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New Shepard é lançado, corrigindo injustiça histórica

New Shepard decolou pela primeira vez levando passageiros, a era do turismo espacial está cada vez mais próxima, mas a festa é de Wally Funk!

9 semanas atrás

Ainda é muito cedo para entendermos o real significado histórico do lançamento do New Shepard levando tripulantes, poucos dias após a VSS Unity da Virgin Galactic fazer o mesmo, mas é seguro dizer que estamos assistindo o nascer de uma nova era.

Eles conseguiram! (Crédito: Blue Origin)

Na manhã do dia 20 de Julho de 2021, depois de 15 lançamentos bem-sucedidos, com dois foguetes diferentes, um New Shepard zero Km levou (momentaneamente) ao espaço Jeff e Mark Bezos, Wally Funk e Oliver Daemen, que aproveitaram de incríveis momentos em microgravidade.

Dos passageiros o mais misterioso era Oliver Daemen, com apenas 18 anos ele parecia um cervo olhando pros faróis do carro, e deu trabalho pra entender como o garoto caiu de pára-quedas no lançamento, mas o mistério foi desvendado.

O vencedor do leilão que a Blue Origin fez, e que pagou US$28 milhões para ser o primeiro passageiro do New Shepard disse que não tinha agenda e preferiu voar outro dia. A Blue Origin então chamou o segundo colocado.

Wally Funk levemente alegre (Crédito: Blue Origin)

Esse seria Joes Daemen, dono de uma corporação do ramo imobiliário e com fortuna pessoal avaliada em US$1,2 bilhões. Ele deu a vaga de presente pro filho, mas a grande vencedora do dia foi Wally Funk, que aos 82 anos se tornou a pessoa mais velha a viajar ao espaço, realizando o sonho de uma vida.

Wally, como já contado, era parte do grupo Mercury 13, um estudo feito por fora da NASA para determinar se mulheres tinham condição de se tornar astronautas. Quando elas começaram a ganhar capas de revistas e os resultados mostraram que algumas tinham desempenho melhor que os homens, a NASA puxou a tomada do projeto.

Por causa disso a primeira americana a ir ao espaço, Sally Ride, só voou em 1983, mas não dê muito crédito aos russos. Valentina Tereshkova voou em 1963 mas foi mais um golpe publicitário, os russos também não eram fãs de mulheres no espaço, a próxima cosmonauta soviética, d Svetlana Savitskaya, só voou em 1982 e desde então cosmonautas russas são mais raras que dentes em galinha.

Wally passou a vida tentando ir ao espaço, mas quando a NASA aceitou que mulheres podiam seguir o caminho de cachorros, ratos e chimpanzés, era tarde demais. Ela chegou a comprar uma passagem na Virgin Galactic, mas os atrasos repetidos a deixaram sem esperança, até o convite de Jeff Bezos.

Nos preparativos do lançamento Wally falava o tempo todo, agitada e animada. Quando foi a hora de subir os três lances de escada até a cápsula, Wally foi na frente, 82 anos de idade ou não.

Ela teve seus minutos de glória, realizou seu sonho, mas a jornada está apenas começando.

E Agora?

Tanto a Virgin Galactic quanto a Blue Origin estão apostando em um mercado que ainda não existe. Para a Blue Origin é bem mais fácil, eles têm vários outros contratos, incluindo com a NASA, e estão desenvolvendo um foguete de verdade, o New Glenn, além de produzirem motores para o foguete Vulcan, da United Launch Alliance.

Melhor ainda, o Vulcan é um foguete da velha guarda, descartável, então a ULA precisará comprar novos motores constantemente, fluxo de caixa garantido pra Blue Origin.

Quanto ao custo do vôo do New Shepard, é BEM barato. Ninguém divulga valores, mas basta fazer as contas. As estimativas para o preço normal de uma viagem chegam a US$250 mil por passageiros. Como a cápsula comporta seis passageiros, um vôo cheio rende US$ 1.500.000,00.

Aqui o Webcast completo:

Esse dinheiro tem que pagar pelo combustível, pelos insumos, salários, licenças, amendoins, drones que fazem a cobertura e muito mais. A menos que você acredite que a Blue Origin é uma ONG e Bezos está bancando o prejuízo do próprio bolso.

OK, tecnicamente ele está, a empresa tem 20 anos e ele investe na Blue Origin e seus funcionários US$1 bilhão por ano, mas o objetivo é que o New Shepard renda dinheiro.

E nem só de passageiros o New Shepard vive. A Blue Origin oferece vários modelos de cargas para experimentos científicos, incluindo pacotes para escolas custando meros US$8 mil.

Vários desses experimentos já voaram em missões anteriores, e várias já estão vendidas para as missões futuras, mas o foco do New Shepard ainda é turismo espacial.

Dentro da cápsula:

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Muita gente está reclamando, dizendo que turismo espacial é desnecessário e extravagante, mas paremos pra pensar: Qual turismo não é? Será que o dinheiro que você gastou passando o Carnaval na casa dos pais do seu amigo em Iguaba não seria melhor utilizado num curso, num livro?

A verdade é que turistas endinheirados vão gastar seu dinheiro em aventuras caras. US$250 mil parece muito, mas se você resolver passear em Dubai, caprichando no luxo, vai gastar perto disso rapidinho.

Primeiro, uma passagem Nova York – Abu Dhabi no The Residence, um virtual apartamento em um Airbus A380 da Ethiad Airlines:

Essa brincadeira pode chegar a custar US$68 mil. Por uma perna (do vôo, não a sua).

Chegando em Abu Dhabi você paga uma pequena fortuna num Uber de Helicóptero (sim, existe) até o seu hotel, o Burj Al Arab. Uma noite pode custar US$24 mil. Se você devorar o frigobar vai dever o PIB de alguns países da África.

E nem chegamos a falar de hotéis e resorts realmente exclusivos.

Burj Al Arab. Basicamente um AirBnB (crédito: reprodução Internet)

A diferença é que esses resorts e aviões não estão promovendo nenhum avanço tecnológico, já o turismo espacial está empregando um monte de gente altamente qualificada, profissionais que serão essenciais nos próximos anos.

A Blue Origin desenvolveu e aperfeiçoou por conta própria a tecnologia de pouso, o New Shepard é o protótipo do que será usado no New Glenn. Eles hoje dominam algo que o Brasil ainda está longe de saber usar: Propulsão usando Hidrogênio e Oxigênio líquidos, e adivinhe o que usa esse tipo de propulsão? A maioria dos segundos estágios de foguetes.

Muita gente inclusive eu está usando a analogia de Santos Dumont e dos Irmãos Wright, com as pessoas não entendendo que estão vendo o início da aviação, mas pensando bem a metáfora é outra.

Estamos vendo o início da aviação comercial, quando as passagens custavam muito caro, os aviões eram barulhentos, desconfortáveis, caíam feito moscas e os passageiros passavam por indignidades como ser pesados antes do vôo.

Pensa no drama. (Crédito: Domínio Público)

Na época muita gente não via sentido em aviões, afinal havia alternativa bem melhor: Navios e Trens, mas os corajosos, aventureiros de bolso cheio resolveram fazer diferente, por mais que muitos os chamassem de extravagantes esbanjadores.

Isso deu à indústria o fôlego necessário para criar um novo mercado, seguido de novos e mais modernos aviões, mais conforto e segurança. Hoje voamos em aeronaves no estado da arte, e uma passagem Rio-São Paulo, comprada pra Setembro sai (conferi agora) R$585,00. Em 1951 a mesma passagem custava o equivalente a R$6.600,00 hoje.

Talvez o New Shepard não dure, talvez o turismo suborbital seja dizimado quando a SpaceX tiver uma frota de centenas de Starships, mas não importa. A Blue Origin e a Virgin Galactic existem hoje, e estão inspirando milhares de pessoas, sejam os jovens funcionários, seja Wally Funk, sejam os estudantes entre 7 e 8 anos de uma escola em Indiana, que questionaram se vagalumes acenderiam no espaço, e graças a uma professora dedicada, passaram dois anos projetando um experimento que voou no New Shepard.

Talvez seja um alarme falso, talvez ambas as empresas entrem para a história como uma Segway, seus veículos curiosos, mas nada práticos, e a verdadeira popularização do espaço aconteça depois. É muito difícil prever esse tipo de mudança sísmica, mas se for para escolher entre o pessoal que achava desperdício de recursos expedições como as de Cabral, Colombo e Magalhães, e as crianças que viam animadas os navios deixando o porto, imaginando quantas aventuras, novas civilizações e maravilhas eles descobririam, a escolha é clara.

Fico com a pureza das crianças.

Ele nunca vai esquecer disso (Crédito: KSC)

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