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O estranho causo do submarino... a vela

O R-14 é um submarino do começo do Século XX, que se salvou graças a uma medida engenhosa: Sem diesel, sem rádio, usaram... velas

27/08/2021 às 12:56

Quando a gente fala de submarino imaginamos logo barcos (sim, submarinos são barcos, não navios) como o Outubro Vermelho ou o Dallas, os mais velhos lembram do Das Boot, em suas infinitas encarnações entre filmes e séries. Forçando um pouco, lembramos até do Civil, digo, SeaView, de Viagem ao Fundo do Mar.

Um submarino a quê??? (Crédito: Paramount)

Um submarino sempre passa a idéia de extrema tensão, o que é verdade por alguns minutos, mas raramente vemos as horas e horas de tédio, ou os momentos de descontração. Submarinistas são zoeiros por natureza.

Uma das tarefas rotineiras mais desafiadoras pra jovens oficiais é equilibrar o submarino depois de submerso, usando tanques de lastro para que ele fique nivelado. Uma zoeira típica, feita com a cumplicidade do Capitão é um grupo de marinheiros fora do horário se serviço correr entre a popa e a proa do submarino, afetando a distribuição de peso e fazendo com que o oficial em treinamento não consiga equilibrar o bicho.

O Capitão dá esporro em cima de esporro, com o coitado suando em bicas, sem entender como aquilo estava acontecendo.

Quanto maior o submarino, mais espaço para zoeiras, nos submarinos nucleares americanos classe Ohio é comum uma competição de carrinhos construídos com peças sobressalentes. Se torna um evento, com o comandante colocando o submarino numa inclinação de 15 graus e as equipes vendo quem percorre o circuito em linha reta mais rápido. O circuito é o corredor entre os 24 tubos lançadores de mísseis balísticos nucleares.

Submarinos menores, menos zoeira e no começo das forças de submarinos, era complicado até existir dentro deles, com atmosfera tóxica (de verdade, não no sentido millenial), calor e falta de banho. Mesmo assim pioneiros pioneiravam, incluindo os marinheiros do USS R-14, em um tempo onde submarinos eram tão experimentais que nem tinham nome.

O USS R-14 (Crédito: Domínio Público)

Era Maio de 1921, o R-14 participava de uma missão de busca e salvamento, atrás do rebocador Conestoga. Eles estavam a quase 200Km da costa do Havaí, quando perceberam que por um erro de cálculo, ficaram sem combustível.

Aqui uma rápida explicação: Submarinos convencionais funcionam com motores Diesel. Quando na superfície, os motores funcionam normalmente. Se submergem alguns metros, podem usar o snorkel para captar ar do exterior, e manter os motores funcionando.

Caso precisem ir mais fundo, eles desligam o motor Diesel e acionam um motor elétrico, que usa energia armazenada em baterias. Quando essa energia começa a escassear, o submarino tem que voltar pra superfície (ou profundidade de snorkel). O motor Diesel então aciona um gerador, que recarrega as baterias.

No caso do R-14, sem Diesel, sem gerador, e as baterias não teriam autonomia para chegar até Pearl Harbor.

Piora? Piora. Os rádios também não estavam funcionando, ninguém sabia onde o R-14 estava nem tinha como se comunicar com ele.

Piora? Piora. Fora isso tudo eles só tinham comida e água pra mais cinco dias.

Partindo do princípio que todo problema tem uma solução, os oficiais começaram a bater cabeça, até que o oficial de máquinas Roy Trent Gallemore teve uma idéia: Transformar o R-14 no mais antigo e confiável meio de propulsão naval: Um barco a vela.

Em modo Full McGyver, ele ordenou que as redes em que os marujos dormiam fossem costuradas formando uma vela. A estrutura das camas foi usada para dar rigidez ao conjunto. O mastro foi adaptado da grua usada pra carregar torpedos.

A única foto da maravilhosa gambiarra do R-14 (Crédito: US Naval Historical Center)

Inflada a vela, depois de algumas horas de trabalho, o R-14 passou a se mover a quase 2km/h, retomando autoridade de leme, significava que podiam efetivamente controlar o barco.

Empolgados, os marinheiros construíram mais duas velas, e logo o R-14 singrava os mares a incríveis 4km/h, com uma vantagem adicional: Como o eixo da hélice estava ligado ao gerador, eles desengrenaram o motor Diesel inoperante e deixaram o fluxo da água girar a hélice livremente, o que por sua vez girava o gerador e recarregava as baterias.

O R-14 carregava as baterias, usava os motores elétricos, e quando eles se esgotavam, continuavam só nas velas, recarregando as baterias e repetindo o ciclo.

Após três dias, o R-14 chegou ao porto de Hilo, exatamente na hora do rango (12:30). Pelos feitos heróicos e criativos do engenheiro Roy Trent Gallemore, o comandante do barco, Tenente Alexander Dean Douglas, recebeu uma comenda.

Gallemore continuou na Marinha, atingindo o posto de Capitão, sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e veio a falecer em 1977, aos 81 anos.

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