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Volta de Stallman à FSF revolta representantes do software livre

Richard Stallman ficou 18 meses fora da FSF por declarações sobre abuso sexual; carta aberta exige saída de todos os diretores da entidade

25/03/2021 às 9:30

Richard Stallman, o controverso fundador da Free Software Foundation (FSF) e defensor do software livre está de volta à organização, após ficar afastado por 18 meses por conta de diversas declarações desastradas e inapropriadas. E claro, muita gente no meio não gostou nada disso.

Em uma carta aberta assinada por mais de 2 mil pessoas até o momento da publicação deste post, entre eles representantes de peso dentro da comunidade, exigem não só o afastamento definitivo de Stallman de qualquer posição de liderança no meio, como a completa dissolução do corpo de diretores da FSF, por permitirem seu retorno.

Richard Stallman, fundador da Free Software Foundation (Crédito: Michael Debets/Pacific Press/Lightrocket/Getty Images)

Richard Stallman, fundador da Free Software Foundation (Crédito: Michael Debets/Pacific Press/Lightrocket/Getty Images)

Que Stallman é uma criatura insuportável e um nojento (NSFL) não é novidade alguma, e mesmo suas declarações e atitudes ao longo dos anos dentro do escopo do software livre são vistas por muita gente no meio como impraticáveis de tão extremas. Suas declarações passadas sobre religião e política também não ficam atrás.

Sua imagem no entanto ruiu completamente em 2018, quando resolveu se meter no escândalo envolvendo Jeffrey Epstein e o MIT, onde na época Stallman ocupava a cadeira de pesquisador convidado. Na ocasião, ele saiu em defesa de Marvin Minsky (1927-2016), um dos co-fundadores do MIT CSAIL, junto com John McCarthy (1927-2011, criador da linhagem lisp e que cunhou o termo "Inteligência Artificial").

Durante as investigações do caso Epstein, Virginia Giuffre acusou o prof. Minsky de abusar sexualmente dela em 2001, na época ela tinha 17 anos, após ser aliciada para fazer parte da rede de prostituição que o falecido bilionário mantinha. Quando o caso veio à tona, e por conta de Minsky não poder se defender pois tinha falecido 2 anos antes, Stallman disse que Guiffre poderia ter se oferecido a Minsky, e diminuiu o fato dela ser menor de idade quando o abuso ocorreu.

Vale lembrar que Stallman coleciona declarações controversas desde muito tempo:

  • Em 2007, ele disse em entrevista "não ter conhecimento" de nenhuma mulher que tenha se voluntariado para trabalhar no Emacs ou no GNU Compiler Collection (GCC), sendo que várias participaram de ambos projetos, incluindo Sandra Loosemore, autora do GNU Library Reference Manual, em que Stallman é listado como co-autor;
  • Em 2011, minimizou a pornografia infantil;
  • Em 2016, se referiu a pessoas com Síndrome de Down como "animais de estimação".

Eu posso fazer isso o dia todo, mas você já pegou a ideia e de qualquer forma, o caso envolvendo a defesa de Minsky no meio do caso Epstein foi a gota d'água. Stallman acabou se desligando do MIT e foi afastado da FSF, o que muitos acreditaram que fosse permanente.

Isso não só não aconteceu, como Stallman voltou dizendo que "algumas pessoas ficarão desapontadas com isso, mas eu não pretendo renunciar (ao posto de diretor) uma segunda vez", o que foi entendido como uma provocação não só individual, como também do corpo de diretores da FSF à comunidade do software livre como um todo.

O retorno de Stallman ao comando da FSF pegou mal não só entre os usuários, mas também entre muita gente graúda no meio, o que levou a uma elaboração de uma carta aberta bem dura, exigindo que o desenvolvedor seja completamente afastado de qualquer posição de liderança dentro da comunidade, algo como prender Stallman em um gulag virtual e jogar a chave fora.

Não obstante, o documento exige também a dissolução do atual corpo de diretores da Free Software Foundation, por serem coniventes com Stallman e não reconhecerem seu passado egresso, por suas declarações demonstrarem seu comportamento "misógino, capacitista (preconceituoso contra pessoas com deficiências) e transfóbico, entre outras acusações graves de impropriedade", tendo sido classificado como "uma força perigosa" na comunidade por tempo demais.

Entre os que assinaram a carta, destacam-se:

  • Neil McGovern, diretor executivo da GNOME Foundation e ex-líder do projeto Debian;
  • Deb Nicholson, gerente geral da Open Source Initiative e fundadora da Seattle GNU/Linux Conference (SeaGL);
  • Faidon Liambotis, diretor da Open Source Initiative;
  • Matthew Garrett, ex-membro do corpo de diretores da FSF;
  • Sete dos oito membros do corpo de diretores da Fundação X.org;
  • Joan Touzet, membro do Comitê de Gerência de Projetos do Apache CouchDB e ex-diretora da Apache Software Foundation;
  • Elana Hashman, membro do Comitê Técnico Debian, Open Source Initiative e projeto Kubernetes;
  • Molly de Blanc, membro do Projeto Debian e Fundação GNOME;
  • Julia Reda, vice-presidente do Greens-European Free Alliance e ex-membro do Partido Pirata da Alemanha;
  • Eric Schultz, conselheiro político e ex-vice-Secretário de Imprensa da Casa Branca, durante o governo de Barack Obama (2014-2017);
  • Katherine Maher, CEO e diretora executiva da Wikimedia Foundation, entre outros.

Entre organizações que pediram a saída de Stallman e o atual grupo de diretores da FSF, podemos citar GNOME Foundation, X.org, Mozilla, OBS Project e Tor Project, entre outras.

Até o momento, as organizações e indivíduos de destaque no mundo do software livre não anunciaram nenhum tipo de represálias ao retorno de Stallman a uma posição de comando na comunidade, mas é evidente que esta situação pode escalar para uma série de desenvolvimentos diversos, caso a fundação não tome nenhuma medida num futuro próximo.

Até o momento Stallman e a Free Software Foundation não se pronunciaram sobre a carta aberta, ou as repercussões negativas quanto ao retorno do desenvolvedor à posição que ocupava na instituição.

Fonte: GitHub, Ars Technica

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