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Apple entregou dados de usuários ao governo para crescer na China

Apple abriu mão do controle do iCloud para dominar o mercado mobile na China; governo pode acessar dados de todos os usuários do serviço

28 semanas atrás

A Apple sabe muito bem que a China é um dos, se não o maior mercado consumidor de eletrônicos, produtos e serviços de tecnologia do mundo, e nenhuma grande companhia pode em sã consciência ignorá-lo. Devido a isso, ou as empresas que desejam se instalar no País do Meio se adequam às regras do jogo, e aceitam as normas e diretrizes do Partido Comunista da China, representado pelo premiê Xi Jinping, ou nada feito.

Como ninguém quer perder dinheiro, todo mundo se adequa. Sundar Pichai, CEO do Google e Alphabet Inc, considera a China um mercado essencial, ao ponto da empresa desenvolver uma versão local do Chrome, capaz até mesmo de rastrear dissidentes. Quase todos os produtos eletrônicos que consumimos são montados lá, graças ao baixo custo hora-homem e incentivos governamentais. A Apple, com sua imagem de progressismo e defesa dos direitos humanos, não é exceção.

Apple Store em Pequim, China (Crédito: Michael Kan/IDGNS)

Apple Store em Pequim, China (Crédito: Michael Kan/IDGNS)

A maçã tem no governo chinês um de seus mais poderosos aliados, e isso não se limita à linha de produção de seus gadgets, manufaturados pela Foxconn a preços baixíssimos, para serem vendidos por lá e no resto do mundo com margens elevadas. De uns anos para cá, a companhia de Tim Cook perseguiu arduamente a meta de expandir seus negócios no país, de modo a oferecer a totalidade de seus serviços de música, dados, armazenamento em nuvem e etc para os chineses.

Claro que a Apple não é exceção, e é obrigada a dançar conforme a música tocada pelo ursi-, digo, premiê Xi. Cupertino vem se alinhando com as diretrizes de Pequim desde 2017, o que irritou (e continua irritando) os políticos dos Estados Unidos, o que internamente é considerado o certo a fazer, para evitar novas rasteiras dadas pelo governo. Prejuízo não é uma opção, deixar o Android dominar o país também não, e nisso, os valores que a maçã tanto preza só valem fora da China.

Atualmente, 20% da receita da Apple vem da China, o que é uma marca impressionante, mas ela foi alcançada somente vendendo a alma da empresa. E de seus consumidores chineses, claro.

Em 2019, às vésperas dos 30 anos do Massacre na Praça Tiananmen, o Apple Music sumiu com álbuns de diversos músicos de Hong Kong, especificamente os que faziam menção ao "incidente de 4 de junho", como ele é chamado por lá, embora não seja discutido em aberto, não seja ensinado nas escolas, nem mencionado nos livros de história. Para todos os efeitos, ele nunca ocorreu.

Assuntos como liberdade de expressão, a questão de Hong Kong ou Taiwan, que já se refletiu no banimento de emojis da bandeira em Macs, e qualquer outro tema espinhoso é tabu para qualquer companhia, que o diga o Scratch, que foi banido.

Xi Jinping e Tim Cook se cumprimentam durante encontro de CEOs e executivos tech com o presidente da China, no campus da Microsoft em Redmond, WA, em setembro de 2015 (Crédito: Reuters)

Xi Jinping e Tim Cook se cumprimentam durante encontro de CEOs e executivos tech com o presidente da China, no campus da Microsoft em Redmond, WA, em setembro de 2015 (Crédito: Reuters)

Apps para iPhone que foram acusados de "violar a lei" são banidos da App Store com frequência, desde 2017 cerca de 35 mil deles já teriam sido barrados. Um deles era o que avisava a população de Hong Kong sobre atividade policial nas imediações, durante a onda de protestos de 2 anos atrás.

Paralelo a isso, manufaturas que atendem a Apple e outras empresas foram acusadas de usarem mão de obra da minoria Uighur, em regime análogo à escravidão. Até onde se sabe, os clientes das empresas chinesas, incluindo a Apple, sabem disso e ignoram, pois de novo, ou dançam conforme a música ou são expulsas da China. E todo mundo dança.

O mais recente informe explosivo mirando a Apple, fornecido pelo The New York Times, diz respeito ao tratamento de dados locais pelo iCloud. Na China, os dados online de todos os usuários devem ser armazenados localmente (algo que até o Brasil considerou fazer, mas a LGPD entrou em vigor sem isso) e o governo deve ter acesso garantido aos dados, e originalmente Tim Cook teria sido contra, se baseando no original compromisso com a segurança e criptografia da Apple, onde tudo continuaria sendo armazenado e protegido nos EUA.

O politburo teria sido bem claro: ou a Apple se adequa conforme a lei, ou sai da China. E a maçã se adequou, aceitando entregar os dados de todos os chineses que consomem seus produtos ao governo. Em troca, a empresa seria permitida a expandir seus negócios localmente e aumentar sua participação no mercado mobile, visando aniquilar a concorrência do Android adotado por concorrentes locais, como Xiaomi, Huawei e outras.

Garantir acesso do governo aos dados do iCloud gerou um impasse. A Apple não pode permitir que informações de cidadãos de outros países sejam acessados, geralmente por força de leis locais. A solução foi implementar uma iCloud separada e exclusiva do País do Meio, que na prática, Cupertino não tem autonomia para administrar, mas terá que arcar com os custos da implementação. A empresa está construindo um novo datacenter na região da Mongólia Interior, no norte da China, para fazer par com o já instalado em Guiyang, na província de Guizhou.

Visão aérea do datacenter da Apple em Guiyang, na província de Guizhou (Crédito: CNES/Airbus)

Visão aérea do datacenter da Apple em Guiyang, na província de Guizhou (Crédito: CNES/Airbus)

Oficialmente a maçã é parceira de uma companhia local, chamada Guizhou-Cloud Big Data, ou GCBD, sendo esta a detentora legal de todos os dados do iCloud na China, e ligada ao governo. Pequim deve aprovar previamente todas as tecnologias de criptografia usadas pela Apple, a fim de garantir meios de acessar e verificar as informações armazenadas de todos os usuários chineses, quando e como desejar, e tomar ações cabíveis em casos de "dissidência".

É preciso lembrar que a Apple já bateu de frente com diversos governos, inclusive do Brasil, sobre a criptografia de dados e a proteção de seus usuários, o que a empresa considera essencial para seus negócios, mas isso só se aplica fora da China. Por lá, a empresa é obrigada a seguir as diretrizes do governo, como toda e qualquer outra companhia tech, mesmo que isso contrarie seus ditos princípios. Claro que a missão de toda empresa é dar lucro, tudo o mais é secundário.

A previsão é que a iCloud chinesa entre em funcionamento em junho de 2021, segundo informes, a data limite que o governo local deu à Apple para colocá-la em funcionamento.

Fonte: The New York Times

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