Meio Bit » Software » Windows 11 no Raspberry Pi 4: dá para brincar — Review

Windows 11 no Raspberry Pi 4: dá para brincar — Review

O Windows 11 roda de forma extra-oficial no Raspberry Pi 4, quase (com muito ênfase) bom o bastante para ser usado em produção

05/07/2021 às 10:45

A primeira versão prévia do Windows 11 foi liberada no dia 28 de junho para membros do programa Windows Insider, com boa parte dos recursos visuais e de operação já liberados. Outros mais esperados, como o suporte a apps do Android (o que já levantou algumas dúvidas), devem chegar no futuro, ou somente com a versão final.

No entanto, como a versão prévia tem bem menos restrições, inclusive na versão para processadores ARM, foi fácil fazer como já ocorre com o Windows 10 e instalar o SO em outros aparelhos, diferentes de um PC. Nesse meio destaca-se o suporte ao Raspberry Pi 4, a versão atual do SBC (single board computer, ou computador de placa única) favorito dos desenvolvedores entusiastas, curiosos e retrogamers.

Windows 11 rodando no Raspberry Pi 4 (Crédito: Reprodução/Microsoft)

Windows 11 rodando no Raspberry Pi 4 (Crédito: Reprodução/Microsoft)

Com um pouco de boa vontade, é possível usar o Windows 11 com o RPi 4, inclusive para produção, desde que o usuário esteja ciente de que haverá limitações. Vamos dar uma olhada.

Nota de transparência

Em seus 17 anos de história, o Meio Bit sempre publicou análises opinativas com o intuito de ajudar os leitores a tomarem sua própria decisão de compra, seja de um gadget, um game ou um serviço/software/app. Nós sempre fomos francos em nossas opiniões e destacamos pontos positivos e negativos dos produtos de igual maneira, não importando a natureza dos mesmos, como forma de manter a integridade e transparência do site.

Dessa forma, ninguém externo à redação do Meio Bit teve acesso a este texto de forma antecipada, bem como não houve qualquer tipo de interferência ou direcionamento da Imation, ou de terceiros, em relação ao seu conteúdo.

O SSD Imation A320 foi fornecido pela Imation em caráter de doação; ele será usado em conteúdos futuros e não será devolvido à empresa.

Preparando o terreno

A opção de boot padrão do Raspberry Pi é através do slot para cartões microSD, mas você definitivamente não deve seguir esse caminho. Embora a versão ARM64 do Windows 11 seja perfeitamente utilizável sem nenhuma preparação especial da ISO original, o que é surpreendente, as velocidades de leitura e gravação se apresentam absurdamente baixas, não importando a qualidade do cartão, a quantidade de memória RAM disponível, ou se você fez ou não overclock.

Se você está pensando seriamente em usar um RPi como um desktop, independente se rodando Windows 10, 11 ou Linux, o melhor a fazer é gravar a ISO do sistema em um HD ou SSD externo, o segundo de preferência (e esqueça pendrives), e ligá-lo a uma das duas portas USB 3.0 do SBC.

A seguir será preciso configurar o boot, atualizando o firmware e fazendo modificações pelo terminal com o Raspbian Raspberry Pi OS, a distro oficial, ou com algum de seus forks, como o Retropie.

Raspberry Pi 4 de 8 GB e SSD conectado na porta USB (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Raspberry Pi 4 de 8 GB e SSD conectado na porta USB (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

Eu usei um A320 de 240 GB da Imation, ligado a um adaptador SATA/USB 3.0 que dispensa cases, até porque um SSD não precisa muito deles. Para o Windows 11, é recomendado usar o Raspberry Pi 4 com 4 ou 8 GB de RAM, mas como eu tenho ambos, optei pelo segundo. O Raspberry Pi 400, herdeiro espiritual dos honoráveis Commodore 64 e ZX Spectrum, também é compatível.

Fora isso, você vai precisar da ISO ARM64 do Windows 11, que pode ser baixada neste site, e do programa Windows on Raspberry (apenas Windows), para gravar a imagem no SSD. O procedimento de instalação no geral é bem simples, e não consome mais do que 30 minutos. O Windows 11 pede conta Microsoft para login, permissões de acesso a dados, o de sempre.

No primeiro boot após a instalação, você vai notar que o sistema está usando apenas 3 GB de RAM do total disponível, mas isso pode ser alterado nas configurações durante o boot, apertando "ESC" e selecionando "Device Manager", "Raspberry Pi Configuration", "Advance Configuration" e selecionando "Disabled" em "Limit RAM to 3 GB". De preferência, deixe para mudar isso após o primeiro boot, e não antes.

Feitas as mudanças, salve as configurações e após um novo boot, o Raspberry Pi 4 estará pronto para rodar o Windows 11. Nos testes a CPU rodou no clock de 1,5 GHz padrão, já que optei por não fazer overclock. E tenha a certeza de fornecer os 15 W necessários (5 V/3 A) para o SBC funcionar corretamente; qualquer coisa abaixo disso e o SO vai lerdar com vontade.

Windows 11 numa casca de noz

É importante lembrar que o Windows 11 nunca, jamais foi projetado para rodar no Raspberry Pi 4, o Windows 10 idem, e sendo assim, é esperado que hajam problemas ao longo do caminho. Começando pelo que não funciona, a versão não tratada da ISO não reconhece os módulos de Wi-Fi e Bluetooth, logo, você só terá acesso à internet via cabo Ethernet. Acessórios sem fio, esqueça.

Você também não terá aceleração de hardware, e todo o processamento pesado ficará a cargo do SO, daí a importância de instalá-lo em algo mais rápido do que um cartão microSD. Ainda assim, o SBC faz um bom trabalho na hora de usá-lo como um computador de produção, até certo ponto.

Not great, not terrible (Crédito: Reprodução/Microsoft)

Not great, not terrible (Crédito: Reprodução/Microsoft)

Desde que haja acesso à internet, é perfeitamente possível usar o navegador Edge para ter acesso a editores de texto e planilhas na nuvem, seja o Office 365 ou a suíte Google, ou outra de sua preferência. A navegação também flui sem maiores problemas, e mesmo alguns sites pesados são carregados normalmente.

O sistema inclusive suportou sem nenhum problema a instalação local do Google Chrome, no que o instalador reconheceu e baixou prontamente a versão ARM. Com o acesso aos 8 GB de RAM liberados ao Windows 11, ele conseguiu dar conta dos dois browsers sem maiores percalços.

Na parte de multitarefa, o Windows 11 melhorou o gerenciamento de janelas ao criar o que chama de "zonas". Ao posicionar o cursor do mouse sobre o botão maximizar, o sistema exibe opções de organização em setores da tela, e você pode ajustar suas janelas (até 4) da maneira que achar melhor, ao invés de ter que redimensioná-las manualmente.

É um detalhe menor, embora funcione bem para quem precisa. Claro que o Raspberry Pi 4 é bem mais limitado, mas mesmo assim ele conseguiu segurar bem as pontas de vários apps abertos.

A organização de janelas em zonas é muito útil para multitarefa (Crédito: Reprodução/Microsoft)

A organização de janelas em zonas é muito útil para multitarefa (Crédito: Reprodução/Microsoft)

Alguns detalhes são mais difíceis de ignorar do que outros, claro. Sem aceleração de hardware, assistir vídeos no YouTube (que nunca rodou direito em nenhuma distro Linux para o Raspberry Pi, que dirá um SO sem suporte oficial) em resoluções altas vai resultar em perdas severas de frames, inviabilizando completamente a execução em 1080p.

Nos meus testes, vídeos em 720p estavam passáveis mas ainda perdiam quadros, embora bem poucos. Apenas a reprodução em 480p corre sem perdas, mas a qualidade do vídeo já tinha ido para a cucuia nesse ponto.

Jogos nativos? Esqueça. Mesmo Minecraft, baixado diretamente pela Microsoft Store e ajustado em resolução baixa, roda a menos de 10 quadros por segundo (fps). Emuladores de sistemas mais antigos, que não usavam gráficos 3D (até a 4ª geração de consoles) funcionam bem, no entanto.

Vídeos em 720p no YouTube rodam bem, com pouca perda de frames (Crédito: Reprodução/YouTube)

Vídeos em 720p no YouTube rodam bem, com pouca perda de frames (Crédito: Reprodução/YouTube)

Outros programas externos tiveram uma performance desastrosa. O VLC, por exemplo, se recusou veementemente a executar mesmo os vídeos mais simples, com efetivos 0 fps e apenas o som fluindo, mas isso já era esperado.

Conclusão

No frigir dos ovos, rodar o Windows 11 no Raspberry Pi é uma excentricidade. Uma prova de conceito típica do Espírito Hacker, apenas para "saber de podia ser feito", e de fato funciona. A surpresa aqui é o SO e o SBC apresentarem uma performance inesperada, dados todos os caveats.

Esta não é nem de longe uma opção viável para o usuário médio, e nem deve ser considerada a sério para quem realmente precisa de uma máquina de produção capaz, mas como uma unidade emergencial, o conjunto dá conta do recado.

O usuário apenas deve manter em mente de que há uma série de restrições, incluindo a dependência da da nuvem e o acesso à net apenas via Ethernet, e alguns ajustes que precisam ser feitos para que tudo funcione nos conformes. Fora isso, é possível ser minimamente produtivo.

A velocidade de transferência é até bem decente (Crédito: Reprodução/Microsoft)

A velocidade de transferência é até bem decente (Crédito: Reprodução/Microsoft)

Até o momento, a Microsoft não atualizou as exigências da versão final do Windows 11, que será mais restritiva do que a prévia para Insiders, significando que a mesma poderá no futuro perder a compatibilidade com o Raspberry Pi 4, mas no momento, curiosos de plantão poderão usar o PCzinho para navegar e até mesmo produzir, desde que apoiados na nuvem.

Apenas não se esqueçam de que este não é um cenário ideal para produção, mas pode ser usado quando tudo o mais estiver indisponível.

relacionados


Comentários