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Vendas de fitas cassete explodiram durante a pandemia. Por quê?

Mesmo sendo uma mídia defasada, as fitas cassete continuam populares, e isso envolve mais do que a qualidade sonora

29 semanas atrás

As fitas cassete vivem um momento de renascença desde a segunda metade dos anos 2010, quando a procura pela mídia começou a subir devido diversos fatores, incluindo um impulso causado pelo saudosismo, explorado em outras mídias. Ainda assim o mercado é pequeno, mesmo comparado com a venda de discos de vinil, que já é minúsculo em tempos de streaming.

Só que a pandemia da COVID-19 chegou e prejudicou muitos artistas, que já não ganham tanto dinheiro assim com Spotify e cia, por ficarem impossibilitados de fazerem shows. Assim, uma das opções que muitos vêm adotando é a venda de itens físicos mais acessíveis, entre eles, fitas cassete.

Momentos antes do desastre (Crédito: sapto7/Pixabay) / fitas cassete

Momentos antes do desastre (Crédito: sapto7/Pixabay)

Sendo bem sincero, as fitas cassete (ou cassette, ou K7, a gosto do freguês) nunca foram uma mídia confiável, mesmo no seu auge, com 83 milhões de unidades enviadas às lojas em 1989, só no Reino Unido. qualquer um com mais de 35 anos, eu incluso, tem uma história de terror para contar sobre um tape deck, micro system, boombox ou walkman mastigando sua fita preferida. O mesmo valia para quem usava a mídia em computadores.

Por outro lado, as fitinhas eram extremamente versáteis e (importante) mais baratas que um disco de vinil. Investir nos bolachões, mesmo no passado, envolvia gastar uma boa grana com pick-ups, agulhas de qualidade e etc, fora a manutenção de manter os vinis sempre em bom estado. A qualidade sonora também era bem superior.

Por outro lado as fitas eram compactas, e com a chegada do venerável Sony Walkman TPS-L2 em 1979, tudo mudou. Você podia levar seu álbum favorito para qualquer lugar e não mais depender da programação das emissoras de rádio, de uma forma bem mais discreta do que andar com uma boombox a tiracolo.

Além disso, as fitas cassete permitiam algo que o vinil não tinha: personalizar sua trilha sonora. Qualquer boombox ou micro system permitia gravar o áudio ambiente com mídias virgens, e criar suas playlists originais para ouvir quando e onde quisesse, ou presentear aquele(a) pretendente da escola com uma seleção de músicas românticas, de Bon Jovi a Skid Row, Whitesnake, Sade, Roxette e etc.

A chegada do CD não afetou tanto a indústria das fitas cassete quando se imaginava, mesmo com o lançamento do Discman, por este ser bem menos confiável no dia a dia. quem usou lembra do "pula pula" de faixas durante uma caminhada, corrida ou pedalada, e os decks demoraram a ser incluídos nos carros por serem bem mais caros que os toca-fitas.

As fitinhas só caíram em desuso mesmo quando o MP3 se estabeleceu como um formato de mídia acessível, em aparelhos portáteis como o iPod e concorrentes, e posteriormente celulares, mesmo antes do iPhone e Android. Ao invés de 12 músicas, era possível carregar mais de 100 de uma vez para qualquer lugar.

Os serviços de streaming só pegaram tração quando a internet móvel se tornou estável e barata o bastante para permitir qualquer um ficar conectado 24/7 on the go, mas as reclamações sobre o formato digital sobre o analógico, desde o CD permaneceram as mesmas. Este é um dos argumentos que os fãs do vinil usam, com razão.

O mesmo não se aplicaria à qualidade de áudio de uma fita cassete, que sempre foi aquém da dos LPs, mas mesmo assim, as coisas a favor da velha fita magnética portátil começaram a melhorar a partir de 2014.

Um dos culpados foi James Gunn.

Os dois Guardiões da Galáxia ajudaram a impulsionar o revival das fitas cassete (Crédito: Marvel Studios/Disney)

Os dois Guardiões da Galáxia ajudaram a impulsionar o revival das fitas cassete (Crédito: Marvel Studios/Disney)

A trilha sonora do primeiro Guardiões da Galáxia não é só excelente, com músicas escolhidas a dedo pelo diretor, como ela é também o "sexto integrante" do grupo, desempenhando papel crucial na narrativa.

No filme e em sua sequência de 2017, Peter Quill/Senhor das Estrelas (Chris Pratt) usa o mesmo icônico Sony Walkman TPS-L2 para ouvir suas fitas, e em ambas ocasiões a Disney lançou as trilhas também em K7.

Outras gravadoras e artistas independentes começaram a identificar um fenômeno parecido com o que impulsionou a venda dos discos de vinil, mas diferente deste, a procura por fitas cassete não era ancorada em uma melhor qualidade sonora. A tecnologia em nada mudou, e você ainda está sujeito a mastigadas corriqueiras.

Hoje a situação é periclitante para a mídia, existe apenas UMA fábrica de fitas em todo o mundo, que depende de apenas UM fornecedor de matéria prima, as vendas até 2019 estavam minguando e arrumar matéria-prima está cada vez mais difícil.

Então veio a COVID-19. Com todo mundo preso em casa, muitos têm procurado novos hobbies para passar o tempo, e a música sempre desempenhou um papel fundamental no nosso bem-estar. E este é o fator principal de por que a procura pelas K7 aumentou tanto:

Nossa relação com a música é emocional, não lógica, e mesmo o sr. Spock entendia isso. Embora faça todo o sentido ter à disposição qualquer música que você quiser em seu serviço de streaming favorito, há um certo romantismo em ir até a estante, puxar um vinil, colocar na pick-up e ouvir.

O mesmo vale para pegar um velho walkman e por sua fita para rodar. Quem viveu essa época sabe racionalmente que hoje tudo é mais fácil, mas velhos hábitos despertam sentimentos diversos, desde à sensação de posse da mídia física (algo de que estranhamente o CD não desfruta, talvez porque os encartes são paupérrimos se comparados aos dos LPs), ao simples ritual necessário para ouvir suas canções favoritas.

Esta fita só sobreviveu porque me custou um braço. E uma perna (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Esta fita só sobreviveu porque me custou um braço. E uma perna (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

As novas gerações mal sabem a relação entre uma fita cassete e uma caneta Bic, mas os jovens fazem parte do público consumidor atual da mídia, que de acordo com dados da indústria fonográfica do Reino Unido, venderam 156.542 unidades em 2020 apenas na terra da Rainha.

Pode parecer pouco, mas este número representa um aumento nas vendas de 94,7% em relação a 2019, e é a maior saída de fitas K7 desde 2003. Vale lembrar que artistas com grande público, como Lady Gaga e Katy Perry, entre outros, também estão explorando o formato.

Com a maioria dos países ainda impondo restrições a aglomerações, muitos artistas buscam na venda de mídias físicas, incluindo LPs e fitas cassete, uma receita adicional que não é compensada pelos serviços de streaming, graças à baixa porcentagem que eles recebem por reprodução.

O cenário não é muito bom no geral, visto que hoje a produção de fitas é bastante limitada, ao ponto que cada unidade costuma ser bem cara, embora não tanto quanto um vinil. Os aparelhos para reprodução também não são simples de se encontrar, os bons são caros e há muitos de péssima qualidade. Quem conservou os seus aparelhos antigos em bom estado leva vantagem nesse sentido.

Isso vai durar? Considerando a dificuldade para fabricar novas fitas, dificilmente não, mas não deixa de ser curioso imaginar se um dia veremos a Sony fabricando novos Walkmen para ouvirmos nossas fitas, velhas ou novas.

Fonte: The Conversation

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