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Samsung e o "kill switch" embarcado em suas TVs

Tecnologia da Samsung que desativa TVs remotamente pode se tornar um recurso para combater o contrabando e o mercado cinza

27/08/2021 às 12:00

A Samsung deixou muita gente com a pulga atrás da orelha nesta semana, ao revelar que todas as TVs de seu portfólio possuem um sistema de bloqueio de funções, basicamente um "kill switch", que permite à empresa transformar qualquer aparelho em um peso de papel, ao desativar todos os seus recursos.

A Samsung diz que esta foi uma medida extrema, usada para bloquear aparelhos que foram roubados de seus próprios depósitos na África do Sul, mas a tecnologia poderia no futuro ser adotada por mais companhias e implementada em gadgets diversos, como uma ferramenta de combate ao contrabando e ao mercado cinza de eletroeletrônicos.

TV 4K Samsung TU8000 (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

TV 4K Samsung TU8000 (Crédito: Ronaldo Gogoni/Meio Bit)

O recurso Television Block Function (Função de Bloqueio de Televisor), que usa o nome fantasia Samsung TV Block para fins de marketing, foi descrito em detalhes na página sul-africana do site Samsung Newsroom, que publica os informes publicitários oficiais da companhia, de campanhas a releases de novos produtos. Ele é um sistema de matching que entra em ação quando a TV suspeita se conecta à internet.

Segundo a Samsung, o TV Block se baseia em um banco de dados que contém os números de série de televisores que foram desviados por qualquer motivo da cadeia normal de suprimentos, como no caso ocorrido na África do Sul, em que contrabandistas afanaram lotes de aparelhos de seus depósitos, durante uma onda de protestos violentos, furtos e saques que irromperam no país em julho de 2021, em razão da prisão do ex-presidente Jacob Zuma.

Toda vez que uma TV da Samsung é conectada à rede, ela entra em contato com o servidor da companhia, que checa se o número de série do aparelho não está presente na "lista de indesejáveis" do TV Block. Caso haja um match, o recurso entra em ação e bloqueia todas as funções do gadget, que deixa de operar completamente, virando um enorme pedaço de plástico e silício sem utilidade.

Segundo a empresa, aparelhos bloqueados só podem ser reabilitados pelo usuário caso ele apresente ao varejista onde adquiriu a TV, ou à empresa através do e-mail [email protected], um comprovante de compra legítimo e, dependendo do país, também uma licença de TV válida, uma taxa para o financiamento de emissoras públicas, em troca do acesso aos sinais de rádio e teledifusão.

A Samsung, através de sua divisão sul-africana, explica que a tecnologia do TV Block está presente em todos os televisores disponíveis hoje no mercado, mas não deu detalhes de quando ele foi inicialmente implementado. Com base em casos similares de bloqueio de aparelhos no passado, é possível que ele venha sendo usado desde que a companhia adotou o Tizen como o SO de suas TVs, em 2015.

Como as TVs bloqueadas na África do Sul estavam todas no centro de distribuição em Cato Ridge, uma cidade a 576 km de distância da capital Pretória, foi relativamente fácil para a Samsung registrar as unidades perdidas e incluí-las no cadastro do TV Block, mas embora a medida tenha sido descrita como sendo extrema, a empresa sul-coreana afirma que o TV Block tem como finalidade combater o mercado cinza de eletroeletrônicos, alimentado por produtos desviados da rota original destinada a revendedores autorizados.

No comunicado, a Samsung é direta:

"O objetivo da tecnologia (TV Block) é mitigar a criação de mercados secundários ligados à venda de itens ilegais, tanto na África do Sul quanto além de suas fronteiras."

O mercado alternativo de gadgets é mantido por rotas alternativas de produtos, que chegam ao consumidor de diversas formas, com o roubo de carga sendo um deles. Métodos para o bloqueio de tais produtos não são exatamente novos, o Intel ME pode inclusive ser usado dessa forma (ele por si só é considerado uma tremenda vulnerabilidade, dadas as suas características), mas a fabricante de processadores nunca implementou tal uso.

A declaração da Samsung, no entanto, levanta a possibilidade do TV Block hoje ser visto como um recurso mais fácil de ser implementado, seja em TVs ou em smartphones e tablets (estes podem ser bloqueados pelas operadoras via IMEI), em outros aparelhos conectados como set-top boxes, dongles, caixas de som, consoles de videogame (já aconteceu inclusive, sob a alegação de "uso indevido" pela fabricante) e em dispositivos da Internet das Coisas, como geladeiras, lâmpadas e etc.

Sendo objetivo, nenhum fabricante gosta de descaminho de mercadorias e do mercado alternativo. A venda desses produtos, sejam vendidos de forma alternativa ou em mercados nos quais eles não foram lançados, não se revertem em lucros para a cadeia tradicional e ao menos no Brasil, as empresas são obrigadas por lei a dar assistência da mesma forma, o que muitas o fazem a contra gosto. A Sony sempre foi a única exceção, que se recusava veementemente a reparar produtos comprados no mercado cinza (leia-se sem nota), ou adquiridos no exterior de forma legal, mesmo com nota.

Com um recurso como o TV Block se tornando mais popular, fabricantes com um processo de logística confiável poderiam rastrear toda a cadeia de distribuição de seus gadgets, identificar os que sofreram descaminho, e bloqueá-los remotamente tão logo eles forem conectados na internet. O dono de uma TV smart até pode usar o argumento de não querer conectá-la nunca, mas como ele faria com um Chromecast, um Xbox Series X ou um iPhone?

Há também implicações acerca da confiabilidade do recurso. Nada garante que uma companhia venha a bloquear indevidamente um produto legal, gerando transtorno desnecessário ao consumidor, ou mesmo ser alvo de um ataque hacker, que poderiam usar a ferramenta remota para inutilizar uma enorme quantidade de produtos, ou para cooptá-los em uma rede de botnets, algo que já aconteceu no passado.

Samsung TV Block (Crédito: Reprodução/Samsung)

Samsung TV Block (Crédito: Reprodução/Samsung)

Para os fabricantes, um sistema que direciona os consumidores a sempre adquirirem eletroeletrônicos através dos canais oficiais, é essencial no sentido de combater o contrabando, o descaminho e o mercado cinza, não importando se este é a única maneira de alguns usuários poderem adquirirem certos produtos. O TV Block e similares servirão para garantir o fluxo constante de capital através da venda de produtos pela cadeia oficial, ao mesmo tempo que desestimularão o interesse por fornecedores alternativos.

Vai depender de quão seguro esses sistemas são e do interesse dos fabricantes em usar uma alternativa atraente para empresas e distribuidoras, mas um tanto antipática para todos os demais.

Fonte: Samsung Newsroom, Digital Trends

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