de causar ressacas violentas, na melhor das hipóteses. E obviamente que o Almirantado não gostou da brincadeira nem um pouco.

Para evitar que os marinheiros literalmente bebessem o combustível dos torpedos, vários aditivos foram acrescentados à fórmula, todos ou venenosos ou causadores de extremos efeitos colaterais ao serem ingeridos.

Inicialmente, o etanol dos torpedos recebeu 10% de uma mistura chamada "pink lady", que continha coisas como tinta e metanol, algo que se ingerido pode causar cegueira. Só que como cabeça vazia é a oficina do Diabo, as tropas desenvolviam métodos de filtragem a cada nova adição no combustível por parte do alto comando, a fim de manter o "torpedo juice" adequadamente consumível.

No caso do metanol, relatos diziam que ele podia ser removido da mistura (ou pelo menos a maior parte dele) com uma filtragem usando pão prensado.

A seguir, o Almirantado adicionou ao combustível óleo de cróton, um esfoliante que pode causar diarreia, hemorragia interna e dores violentas, se alguém for louco ou desesperado o bastante para ingeri-lo. Novamente, a engenhosidade dos marinheiros driblou a modificação com destilarias caseiras, passando o etanol batizado para remover o óleo, visto que o álcool evaporava primeiro.

Marinheiros em momento recreativo (Crédito: domínio público)

Marinheiros em momento recreativo (Crédito: domínio público)

A farra dos marinheiros boêmios (pleonasmo) com parafusos a menos só acabou com a introdução do torpedo Mark 18, que era elétrico e não dependia de tanto etanol, mesmo que até hoje as divisões de manutenção e comunicações da Marinha o usem para limpeza.

Esse tipo de maluquice nem é exclusividade dos americanos: tanto Wernher Von Braun quanto Sergei Korolev tiveram muitos problemas em suas respectivas fábricas de foguetes, o primeiro com o V-2, o segundo com a réplica R-1, pois as tropas retiravam o etanol também para beber. No caso de Korolev, esse problema foi resolvido com o sucessor R-2, que trocou o combustível original por metanol puro. Russos, afinal, não sabem brincar.

Mesmo hoje há casos de pessoas, não só militares, bebendo o combustível de fogareiros portáteis em lata, usados para o preparo de refeições em qualquer lugar e de forma rápida. Mesmo ele sendo álcool desnaturado (com aditivos venenosos) desde o início, uma mistura de etanol, metanol, tinta e gel reagente.

"Sterno" era o nome usado para um drinque popular no Vietnã, tirado direto do fogareiro em lata (Crédito: Divulgação/Sterno Products)

"Sterno" era o nome usado para um drinque popular no Vietnã, tirado direto do fogareiro em lata (Crédito: Divulgação/Sterno Products)

Com ou sem racionamento, sempre haverá alguém com a ideia de conseguir encher a cara seja lá como, preferencialmente por uma quantia modesta, independente da bebida fazer mal ou muito mal. Afinal, se fosse para ficar bem, bebuns tomariam remédio.

Fonte: War on the Rocks, EagleSpeak

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