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Cientistas querem cancelar o apocalipse movendo a Terra

A Terra corre perigo. Em pouco mais de um bilhão de anos o Sol começará a esquentar, mas há gente pensando numa solução para esse problema!

15/08/2021 às 23:37

A idéia de mover a Terra é explorada em uma deliciosa bobagem chinesa chamada Terra à Deriva (The Wandering Earth), altamente recomendável, tem na Netflix. Se eu tivesse uma semana não conseguiria listar tudo de errado cientificamente no filme, mas embora o método seja impossível, o conceito de mover um Planeta, surpreendentemente, não é.

Não, não assim. (Crédito: DC Comics)

G. Korycansky, Gregory Laughlin e Fred C. Adams escreveram um paper (cuidado, PDF) propondo exatamente isso.

O conceito é simples: Nós vamos morrer. Eu vou morrer, você vai morrer, o Judeu Errante vai morrer, pois o Sol não vai viver para sempre e no próximo bilhão de anos o Sol vai ficar 11% mais brilhante. Isso vai afetar a temperatura, criando um aquecimento global que nem a Fox News vai conseguir negar. E não vai parar aí. Em 3.5 bilhões de anos o Sol será 40% mais brilhante, e em 6.3 bilhões de anos brilhará 2.2 vezes mais forte do que hoje.

Obviamente isso é totalmente incompatível com a vida. Então pra onde a gente corre?

Isso vai ser bem ruim. (Crédito: Universe Sandbox)

Mesmo Marte está perto demais, o planeta mesmo que tenha sido terraformado, se tornará um deserto pior do que já é hoje. Migrar a civilização inteira para as Luas de Júpiter, que à essa altura já estarão colonizadas é inviável. O cinturão de asteroides não tem recursos naturais para sustentar bilhões de pessoas, fora que os belters são muito marrentos.

A proposta dos três cientistas é a mesma do filme: Levar a Terra, de mala e cuia para uma órbita mais distante. Mas como, você me pergunta. A idéia de instalar foguetes na Terra é ridícula, por vários motivos. Entre eles estaríamos ejetando oxigênio para o espaço, e não sei você, mas eu gosto muito de oxigênio.

Qualquer aquecimento gerado pelo Sol seria ínfimo comparado a dezenas de milhares de motores de foguete disparando continuamente na atmosfera, por anos, décadas. Não que sobrasse alguém, o oxigênio da atmosfera seria todo consumido bem antes.

Então, qual a técnica que os tais cientistas inventaram?

Bem, eles não inventaram, é um conceito bem mais antigo, e mais que comprovado: Eles vão usar o velho truque de empuxo gravitacional.

Você sabe, a técnica que as Voyagers usaram para fazer um Grand Tour pelo sistema solar, sem usar combustível quase nenhum. Passando bem próximo de um planeta, no momento certo na distância certa você rouba um pouco da energia gravitacional daquele planeta. Sua nave é acelerada, e o planeta é desacelerado.

Aqui uma demonstração da manobra, usando bolas e borracha:

Claro, com a relação e massa entre uma sonda espacial e um planeta, sua sonda pode ganhar vários Km/s em velocidade, e o planeta perde um bilionésimo de micronada.

Isso muda quando a massa dos dois objetos não é tão diferente.

A idéia dos cientistas é escolher um asteróide de tamanho decente, com algo em torno de 100.000.000.000.000.000 toneladas, do Cinturão de Asteróides ou no Cinturão de Kuiper, e cuidadosamente alterar sua órbita para que ele passe muito, muito perto da Terra, quase raspando na Atmosfera.

Isso fará com que a órbita do asteróide seja bem alterada, mas a Terra por sua vez ganhará energia (dependendo da manobra você pode ganhar ou perder energia orbital) e sua órbita se ampliará um pouco, ficando um tiquinho mais distante do Sol.

Ceres passando a pouco mais de 300Km de altitude, dentro do Limite de Roche. O asteroide começa a se desintegrar durante a passagem, mas o efeito gravitacional é o mesmo. (Crédito: Universe Sandbox)

A solução dos caras é lindamente elegante, e fundamentada em equações. Eles propõem que o encontro seja calculado de forma que a órbita alterada do asteróide o leve até Júpiter, aonde outra passagem próxima energizaria o asteróide, que ganharia velocidade e o colocaria em posição para um novo encontro com a Terra.

Eles criaram uma máquina feita de planetas, que usa a energia orbital de Júpiter para salvar a Terra. A cada passagem a Terra se afastaria do Sol, compensando o inexorável aumento de brilho e temperatura. Em sincronia o planeta inteiro se manteria dentro da chamada Zona dos Cachinhos Dourados, a região do Sistema Solar onde é possível existir água em estado líquido.

Zona dos Cachinhos Dourados. Vênus está fora, Marte está no limite. (Crédito: Universe Sandbox)

A beleza da solução? Só seria preciso uma passagem a cada 6 mil anos, para o asteróide mover a Terra o suficiente para compensar o aumento de temperatura.

Existe, claro, o detalhe de como alterar a órbita de um asteróide de 100 quadrilhões de toneladas, alguns ridiculamente simples como... uma lata de tinta.

Apesar de ser um conceito que soa como ficção científica, velas solares são uma tecnologia real e testada, baseada no conceito de que Luz não tem massa, mas tem momento. Quando você acende os faróis do seu carro na garagem, eles exercem uma pressão contra a parede, e se seu carro pesasse menos que minhas chances de tomar um chopp com a Luciana Vendramini, o carro se moveria para trás.

Ikaros, a vela solar japonesa, com 14m de lado, lançada em 2010. Ela passou a 80 mil Km de Vênus. A sonda manobra usando painéis de cristal líquido que escurecem, mudando a pressão exercida pelos fótons solares (Crédito: JAXA)

Uma vela solar é essencialmente uma vela de barco, mas ao invés de vento, ela é movida por luz. Se você pintar metade de um asteróide com uma cor que reflita luz, isso fará com que ele sofra uma pressão desigual, o que afetaria sua trajetória.

Também é possível imaginar uma frota de cargueiros que recolha água de Europa e Encédalo, converta em Hidrogênio e Oxigênio e abasteça conjuntos de motores no asteróide. Milhares de anos pacientemente abastecendo os tanques, para disparar os motores no apogeu, aonde é necessário menos energia para alterar uma órbita.

O próprio asteróide pode se tornar uma colônia, e até uma atração turística. Pessoas pagariam uma pequena fortuna para estar no asteróide durante uma das passagens pela Terra.

Claro, na verdade nada disso vai ser necessário. A escala de tempo envolvida é quase impossível de ser entendida. Estamos falando de um BILHÃO de anos. É quase impossível pro nosso cérebro conceber um bilhão de anos.

Calendário Cósmico (Crédito: Cosmos)Se dividirmos a idade do Universo desde o Big Bang até agora em um calendário de um ano, cada mês terá pouco mais de um bilhão de anos. Toda a nossa História, desde quando surgimos como espécie, desde quando começamos a viver em bandos, aprendemos a caçar, a plantar, erguemos civilizações, impérios, pisamos na Lua e estamos prestes a ir a Marte, todo esse tempo ocupa...

Só um tiquinho (Crédito: Cosmos)

O último minuto do dia 31 de Dezembro.

Imagine você perguntar ao egípcio mais inteligente do tempo dos faraós, provavelmente Imhotep, como ele projetaria uma nave para chegar até Marte.

Ele não conseguiria literalmente sair do chão, toda a ciência e tecnologia envolvida ainda não havia sido inventada. E isso 4700 anos atrás. Nós só começamos a nos fixar, abandonando a vida nômade e criando a agricultura uns 13 mil anos atrás. O próprio Homo Sapiens só tem 300 mil anos de idade. Toda nossa história e pré-história tem menos de 1/3 de 1 milhão de anos.

Um milhão de segundos são 11 dias. Um bilhão de segundos são 31 anos.

É altamente improvável que a Humanidade, ao menos na Terra exista daqui a 1 bilhão de anos, mesmo que não nos destruamos brigando por quem tem o melhor amigo imaginário, mesmo que consigamos desviar os inevitáveis asteróides matadores de dinossauros, o que existirá será bem diferente da Humanidade que conhecemos hoje.

Mais ainda: Nosso avanço científico e tecnológico é constante. Cleópatra viveu mais próxima do pouso na Lua do que da construção das Pirâmides. Em menos de 60 anos saímos do primeiro avião a Neil Armstrong caminhando em outro corpo celeste.

É simplesmente impossível, mesmo pra autores de ficção científica imaginar uma civilização com um bilhão de anos de existência. O que podemos imaginar, nos baseando na 3ª Lei de Clarke, “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia”, é que uma civilização com um bilhão de anos será capaz de basicamente tudo.

É basicamente impossível imaginar como seremos em um bilhão de anos. (Crédito: MGM)

Manipular matéria e energia em sua forma mais básica, usar Física que não fazemos idéia que exista, controlar forças além de tudo que conseguimos imaginar. Talvez eles considerem uma estrela se expandindo com o final de seu combustível original algo tão trivial quanto prevenir Varíola com uma vacina. Talvez mover planetas seja tão trivial que eles nem se preocupem em “consertar” a estrela.

Johannes Keppler quando escreveu seu livro Somnium não tinha idéia de foguetes, Delta-V, ou da Equação de Tsiolkovsky. Quando morreu em 1630 Kepler não imaginava a importância de sua contribuição, mas provavelmente sabia que quando a Humanidade conquistasse a Lua, o faria de forma bem diferente, mas para que isso acontecesse era preciso sonhar.

A principal contribuição do paper que propõe mover a Terra não é a técnica em si, mas a idéia, a esperança de que a Humanidade conseguirá resolver seus problemas, e se unirá no futuro distante no Maior Projeto de Todos.

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