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Resenha: O Legado de Júpiter (com spoilers)

O Legado de Júpiter é a nova série de super-heróis da Netflix, e dependendo do que você espera dela, pode ser uma boa diversão

21/05/2021 às 13:22

O Legado de Júpiter é a nova série de super-heróis da Netflix. Pode ser vista como um The Boys Light, um Invincible sem malícia, uma série do CW com 15% mais orçamento, uma história mais do mesmo ou o que eu acho que é: Um gibi divertido.

Que bom que a moda do couro preto do Bryan Singer passou. (Crédito: Divulgação)

A história é cria de Mark Millar, autor escocês arroz de festa no mundo dos quadrinhos. Seu currículo é invejável e respeitável, tendo criado ótimas desconstruções de gênero como Kingsman e Kickass. Millar também se destacou nas grandes editoras com material adaptado. É dele o excelente Superman: Red Son, Marvel Civil War e o quase clássico Old Man Logan.

Em 2007 Mark Millar abriu sua própria editora, a Millarworld, publicando material original dele mesmo e de outros autores. Em 2017 a Netflix comprou a empresa, com toda sua propriedade intelectual por US$100 milhões, de olho em produzir séries e filmes.

O Legado de Júpiter é uma dessas séries, com uma premissa interessante mesmo que não inédita.

Durante a Grande Depressão dois irmãos filhos de um magnata da indústria do aço ficam órfãos, pobres (relativamente falando) e descobrem que seu pai (o deles, não o seu) não era tão bonzinho quanto imaginavam.

É uma vibe meio A Múmia meio Indiana Jones, nessa fase (Crédito: Divulgação)

Um deles, Sheldon Sampson, se torna obcecado com um mistério que seu pai estava tentando desvendar, antes de cometer suicídio por causa da Crise de 1929. No futuro Sheldon se tornará o Utopian, o super-herói mais poderoso da Terra.

A série salta entre passado e futuro, e o futuro não é mais como era antigamente. Graças a seus poderes o Utopian e outros Supers envelhecem mais lentamente. Agora com cem anos ele está casado com Lady Liberty, dividindo seu tempo entre salvar o mundo e criar os filhos, também Supers.

Chloe Sampson, a Liza Minell de 1,99 (Crédito: Divulgação)

Paragon, o filho é um Herói em treinamento e destinado a suceder o pai como o próximo Utopian. Chloe, apesar de também ser Super, não quer nada com a vida de herói, é a jovem rebelde que faz tudo pra chocar os pais, levando uma vida de sexo drogas e rock and roll, trabalhando como modelo nas costas da fama do pai.

Paragon fazendo cara de sério (Crédito: Divulgação)

O mundo d’O Legado de Júpiter está mudando. Os supervilões estão se tornando mais perigosos, os heróis estão começando a perceber que apesar dos malucos usando a cueca por cima da calça e cometendo crimes, os maiores problemas são causados pelo Complexo Industrial-Militar, empresários inescrupulosos e corrupção sistemática, mas lidar com isso iria contra o Código dos heróis, definido pelo Utopian:

“Nós não matamos, nós não lideramos, nós inspiramos”.

Lindo, mas não funciona, e a grande crise acontece quando a União (grupo dos principais heróis do planeta) enfrenta Blackstar, um vilão casca-grossa que mata uma das heroínas, subjuga o Utopian e está prestes a se auto-detonar como uma bomba nuclear. Paragon chega com tudo e com um soco arranca o rosto de Blackstar, neutralizando a ameaça. Utopian fica putopian nas calças com aquela violação do Código. Heróis não matam, em nenhuma circunstância.

A dinâmica familiar d’O Legado de Júpiter muitas vezes lembra Invincible, mas ao contrário de Garth Ennins, Mark Millar não odeia super-heróis, não quer fazer nenhuma desconstrução nem apontar como são todos cínicos e prejudiciais. O Utopian é legitimamente bom, talvez bom demais.

O Utopian até reza antes das refeições. (Crédito: Divulgação)

Ele é um Super-Homem clássico em um mundo que precisa de um Super-Homem do Snyder. O conflito é entre os ideais do Utopian versus um mundo que não tem os mesmos ideais de nobreza, mas está longe de ser o mundo cínico de The Boys.

Mark Millar não tem nenhuma grande mensagem política em O Legado de Júpiter, ele não quer denunciar gêneros ou fazer complexas críticas políticas. Ele quer contar uma história ambiciosa, atravessando gerações e que nos quadrinhos rendeu quatro coletâneas e continua sendo publicada.

Claro, não quer dizer que a adaptação para a TV não tenha seus problemas.

A peruca que colocaram em Josh Duhamel é ridícula, faz o Utopian parecer um personagem d’Os Trapalhões. Andrew Horton, o Paragon tem as mesmas capacidades interpretativas de uma beringela, e Chloe Sampson é uma personagem tão chata, tão antipática que quando ela tem uma overdose a torcida é que morra, desgraçada, morra. (Spoiler: não morre)

E tem uma japinha com katanas. Toda série de super-herói tem que ter uma japinha com katanas. É a Lei. (Crédito: Divulgação)

A primeira temporada é toda focada em mostrar a origem dos heróis, mas no final não explica nada, terminando numa mistura de Ilha de Lost com aquela maldita ilha do Arrow. Mesmo tendo um vilão, ele prima pela ausência, e o conflito familiar soa meio besta quando você tem que parar de bater boca pra salvar o mundo.

Como disse anteriormente, gostar ou não d’O Legado de Júpiter depende muito mais de você do que da série. Se você não acompanha quadrinhos, mas gosta do MCU e seus espetáculos visuais, assistiu The Boys e adorou a crítica ao fascismo inevitável quando seres onipotentes tentam conviver com meros mortais, vai se decepcionar com a série de Mark Millar.

O ritmo, admito, também não ajuda. Pouca coisa realmente acontece nos oito episódios da primeira temporada, a impressão é que foi tudo um imenso prólogo. As platéias hoje são muito mais dinâmicas, todos os personagens são, como direi, martelados demais. Não precisamos ver a Chloe em 20 baladas (nights, em português carioca) diferentes pra entender que tipo de pessoa ela é.

Uma crítica que não concordo é quanto aos efeitos visuais. Claro, O Legado de Júpiter não é The Boys, não é Guerra Infinita, mas os efeitos visuais estão bem decentes, ainda mais lembrando que é Netflix, não HBO, mas está longe de ser, como chamaram injustamente, Power Rangers.

Existe uma atitude esnobe entre alguns fãs, que exigem que tudo produzido seja balizado pelo top do top, o que é uma perspectiva irreal. Nem toda série pode ou tem que ser Game of Thrones, é possível se divertir com propostas mais modestas, porém limpinhas.

O Legado de Júpiter não é o melhor de Mark Millar nem vai reescrever a forma com que super-heróis são tratados na teledramaturgia, mas é uma história honesta, um bom gibi filmado que compre tudo que promete: Divertir contando uma boa história.

Cotação:

3/5 Salsichas do Amor

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