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Astra fracassa ao lançar foguete, mas com estilo, muito estilo!

Astra é uma das novas pequenas empresas espaciais. Infelizmente seu último lançamento foi menos que um sucesso, mas compensou em esquistice.

30/08/2021 às 12:58

A Astra já foi chamada de “empresa aeroespacial furtiva”, por muito tempo mesmo sua existência era um segredo, ninguém sabia o que eles faziam dentro de quatro paredes. Para complicar ainda mais a vida dos enxeridos, ao invés de um terreiro no Texas na beira da rua, eles resolveram lançar seus foguetes... do Alaska.

De ladinho é mais gostoso (Crédito: Astra)

A construção dos foguetes acontece nas instalações da empresa na antiga base aérea de Alameda, onde ficavam os nuclear weassels, mas não vazava nada, a segurança dos caras era impressionante.

Fundada em 2016, a Astra é filha de Chris Kemp, ex-CTO da NASA no Centro de Pesquisas Ames e Adam London, fundador da Ventions, uma pequena empresa aeroespacial que construía foguetinhos pequenos para a NASA e o Departamento de Defesa.

Adquirida por Kemp e investidores, a Ventions mudou de foco e cresceu, mas não muito.

A estratégia da Astra é fazer foguetes muito baratos, projetando e construindo tudo in house, incluindo os simpáticos motores Delphin. O objetivo deles, e o de várias outras empresas como a Rocket Labs e a Realivity é abocanhar o mercado de lançamentos pequenos e rápidos, que é o que sobrará depois que a SpaceX dizimar a concorrência com a Starship.

Esse mercado é importante inclusive para o Departamento de Defesa, que quer migrar de vulneráveis satélites de bilhões de dólares para constelações de satélites com menos recursos, mas facilmente substituíveis. Como sempre, em guerra, o truque é fazer seu oponente gastar mais dinheiro pra destruir seu equipamento do que o custo do equipamento.

Foguete 1 da Astra (Crédito: Astra)

A Astra está descobrindo da pior forma que espaço é complicado, espaço é difícil. O primeiro lançamento deles, ainda em 2016 durou 27 segundos, então algo deu errado e o Foguete 1 (a Astra não gasta dinheiro com nomes criativos) acabou caindo no solo.

Em 2018, outro lançamento, dessa vez foram 30 segundos antes do Foguete 2 perder controle e se espatifar próximo à plataforma.

Os engenheiros da empresa pegaram toda a telemetria, todos os dados dos lançamentos anteriores e usaram no projeto do Foguete 3.0, que em teoria pode colocar uma carga de 250Km em uma órbita de 500Km de altitude.

Só não contavam com o azar. Em Março de 2020 o Foguete 3.0 pegou fogo na plataforma, durante procedimentos de remoção do combustível dos tanques, após um “ensaio molhado”, quanto todos os procedimentos do lançamento são realizados pela equipe de terra, menos o lançamento em si.

12 de Setembro de 2020 foi a vez do Foguete 3.1, que decolou mas começou a se desviar do curso, o que forçou o Controle da Missão a comandar sua autodestruição.

Isso não impediu a empresa de prosseguir, estudando os erros dos lançamentos anteriores e aprimorando o software, em Dezembro do mesmo ano a Astra chegou muito, muito perto do sucesso: O Foguete 3.2 decolou sem problemas, cumpriu sua missão, o segundo estágio se separou igualmente sem problemas, mas um problema na mistura de combustível/oxidante afetou a performance do motor.

Como resultado, o segundo estágio ultrapassou a linha de Karman, o limite “oficial” do espaço, mas não conseguiu velocidade suficiente para permanecer em órbita. Foi por muito pouco, o foguete chegou a 7.2Km/s, e precisava de um mínimo de 7.68Km/s.

Em 28 de Agosto de 2021 foi a vez do Foguete 3.3, que tinha tudo pra dar certo, mas não deu.

No momento da decolagem algo deu errado, um painel explodiu e um dos cinco motores Delphin parou de funcionar, desencadeando um dos lançamentos mais estranhos, cômicos e full Kerbal da História da astronáutica.

Com a perda do motor, o foguete se inclinou, até que o valente software de controle compensou a inclinação, exceto que o Foguete 3.3 precisa dos cinco motores para voar.

Motor Delphin, da Astra (Crédito: Steve Jurvetson /Wikimedia Commons)

Existe uma relação muito importante em foguetes: Empuxo/Peso. Basicamente um foguete tem que produzir mais empuxo do que seu peso. É simples de entender. Um foguete de 1000Kg tem um motor que exerce uma força de 1100Kg. O foguete subirá empurrado com uma força equivalente a 100Kg.

Aos chatos de plantão: EU SEI que Kg não é unidade de força.

Um motor Raptor, da SpaceX tem uma relação empuxo/peso de 200 na atmosfera e 120 no vácuo. Isso equivale a um carro ser capaz de puxar ou empurrar 200 outros carros.

Com a perda de um Delphin, a relação empuxo/peso do Foguete 3.3 ficou perigosamente próxima de 1. O foguete da Astra conseguiu algo que é impossível mesmo para um Falcon 9: Pairou no ar por vários segundos, enquanto o software tentava desesperadamente manter o bicho estável.

Aí aconteceu algo que todo jogador de Kerbal está acostumado: O combustível estava sendo consumido, o foguete foi ficando mais leve a a relação empuxo/peso lentamente começou a subir, assim como... o foguete.

Em uma improvável decolagem, o Foguete 3.3 saiu da nuvem de fumaça e leeeeeentamente começou a subir, mas com apenas quatro motores, e tendo gasto boa parte do combustível antes de sequer sair do chão, o fracasso era inevitável.

Depois que o Foguete 3.3 se afastou da área de lançamento, e estava sobre o mar, o controle de missão da Astra comandou a autodestruição do veículo, mas não sem antes vermos um pedaço bem grande da fuselagem balançando ao vento, arrancado durante a explosão inicial.

O lançamento rendeu muitos, muitos memes e gracinhas, mas ao contrário da Blue Origin todo mundo está sendo simpático e compreensivo. Espaço É difícil. A SpaceX só foi ser bem-sucedida em seu 4º lançamento. Historicamente a NASA e a Rússia acumularam toneladas de fracassos e lançamentos constrangedores, antes de aprenderem o caminho das pedras.

Desde Goddard e Von Braun que falhar é mais que uma opção, é um passo obrigatório no caminho do sucesso. Com a Astra não será diferente. Eles têm mais dois lançamentos, um pra Outubro e outro para Dezembro, e mais seis em 2022. Há pouca dúvida de que vão ser bem-sucedidos em chegar em órbita. Antes do Bezos, inclusive.

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