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Xi Jinping lembra big techs da China quem é que manda

Partido Comunista da China impõe restrições a companhias como DiDi, Tencent, Alibaba e Baidu, de modo a não reunirem poder demais

30/07/2021 às 10:33

As grandes companhias de tecnologia da China vêm passando por um sufoco em seu país de origem, graças ao aumento de pressões vindas do gabinete central do Partido Comunista. Nos últimos anos, empresas como DiDi Global (concorrente da Uber), Tencent, Alibaba e Baidu, entre outras, acumularam grande poder graças à expansão global de seus negócios, o que gerou alguns atritos entre executivos e o governo.

O premiê Xi Jinping, que vem consolidando sua imagem de "timoneiro" da China para o século XXI, visando se tornar tão (ou mais) popular quanto seus antecessores Mao Tsé-Tung e Deng Xiaoping, tomou algumas medidas para deixar claro, mesmo para algumas das maiores companhias tech do mundo, que ninguém está acima do Partido e seu secretário-geral, por coincidência, o próprio Xi.

Presidente da China Xi Jinping discursa durante as comemorações dos 100 anos do Partido Comunista chinês, do qual é secretário-geral (Crédito: Xinhua)

Presidente da China Xi Jinping discursa durante as comemorações dos 100 anos do Partido Comunista chinês, do qual é secretário-geral (Crédito: Xinhua)

Na última segunda-feira (26), o Ministério de Informação e Tecnologia da China lançou uma grande campanha nacional de "expurgo" a práticas que "perturbem a ordem pública, causem danos aos direitos do consumidor, ou ameacem a segurança de dados" dos cidadãos e do país como um todo. A medida, que deve durar 6 meses, é análoga aos grandes processos antitruste que gigantes como Apple, Amazon, Google, Facebook, Microsoft e outras enfrentam nos Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia.

As diferenças começam pelos alvos, que são exclusivamente companhias chinesas, em especial aquelas consideradas "desalinhadas" com as diretrizes do Partido, e não incluem as que operam em completa subserviência a Pequim, como ZTE e Huawei. A medida mira principalmente em gigantes que se expandiram dentro e fora do País do Meio, como o Tencent Group, dono de inúmeras empresas em diversos setores, a Alibaba, uma das gigantes do e-commerce mundial, e o Baidu, o principal motor de busca da China e um grande player no mercado de Segurança da Informação.

Os atritos entre o Partido e as companhias tech começaram em novembro de 2020, quando o co-fundador do grupo Alibaba, Jack Ma, fez um discurso defendendo sua companhia e criticando abertamente o governo chinês, afirmando que a regulação excessiva do mercado, por parte do politburo, sufocaria a inovação.

Para o premiê Xi, tal afirmação era um indício de que os bilionários do país, que fizeram fortuna graças à flexibilização do mercado nas últimas décadas, se esqueceram quem é que manda, e dessa forma, a Alibaba seria feita de exemplo a todos que ousarem desafiar a ordem, não importa quanto dinheiro ou poder financeiro possuam.

A resposta do governo veio a cavalo: ainda em novembro o Ant Group, braço financeiro do grupo, cancelou os planos de IPO em Xangai e Hong Kong, cujo valor inicial previa uma valorização de US$ 37 bilhões, por possível pressão de Pequim. Em dezembro, os órgãos reguladores abriram um processo antitruste contra a empresa, resultando em uma multa de US$ 2,8 bilhões, aplicada em abril.

O próprio Jack Ma ficou meses "desaparecido", e só ressurgiu publicamente em janeiro de 2021. Vale notar também que as ações do grupo Alibaba só despencam desde outubro de 2018, e a fortuna pessoal do co-fundador encolheu significativamente.

Segundo especialistas, a evolução da China durante a gestão de Deng Xiaoping, considerado o "arquiteto" da nação para o mundo moderno, foi necessária para combater as dificuldades que o governo comunista fechado impôs a uma nação com mais de 1 bilhão de cidadãos, muitos deles na completa miséria.

Ao adotar um sistema híbrido entre o maoísmo e o capitalismo, em que Pequim controla o mercado mas permite o acúmulo de capital, a China se permitiu modernizar e acumular poder político e financeiro, atraindo também companhias de fora, que foram permitidas prosperar e lucrar. No entanto, é importante manter em mente que o Partido Comunista chinês continua sendo a "cabeça", e todos os demais são os membros da China. Um fala, o resto obedece.

Jack Ma, co-fundador do grupo Alibaba. Quem fala o que quer... (Crédito: Charles Platiau/Reuters)

Jack Ma, co-fundador do grupo Alibaba. Quem fala o que quer... (Crédito: Charles Platiau/Reuters)

Nisso, o controle total de Xi Jinping sobre a China se dá principalmente por ele ter se tornado secretário-geral do Partido antes de ascender à posição de premiê. Diferente de Mao e Xiaoping, ele não é um líder absurdamente carismático e aglutinador, mas ao exercer controle sobre o politiburo, o atual líder chinês reuniu poder político como poucos antes dele.

E é esse controle que vem incomodando as companhias tech da China, em primeiro lugar, porque seus dirigentes, segundo a visão do premiê Xi, se "encantaram" com o mundo capitalista e o livre mercado, e se iludem ao acreditar que o dinheiro dita as regras. Ainda que a abertura tenha sido necessária para a sobrevivência da China, o governo não pensará duas vezes em esmagar quem quer que ouse sair da linha, seja uma grande companhia ou não.

O grupo Alibaba foi o primeiro caso usado como um recado claro, mas nem todos pegaram. A DiDi Group, empresa de tecnologia e transportes líder na China e forte concorrente da Uber, foi a IPO na Bolsa de Nova Iorque no dia 30 de junho de 2021, e de cara arrecadou US$ 4,4 bilhões. O ato teria tirado o premiê Xi do sério, pois o timing coincidiu com as comemorações dos 100 anos do Partido Comunista da China. Para Pequim, a atitude foi vista como um desafio à autoridade central.

No dia 2 de julho, as autoridades abriram uma grande investigação contra a Didi Chuxing, citando "sérias violações de leis e regulações referentes à coleta e uso de dados e informações pessoais". O app da DiDi foi expurgado das lojas digitais e impedido de registrar novos usuários. Dias depois, outra agência abriu um processo antitruste contra a empresa de transportes, e incluiu também o grupo Alibaba e o Tencent Group no balaio, citando aquisições e fusões irregulares.

Ainda que as multas aplicadas contra as três tenham sido pequenas, de apenas 500 mil yuans (cerca de R$ 393 mil em valores de hoje, 30/07/2021), o recado foi bem claro: ou se submetem ao Partido, ou sofrerão as consequências.

Recentemente, além do grande escrutínio que as gigantes tech enfrentarão pelos próximos meses, o governo chinês iniciou o processo para a regulação do mercado de ensino online, que segundo nota, havia sido "sequestrado pelo capital". Companhias online de entrega de alimentos também entraram na mira, sendo obrigadas a pagar pelo menos a renda mínima chinesa a seus prestadores de serviços, ao invés destes receberem com base nas entregas.

A medida afetou pesadamente as ações da Meituan Dianping, companhia que atua na entrega de comida, reservas em restaurantes e hotéis, que vinha em meteórica ascensão, eleita pela Fast Company em 2019 como a mais inovadora do mundo.

No fim das contas, Meituan, Alibaba, Tencent e DiDi Group, em declarações separadas, afirmaram que trabalharão daqui por diante para melhorar seus sistemas de compliance e cooperarão com as autoridades chinesas, de modo a não desagradarem o premiê Xi de novo.

Xi Jinping é o líder chinês que mais reuniu poder ao redor de si, desde Mao e Deng Xiaoping (Crédito: Reprodução/AFP/Bloomberg/Getty Images/Financial Times)

Xi Jinping é o líder chinês que mais reuniu poder ao redor de si, desde Mao e Deng Xiaoping (Crédito: Reprodução/AFP/Bloomberg/Getty Images/Financial Times)

Segundo Thomas Tsao, cofundador da Gobi Partners, empresa de capital de risco com sede em Xangai, movimento de repressão por parte de Pequim é um indício de que o governo não mais vai tolerar que companhias de tecnologia, independente de quão grande sejam, e seus executivo bilionários "popstars", tenham mais poder ou destaque do que o Partido Comunista da China, e de que assumirá os rumos do mercado local com rédeas curtas.

Assim como aconteceu no ocidente, empresas que cresceram demais são um risco ao livre mercado, mas enquanto deste lado do mundo, a discussão se concentra em reduzir o alcance das mesmas ou mesmo fragmentá-las, como aconteceu com a antiga Bell Company nos EUA, no País do Meio, elas serão submetidas ao rígido controle e supervisão do governo e operarão conforme o premiê e secretário-geral Xi determinar. Quem ficar saidinho demais será punido, independente de quanto dinheiro tenha no banco.

O fato é que a China se aproveitou de décadas de crescimento exponencial do mercado local, que transformou o país em uma potência, mas a era do "Vale Tudo" acabou. Graças ao controle centralizado e inquestionável do Partido, resoluções de casos antitruste duram meses (no caso da Alibaba, foram apenas 4), contra anos nos EUA e Europa. Dado o devido tempo, as companhias passarão a cada vez mais rezar pela cartilha comunista, do jeito que o premiê Xi gosta.

Fonte: WIRED, Bloomberg.

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