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Era inevitável: Microsoft HoloLens vai à guerra

Microsoft vai fornecer 120 mil unidades de derivado do HoloLens ao Exército dos EUA por 10 anos, para uso em situações de combate

30 semanas atrás

O HoloLens é o headset de Realidade Aumentada da Microsoft, anunciado originalmente em 2015 e atualizado para a segunda geração em 2019, originalmente voltado para usos domésticos (incluindo games), educacionais e corporativos.

O tempo passou e a Microsoft mudou de ideia quanto ao produto, que nunca foi barato, focando principalmente em soluções corporativas e contratos de alto valor. E poucos possuem mais grana para queimar do que as Forças Armadas.

Soldado dos EUA treina com 2ª geração do IVAS (Crédito: Divulgação/US Army/DoD)

Soldado dos EUA treina com 2ª geração do IVAS (Crédito: Divulgação/US Army/DoD)

Originalmente, o HoloLens deveria ser um produto voltado para vários perfis de usuários, mas a Microsoft sempre morreu de medo de que acontecesse com o seu headset o mesmo que com o Google Glass, com um monte de usuários fazendo ruído e não agregando nada à plataforma. Pensando nisso, o acesso ao produto foi restrito para empresas e desenvolvedores com projetos que se mostrassem de agregadores, e só então, seriam permitidos pagar US$ 3 mil no acessório.

A versão Commercial Suite, que dispensava os projetos mas era igualmente restrita, custava US$ 5 mil. Tudo para afugentar curiosos e turistas de modo a não repetir o fiasco do Kinect, um acessório poderoso que desagradou os games mas fez a festa dos desenvolvedores, cientistas e entusiastas, por ser um sensor poderosíssimo vendido a preço de banana (US$ 149).

A segunda geração do HoloLens, apresentada durante a MWC 2019, representou uma mudança de foco no produto, ou melhor, um ajuste fino nas prioridades da Microsoft. O foco educacional foi afunilado, de modo a excluir tudo o que se assemelhasse a games, que foram completamente limados. A atenção se voltou principalmente para empresas, incluindo soluções para o chão de fábrica, como treinamento e capacitação de mão-de-obra.

O acesso continua restrito a projetos que a Microsoft julgue interessantes, mas o preço foi reajustado para US$ 3,5 mil, de modo a garantir que curiosos e estúdios de games independentes (e Epic Games tem uma versão da Unreal Engine, mas claro, não para jogos) fiquem bem longe do HoloLens.

Demonstração de uso do HoloLens 2 no chão de fábrica (Crédito: Divulgação/Microsoft)

Demonstração de uso do HoloLens 2 no chão de fábrica (Crédito: Divulgação/Microsoft)

Além de se concentrar em soluções de uso do HoloLens na indústria, mercado corporativo e em projetos educacionais, a Microsoft percebeu que o acessório era especializado o bastante para também ser empregado pelas Forças Armadas, rendendo assim uma boa grana.

O exército norueguês chegou a testar o Oculus Rift com pilotos de tanques, e sensores como os que fornecem visão noturna ou térmica, são equipamentos bem básicos. O desafio é integrar tudo e fazer direito, em um produto que um soldado possa usar de forma fácil.

Em 2018, a Microsoft assegurou um contrato de US$ 480 milhões com o Departamento de Defesa e o Exército dos Estados Unidos, para o desenvolvimento de uma plataforma exclusiva derivada do HoloLens 2, que fornece visão noturna e térmica, além de informações contextuais via Realidade Aumentada a um soldado em terra.

O projeto, de codinome IVAS (Integrated Visual Augmentation System, ou Sistema Integrado de Aumento Visual em português) foi fechado em caráter de OTA (Other Transaction Authority, ou Outras Autoridades Transacionais), que permite a autoridades militares, como o Exército, firmarem parcerias com empresas para o desenvolvimento conjunto de tecnologias militares.

Segundo a Microsoft, o IVAS foi desenvolvido para fornecer "consciência situacional aprimorada" de modo a "permitir o compartilhamento de informações" via Azure Cloud Services, e tomadas de decisão "em uma variedade de cenários", o que em tese pode incluir situações de combate.

Na ocasião, a Microsoft foi duramente criticada, inclusive por funcionários, por fechar um contrato militar, coisa que até o Google abriu mão após controvérsias. No entanto, o CEO Satya Nadella defendeu a parceria, alegando que a empresa não privaria suas tecnologias de "instituições que nós (o povo) elegemos em democracias, para proteger a liberdade de que nós gostamos".

Mesmo com todas as críticas, o IVAS seguiu em frente e evoluiu. A primeira versão foi bastante criticada por soldados durante os testes, por suas fracas capacidades em GPS e sensores fracos, e a bem da verdade, ele era puramente o HoloLens 2, sem nenhuma modificação relevante.

O primeiro IVAS era o HoloLens com outro nome (Crédito: US Army)

O primeiro IVAS era o HoloLens com outro nome (Crédito: US Army)

Hoje o IVAS não se parece em nada com o headset original da Microsoft, e conta com sensores e recursos bem mais precisos do que a versão voltada para empresas. Com isso, o Exército deu sinal verde para a expansão do projeto, fechando um contrato que prevê a entrega de 120 mil unidades do acessório em 10 anos, que poderá render US$ 21,88 bilhões à Redmond.

Como o acordo pode ser estendido por mais 5 anos duas vezes, esse valor pode ser excedido com folga. No anúncio oficial, o cientista brasileiro Alex Kipman, criador do HoloLens e Kinect, disse que o IVAS oferecerá mais segurança aos soldados, bem como os tornarão "mais eficientes", não tendo elaborado esta parte.

As críticas, dentro e fora da Microsoft, continuam. Segundo fontes, muitos funcionários seguem censurando a decisão de usar uma tecnologia, que a princípio foi desenvolvida para uso em salas de aula, como uma ferramenta de guerra, mas a verdade é que muitas das coisas que usamos hoje, incluindo a internet, teve origem militar.

IVAS visto de perto (Crédito: Divulgação/Microsoft/US Army/DoD)

IVAS visto de perto (Crédito: Divulgação/Microsoft/US Army/DoD)

De qualquer forma, a Microsoft assegurou um contrato efetivamente sem concorrência graças ao formato do OTA, e esta não é a única frente em que a gigante atua junto aos militares: em 2019, o contrato JEDI (Joint Enterprise Defense Infrastructuer) foi fechado com o Pentágono para fornecer o serviço Azure Cloud, avaliado em US$ 10 bilhões.

Este acordo, no entanto, está enrolado: a Amazon entrou com um processo na corte federal, dizendo ter sido preterida em um jogo de cartas marcadas. O então presidente dos EUA Donald Trump odeia a empresa e seu CEO Jeff Bezos, graças aos editoriais opocionistas do Washington Post e a concorrência da Amazon com o sistema nacional de correios.

Picuinhas à parte, o fato é que dificilmente a Microsoft reverá sua decisão de trabalhar com as Forças Armadas dos EUA, dada a grana forte que irá receber ao desenvolver produtos e serviços para as tropas.

Fonte: Microsoft, CNBC

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