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É possível levar 800 pessoas em um avião de carga?

A situação no Afeganistão está calamitosa, e o mundo se espantou com a fuga de 800 refugiados em um único avião, mas fica a questão: Seria isso possível?

17/08/2021 às 21:34

O Afeganistão está vivendo sua maior crise humanitária em décadas, com refugiados desesperados tentando escapar do Talibã. Em meio a isso, relatos de que um avião decolou com 800 passageiros. Será possível? Spoiler: Sim, mas para entender precisamos conhecer a Operação Salomão.

Boeing C-17A Globemaster III (Crédito: Ronnie Macdonald / Wikimedia Commons)

Historicamente o povo judeu sempre viveu naquela região do Oriente Médio, com vista pro mar, vizinhos meio complicados mas nada fora do normal. De vez em quando rolava uma diáspora, quando eles eram gentilmente convidados a ir embora. Uma das primeiras foi a Diáspora Assíria, o que dá idéia de quanto tempo a prática é comum.

Durante a Idade Média tivemos talvez a maior diáspora, com populações judaicas migrando para todo canto, se estabelecendo na Península Ibérica, Norte da Europa, Norte da África e reinos do Oriente Médio.

Depois de um certo desentendimento com a Alemanha na Década de 1940, com ajuda da ONU foi fundado oficialmente e em termos modernos o Estado de Israel, e em 1950 foi promulgada a chamada Lei do Retorno (que não tem nada a ver com karma), segundo a qual todo judeu tinha direito de emigrar para Israel e ganhar cidadania.

Vieram judeus de todos os lugares, para a Terra Prometida (e finalmente entregue). Só que um grupo meio diferente gerou uma certa confusão, os chamados Beta Israel.

Missionário Henry Aaron Stern prega cristianismo aos Beta Israel (Crédito: Wanderings Among the Falashas in Abyssinia - Henry Aaron Stern - 1862)

Inicialmente tratados como lendas, esse grupo de judeus se separou das 12 tribos de Israel muito, muito tempo atrás. A primeira menção escrita sobre eles é do Século IX. Fazendo um zig ao invés de um zag, esse grupo desceu pelo Sudão e foi se estabelecer na Etiópia, passando mais de 1000 anos sem nenhum contato com o resto do povo hebreu.

Com o tempo a tribo foi se miscigenando com a população local, e o fenótipo semita foi absorvido, os chamados judeus etíopes são negros como a maioria da África subsaariana, e isso causou uma certa confusão em Israel.

Os judeus etíopes emigravam para Israel, mas seu status era meio incerto, e isso só foi resolvido no final dos anos 1970.

Antiga sinagoga em Falasha, Etiópia, hoje atração "turística". (Crédito: Sam Effron do Brooklyn! / Wikimedia Commons)

Um Conselho Rabínico foi formado e por um bom tempo debateram se os judeus etíopes eram judeus ou não. No final foi decidido que não importa onde se encaixe na escala Pantone, todos são judeus, com os mesmos direitos. Assim se tornou imperativo ajudar os novos irmãos, que passavam por uma guerra civil, perseguição religiosa e fome. Ou como chamam na Etiópia, Terça-Feira.

Aceitos como judeus em 1975, foram organizadas as Operações Brothers, Josué e Moisés. Entre 1979 e 1985, com milhares de judeus fugindo da Etiópia para o Sudão, e de lá para a Europa e depois Israel.

Milhares de Beta Israel foram resgatados, mas muitos preferiram ficar na Etiópia. O que eles não sabiam é que em 1991 um golpe militar iria depor o governo do socialista Mengistu Haile Mariam e a situação ficaria periclitante pros judeus etíopes.

Mengistu Haile Mariam, á direita, junto com um barbudo suspeito. (Crédito: Getty)

Problema: Israel não era lá muito bem-visto pelos países envolvidos. Mengistu estava embarreirando por anos a saída de judeus da Etiópia. Em certo momento ele exigiu trocar refugiados por armamentos.

Sob pressão de diversas organizações, os EUA entraram no circuito, e toparam realizar uma operação em conjunto com Israel, a Operação Salomão. Um empurrãozinho do Departamento de Estado fez com que Mengistu desistisse de cobrar resgate, e deixasse os judeus irem embora. Normalmente Israel apelaria para Jeová mas Ele não tinha mais pragas pra mandar pra Etiópia.

Aqui a História fica meio nebulosa. OFICIALMENTE foi feita uma vakinha com a população de Israel para custear as operações do aeroporto na Etiópia. Na realidade foram coletados US$35 milhões, que serviram de suborno para o futuro ex-presidente Mengistu.

Enquanto isso a maioria dos judeus etíopes estava na região de Gondar, a uns 400Km de distância de Addis Ababa, um êxodo foi formado, com refugiados fugindo de carro, ônibus e muitos a pé. Vários foram roubados no meio do caminho, e várias mortes ocorreram, mas eles chegaram à Capital.

Era hora da segunda parte do plano, que foi mantido top secret: 35 aviões, entre Hercules C130 da Força Aérea Israelense e Boeings 747 da El Al iniciaram uma ponte-aérea entre Etiópia e Israel.

Os Boeings tiveram seus assentos removidos, para comportar mais passageiros. Todos embarcando no avião com a roupa do corpo. Um deles rendeu uma foto que se tornou clássica:

Operação Salomão. 1086 pessoas em um 747 (Crédito: IDF)

Um 747-400 normalmente leva 416 passageiros. Em uma hipotética configuração infernal de assentos de classe econômica em teoria ele pode levar 660 passageiros.

Um 747 pelado da El Al decolou de Addis Ababa no dia 24 de Maio de 1991 levando incríveis 1086 passageiros. Se bem que o mais incrível mesmo é que ele pousou com 1088 passageiros. Pelo menos dois bebês nasceram no avião durante o vôo.

A Operação Salomão durou 36 horas. Em menos de dois dias 14325 judeus etíopes foram resgatados.

Judeus etíopes chegando em Israel (Crédito: Reprodução Internet)

E o Afeganistão?

Desespero é pouco. O Talibã está barbarizando o país, relatos de terroristas invadindo casas de militares do antigo regime, chutando portas de mulheres jornalistas e fichando cada uma, a lista de atrocidades só aumenta, e quem pode está fugindo.

O aeroporto de Kabul se tornou a última fortaleza das tropas aliadas, que estão coordenando a fuga de pessoal diplomático e afegãos que podem ser punidos por colaborar com os EUA nos últimos 20 anos.

O transporte dos refugiados está sendo feito por aviões militares, no caso o Boeing C-17 Globemaster III, o segundo maior avião cargueiro da Força Aérea dos EUA.

Com 53 metros de comprimento, 128 toneladas de peso de 4480Km de autonomia, o C-17 é um avião que consegue ir a qualquer lugar, muito rápido, sua velocidade de cruzeiro é de 1080Km/h.

Um C-17 Globemaster III é projetado para levar 102 paraquedistas. (Crédito: Wikimedia Commons / US Army / Staff Sgt. Jacob Bailey)

No dia 15/8/2021 vazou na Internet um áudio entre um controlador e um piloto de um C-17, confirmando este vídeo de refugiados embarcando num cargueiro americano em Kabul. No tal áudio o controlador incrédulo solta um “Holy Fucking Cow” quando o piloto reporta estar com 800 almas a bordo. Mais tarde, uma impressionante foto confirmando a história.

Oficialmente a Força Aérea diz que havia 640 passageiros, mas isso tem cara de uma leve disfarçada, pra não parecer que violaram tanto assim as normas de segurança, mas palmas pros pilotos que decidiram decolar.

Parte dos aparentemente 800 refugiados no C-17. (Crédito: Reprodução Internet)

No papel um C-17 tem capacidade de levar 77,519 kg de carga, o que dividido por 800 passageiros, dá 96.8Kg por pessoa. Levando em conta que a imensa maioria dos refugiados eram afegãos, e não americanos, 96.8Kg por pessoa dá e sobra.

Nota: Há um pessoal dizendo que a foto é velha, apontando uma foto de 2013 de um resgate feito pela Força Aérea dos EUA nas Filipinas, mas as fotos são diferentes e na atual dá pra ver claramente trajes típicos de países árabes.

A situação no Afeganistão está, como dizem os analistas, “fluída”. Muita coisa ruim vai acontecer. Um dos C-17 que decolou com refugiados levou junto vários sujeitos pendurados. Dois deles caíram no final da decolagem. Outro foi encontrado morto dentro do compartimento do trem de pouso.

No final, tudo se resume a vontade política. Fazendo tudo nas coxas um único avião decola com 800 passageiros. Querendo, você resgata 14 mil pessoas em menos de dois dias. A tecnologia pra isso existe. É só querer.

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