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União Europeia quer soberania tecnológica em semicondutores

Presidente da União Europeia anuncia lei para fortalecer desenvolvimento e impressão locais de semicondutores, para não mais depender da China e EUA

15/09/2021 às 10:56

A União Europeia, assim como outros governos mundo afora, sentiu o baque da escassez de semicondutores, intensificada pela pandemia da COVID-19. Assim como os Estados Unidos, o bloco econômico percebeu tarde demais que depender exclusivamente da China não é uma política muito inteligente, quando esta se mostrou incapaz de suprir as demandas de seus clientes.

Durante o discurso anual do Estado da União, realizado nesta terça-feira (15) em Estrasburgo, França, a presidente Ursula von der Leyen anunciou a implementação de uma nova lei para a UE, chamada "European Chips Act" (Lei Europeia de Chips em inglês), a fim de garantir a soberania digital e tecnológica do bloco, fomentando o desenvolvimento, impressão e comercialização de semicondutores, sem depender de mercados externos.

Ursula von der Leyen, presidente da União Europeia, durante discurso do Estado da União de 2021 na sede do Parlamento Europeu em Estrasburgo, França (Crédito: Getty Images)

Ursula von der Leyen, presidente da União Europeia, durante discurso do Estado da União de 2021 na sede do Parlamento Europeu em Estrasburgo, França (Crédito: Getty Images)

As restrições impostas pelos órgãos de saúde, como forma de conter o avanço da COVID-19 em todo o mundo, afetaram duramente a cadeia de suprimentos de semicondutores. A China, que já enfrentava limitações devido às sanções econômicas da administração de Donald Trump, sob suspeita de espionagem industrial e roubo de tecnologias, foi o primeiro país a investir pesado em desenvolvimento local.

Contudo, o País do Meio e Taiwan são os principais fornecedores de componentes para inúmeras empresas do ocidente, com o último contando com a TSMC, hoje a maior manufatura de processadores ARM, e que também imprime chips x86-64 para inúmeros clientes, como a AMD. Quando a COVID-19 começou a se alastrar pelo leste asiático, toda a cadeia ruiu como um castelo de cartas, causando desabastecimento em cadeia.

Diversas companhias correram para fortalecer seus estoques antes que a corda apertasse, mas o fato é que em pouco tempo, a oferta de semicondutores minguou para todo mundo, de carros a transporte público, segurança e itens de consumo, como smartphones, computadores e consoles de videogame. Como resultado, além da China, os EUA e a Coreia do Sul correram para fortalecer a produção local, a fim de não ficar na mão das empresas asiáticas.

Nos EUA, o presidente Joe Biden anunciou um investimento de US$ 52 bilhões, visando tanto que empresas locais comecem a imprimir seus chips (a Qualcomm é uma companhia fabless), quanto atrair parceiras externas. Sobre este último, a TSMC está em vias de implementar uma linha de montagem no país e entregar os primeiros chips de 5 nm, provavelmente os Apple A15 Bionic para a linha iPhone 13 e o iPad mini 6, ainda neste ano. Já a Coreia do Sul vai injetar US$ 451 bilhões no mercado local de semicondutores pelos próximos 10 anos.

A União Europeia vai pelo mesmo caminho: em dezembro de 2020, o bloco anunciou um grande aporte dos governos locais no desenvolvimento de tecnologia, a fim de fortalecer o setor e diminuir a dependência externa. No entanto, durante o discurso do Estado da União, Von der Leyer revelou uma medida mais drástica, na forma de uma nova lei.

A presidente da UE diz que investir pesado no desenvolvimento local de semicondutores "não é apenas uma questão de competitividade", citando a óbvia perda de espaço no mercado para China e Taiwan, e a compra da ARM pela Nvidia, que está sendo questionada por China, Reino Unido e Comissão Europeia e pode ou não ser barrada, mas também uma questão de "soberania tecnológica" e digital.

Von der Leyen diz que enquanto a demanda global por chips explodiu nos últimos anos, a capacidade de oferta das empresas europeias encolheu, por perda de incentivos e capital, e no que tange a ARM, a perda de controle de uma empresa que até o Brexit, era uma das joias do continente. Há de convir que o Grupo SoftBank, a última controladora da companhia, nunca a removeu do Reino Unido, e embora a Nvidia afirme que fará o mesmo, muitos não acreditam nisso.

A dependência de componentes estado-da-arte para diversos fins, providos principalmente pela cadeia de suprimentos asiática, e em menor grau por tecnologias e patentes americanas, é um cenário que a União Europeia não mais está interessada em sustentar. A "European Chips Act" visa combater essa deficiência, estabelecendo por força da Lei uma junção entre todo o esforço de desenvolvimento e produção de componentes.

A ideia é ligar entre si todas as companhias europeias do setor, de modo que estas, os governos dos países-membros e o parlamento europeu ajam como um organismo sincronizado, em todas as frentes (pesquisa, design, testes, impressão e comercialização), atendendo assim a totalidade (ou pelo menos a maior parte) da demanda dos consumidores finais, comerciais e estatais do bloco, e posteriormente, estabelecer a região como um competidor global em igual capacidade aos EUA, China e Taiwan.

A presidente da UE cita que o plano envolvendo a European Chips Act terá uma aproximação similar ao sistema GALILEO, proposto originalmente em uma época em que muitos consideravam o norte-americano GPS como mais do que suficiente. Hoje, a plataforma de geolocalização europeia possui cobertura global, atende mais de 2 bilhões de celulares em todo o mundo, e diferente de todas as demais, é de uso livre e exclusivamente cívico-comercial, não podendo ser empregada em aplicações militares.

Para Von der Leyen, a lei permitirá que a UE "seja ousada mais uma vez", visando a liderança global em semicondutores, sendo livre para fornecer seus designs para qualquer nação interessada em seguir suas determinações. Por fim, o projeto é voltado a "criar condições para proteger os interesses da Europa" e "posicionar firmemente o bloco no cenário geopolítico", sendo capaz de bater de frente com as gigantes de componentes.

Parlamento Europeu em Estrasburgo durante plenária em 2014 (Crédito: Diliff/Wikimedia Commons)

Parlamento Europeu em Estrasburgo durante plenária em 2014 (Crédito: Diliff/Wikimedia Commons)

O plano de crescimento possui três etapas:

  1. Definir uma estratégia de P&D, centrada em companhias como a belga IMEC, a francesa CEA-Leti e a alemã Fraunhofer-Gesellschaft, entre outras;
  2. Estabelecer um plano coletivo para incrementar as capacidades da produção local de semicondutores e chips;
  3. Criar parâmetros para planos de colaboração e parceria com governos e companhias externas ao bloco.

O plano realisticamente não buscará produzir 100% localmente, conforme afirma Thierry Breton, comissário para o mercado interno da UE. Segundo sua visão, a lei permitirá criar um meio para que o continente seja capaz de se estabelecer como um competidor, mesmo que terceirize parte do trabalho para companhias externas. A principal meta é tornar o bloco capaz de andar por si só, ao invés de depender exclusivamente do que acontece na China ou com a ARM.

Com a maioria dos países buscando se tornar mais independentes da cadeia de suprimentos chinesa, faz sentido a União Europeia também se mexer para não ficar atrás de todo mundo, passando a ser fornecedora e deixando de ser uma mera cliente. Se isso vai dar certo, só o tempo dirá.

Fonte: European Commission, TechCrunch

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