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Sidewinder - O míssil que nasceu por acaso

O AIM-9 Sidewinder é o mais bem-sucedido míssil ar-ar de todos os tempos, mas ele só existe por pura teimosia de seus criadores,

28 semanas atrás

O Sidewinder é o míssil ar-ar mais popular, é o clássico míssil com sistema de rastreio infravermelho que é usado em combate de proximidade. Ele já passou por inúmeras gerações e aperfeiçoamentos, mas sua origem é curiosa. Afinal ele foi criado sem ninguém pedir querer ou precisar.

AIM-9 Sidewinder em um F/A-18F Super Hornet (Crédito: US Navy/Airman Angel G. Hilbrands)

No final da Segunda Guerra a doutrina aceita era que aviões, mesmo jatos ainda usariam canhões e metralhadoras. Foguetes eram munições sem sistemas de controle, usados em ataques ar-terra. Fazia sentido. Em uma época aonde computadores ocupavam salas inteiras era virtualmente impossível miniaturizar um para caber em um míssil.

Mesmo assim, idéias passavam pela cabeça de William B. McLean, físico trabalhando a Estação Naval de Testes de Munições, no Deserto do Mojave. McLean estava desenvolvendo uma espoleta de proximidade por infravermelho.

Ao contrário do que a gente imagina, a munição antiaérea raramente atinge diretamente o alvo. Um sistema de radar na ogiva detecta quando o projétil está próximo do alvo, e no momento de maior proximidade, provoca a detonação, sabendo que parte da esfera de estilhaços irá atingir o inimigo.

William B. McLean (Crédito: Life)

Uma espoleta por infravermelho poderia identificar alvos mesmo que usassem contramedidas eletrônicas, ou fossem furtivos.

McLean estudava o Sulfeto de Chumbo, um semicondutor usado em LDRs, aqueles resistores dependentes de luz, que todo hobbysta de eletrônica já brincou. A idéia era que um foguete ou bomba lançado de um avião detectaria a emissão infravermelha de um motor de um tanque, por exemplo, e detonaria antes de atingir o chão, causando bem mais danos.

Eis que McLean pensou um pouco mais, e percebeu que se ele conseguia com um sensor identificar uma emissão infravermelha, com uma matriz de sensores poderia rastrear o movimento do alvo. Infelizmente essa tecnologia ainda não existia.

McLean e seus colegas bolaram então um mecanismo no qual um espelho parabólico girando a 4200rpm varria o espaço adiante do míssil com um ângulo de visão de 25 graus.

Isto é, se houvesse míssil, o Sidewinder ainda estava longe de existir.

Só a cabecinha do AIM-9 Sidewinder. Repare no espelho. (Crédito: US Navy)

Não era tarefa de McLean projetar mísseis. Ele estava usando tempo de outros projetos, tomou várias broncas e ainda por cima usou verba da caixinha do laboratório para bancar a pesquisa do Sidewinder, por isso o projeto demorou.

Diz McLean:

“Eu pessoalmente gastei três anos só considerando as possibilidades. É fácil construir algo complicado, difícil e construir de forma simples.”

E o Sidewinder era extremamente simples. Usava o corpo de um foguete ar-terra padrão, com aletas de navegação. Como a computação digital ainda engatinhava, os projetistas de McLean usaram soluções analógicas para “ensinar” ao míssil como reagir, como identificar se o alvo era válido e como corrigir sua trajetória de acordo com as entradas dos sensores.

Por causa disso o Sidewinder tinha a tendência de serpentear ao invés de seguir em linha totalmente reta rumo ao alvo, e isso ajudou a escolherem sem nome. Sidewinder é um tipo de cobra do deserto que tem por hábito serpentear.

Em termos de hardware, o Sidewinder se resolveu com 14 válvulas e menos de 24 partes móveis. Um míssil era mais simples do que uma TV comum.

Milhares de variações foram cogitadas, testadas e rejeitadas, com McLean e sua equipe trabalhando nas horas vagas, em horário de almoço, depois do expediente e bancando os experimentos com a caixinha ou com dinheiro do próprio bolso. Só em 1953 eles se sentiram seguros o suficiente para apresentar o projeto para a Marinha, e quando um Sidewinder derrubou um drone em uma demonstração, o Almirante William Parsons gostou do que viu.

O Sidewinder é o de cima.

O Sidewinder tem 2.8m de comprimento, mas desaparece perto do AIM-54 Phoenix (Crédito: US Navy)

Agora com a bênção da Marinha e verba chegando em caminhões, foram precisos só mais três anos para aperfeiçoar o Sidewinder, adaptar o projeto para produção industrial, certificar e operacionalizar. Em 1956 ele começou a ser adotado pelos esquadrões navais.

Uma das últimas alterações foi na forma com que o míssil se comunicava com o piloto. Como as condições de disparo variavam de acordo com altitude, velocidade, ângulo, etc, era preciso saber a hora certa de puxar o gatilho. Os engenheiros haviam instalado um voltímetro que indicaria com uma agulha quando o alvo estava dentro do envelope do míssil, mas os pilotos reclamaram.

Afinal, se você está no meio de um arranca-rabo com um mig comunista, não dá pra ficar olhando pra um instrumento o tempo todo. A solução é algo que hoje é clássico: Criaram uma saída sonora, com um tom característico indicando que é possível lançar o míssil.

O batismo de fogo do Sidewinder ocorreria dois anos mais tarde, na Segunda Crise do Estreito de Taiwan. Desde antes da Segunda Guerra Taiwan e China vinham se estranhando, com a “província rebelde” exigindo sua independência. Quando a Guerra Acabou o caldeirão voltou a ferver, e a China decidiu trazer Taiwan de volta à força.

Os EUA mandaram tropas pra região, mas não se envolviam diretamente. As forças armadas de Taiwan recebiam armamento munição e veículos, mas mesmo com vários F86 Sabres novinhos, a China tinha muito mais caças.

A solução foi trazerem de emergência um lote de AIM-9 Sidewinders, instalar e treinar os taiwaneses. Em 24 de Setembro de 1958 a China lançou uma frota de 126 MiG-15s e MiG 17s em direção a Taiwan, que só tinha 48 F-86 para interceptar, mas tinham um segredo: O Sidewinder.

Poucos caças estavam armados com o míssil, mas quando se aproximaram da formação chinesa, voando mais alto do que o F-86 conseguia, bem antes de chegarem perto o bastante para usar os canhões, os caças de Taiwan dispararam seus Sidewinders, que com todos os problemas e limitações de uma arma nova e revolucionária, derrubaram de uma vez seis caças chineses.

Sabre F-86 de Taiwan, equipado com Sidewinder

Um F-86 Sabre de Taiwan (Crédito: Reprodução Internet)

No final foram nove abates confirmados, dois prováveis, os chineses abortaram o ataque e voltaram pra base. Nenhum caça de Taiwan foi perdido.

Em meio a isso tudo passou despercebido o piloto chinês mais sortudo de todos os tempos, para azar dos americanos. Um dos Sidewinders atingiu em cheio um MiG-17, mas não explodiu. O sujeito voou até a base e pousou com um míssil armado espetado no caça.

Algum chinês bem inteligente desarmou o míssil, retirou da fuselagem, encaixotou e mandou via SEDEX (não, mentira, senão estaria em Curitiba até hoje) para Moscou.

Os russos correram para fazer engenharia reversa, e em três anos surgia o AA-2 ATOLL, uma cópia idêntica do Sidewinder. Quão idêntica? Digamos que o ATOLL é o de cima o Sidewinder é o de baixo.

um sidewinder, dois sidewinders

Olha o Kibe! (Crédito: Reprodução Internet)

Mesmo assim a pesquisa não parou. O Sidewinder logo passou a usar componentes eletrônicos modernos, como transístores, e abandonou as válvulas. O sensor infravermelho foi aperfeiçoado e passou a usar nitrogênio líquido para aumentar em milhares de vezes sua sensibilidade.

O problema do Sidewinder travar na maior fonte de infravermelho existente e cismar de voar em direção ao Sol foi resolvido. Ele agora identifica e ignora contramedidas como flares e pode ser lançado de qualquer ângulo.

Neste vídeo aqui um sujeito provavelmente usando algum cheat code lança um Sidewinder que faz uma curva de 180 graus para atingir o alvo.

E como bônus, uma história que conto neste post aqui do Contraditorium, como espiões russos amadores, incluindo um playboy fracassado conseguiram invadir uma base aérea na Alemanha e roubaram na cara dura um Sidewinder AIM9-E. Pior, eles desmontaram o míssil e mandaram para Moscou... pelos Correios.

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