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Ascensão e queda das revistas digitais

As revistas digitais entraram e saíram de moda várias vezes. Agora com as impressas morrendo, o mercado está escolhendo uma terceira via.

05/10/2021 às 15:56

As revistas digitais tecnicamente ainda existem, mas são uma sombra do que foram, e do que poderiam ter sido. Elas são apenas mais uma baixa na estrada, vítimas de nosso incessante desejo de viver o futuro.

[Imagem genérica de site de fotos gratuitas] (Crédito: Karolina Grabowska via Pixabay)

O conceito de “futuro”, claro, muda de tempos em tempos, e o grande público adora umas modinhas, que ele entende como a nova grande revolução. Algumas idéias são perenes, como os dirigíveis, que de tempos em tempos tentam emplacar com alguma modificação, que não resolve os problemas intrínsecos que os tornam uma solução inviável.

Carro voador, idem.

Outras idéias futuristas aparecem e somem de vez, como o videofone. Mesmo com o Facetime e ligações de vídeo nos Androids da vida, tirando avós ninguém usa chamada de vídeo no dia-a-dia, a não ser em chamadas pré-combinadas. Ninguém quer passar pelo efeito Jane Jetson.

Uma dessas idéias futuristas é a chamada Multimídia, termo cunhado em 1966 pelo artista Bob Goldstein. Em essência, e uma forma de arte que associa mais de uma mídia a uma mesma obra, de forma interativa.

Claro que a Apple tentou morder uma fatia desse mercado (Crédito: Reprodução Internet)

Um filme, com sua trilha sonora, não é um exemplo de “multimídia”, pois o espectador não tem controle sobre a trilha, já um vídeo onde você pode escolher em um menu qual trilha sonora usar, é multimídia.

O conceito ficou restrito a apresentações em museus e exposições por muito tempo, computadores eram limitados demais para rodar aplicações multimídia, mas quando surgiram os CD-ROMs, subitamente tínhamos 640MB de espaço, dava pra armazenar o MUNDO ali, e logo enciclopédias como a Encarta e a Grolier pareciam infinitas, um verdadeiro Guia do Mochileiro das Galáxias, com seus videoclips minúsculos e curtinhos, centenas de arquivos de som e milhares de verbetes.

Com o tempo foram surgindo mais aplicações, com grande foco em atividades educativas (no bom sentido, mas o mau também). Eventualmente chegamos nas revistas digitais, e o Brasil teve as suas. A primeira, lançada em 1994 foi a Neo Interativa. Usando como ferramenta de criação o Toolbook da Asymetrix, a Neo Interativa trazia em cada edição 30 minutos de vídeo, 30 minutos de narração, 300 fotos e 144 páginas de texto. E mulher pelada, claro, no primeiro número veio um encarte da Trip, mas não se anime. 315 x 360.

Claro, pros padrões de hoje os vídeos tinham uma qualidade pífia, 160x120 15fps, mas em tempos pré-internet era incrível acessar tanto conteúdo.

A Neo era um produto de nicho, exigia um computador multimídia, numa época em que pouca gente tinha CD-ROM e placa de som. Tanto que revistas digitais eram vendidas em lojas de informática, ainda não havia chegado a era das famigeradas revistas com CD Grátis que a gente comprava e jogava fora a revista na hora.

Como era um tempo pré-internet (1994 foi o ano em que a Embratel iniciou seus testes de acesso comercial, distribuindo 5000 senhas) a Neo Interativa era uma obra isolada, sem links externos.

O preço era de 37 URVs, que equivalia a meio salário-mínimo, mas isso não quer dizer que a revista era imensamente cara, apenas o salário-mínimo na época era uma piada de mau gosto. Segundo a calculadora do Banco Central, isso equivaleria a R$332,95 nos valores de hoje, mas definitivamente ela não era tão cara. Hiperinflação é um negócio confuso, crianças.

A Neo Interativa era em 640x480, sem escalonamento. (Crédito: Cardoso Archaeology)

A Neo Interativa esbarrou no mesmo problema de todas as revistas digitais: Seu custo de produção era muito caro, uma coisa é editar uma revista normal, em papel, outra é adicionar custos de produção audiovisual, programação, prensagem de CDs...

Com a popularização da Internet as revistas digitais perderam o sentido, viraram sites, e assim permaneceram até o surgimento do iPad. Quase imediatamente ficou óbvio que um tablet era uma ótima forma de consumir conteúdo, e um iPad era feito para exibir imagens e vídeos em excelente qualidade.

Várias startups surgiram promovendo o formato. Players tradicionais do mercado editorial embarcaram no hype, e investimento pesado foi feito. Por volta de 2010 conglomerados editoriais com o Condé Nast anunciavam versões digitais de seus títulos, como Wired, GQ, Vanity Fair, etc para iPad.

Sir Richard Branson também lançou sua revista, que não foi exatamente bem-recebida. As reclamações eram as de sempre: Interface confusa e anúncios intrusivos. Uma coisa é um anúncio em uma revista impressa, mas se um comercial de carro começa a tocar no meio da sua leitura, já é demais.

A experiência com as revistas digitais era impressionante e frustrante ao mesmo tempo. Visualmente era um espetáculo, ver capas animadas, gráficos que ampliavam a informação dos artigos, imagens interativas e vídeos. Era uma experiência que o papel não tinha como proporcionar.

Do outro lado, cada revista tinha sua própria interface. Designers criativosos criavam elementos de interface que a gente tinha que entrar em modo Holmes pra conseguir decifrar a funcionalidade.

Aos poucos as revistas digitais foram perdendo texto e ganhando firulas, você queria conteúdo, recebia efeitos visuais.

Também havia o problema do download. A sincronização tinha que ser feita pelo iTunes, que era leeento. Em uma época que ninguém tinha banda larga, o download de um exemplar podia levar a maior parte de uma hora. E também havia o problema do armazenamento.

O primeiro iPad, em 2010 vinha com 16GB de armazenamento. As revistas digitais costumavam ter mais de 300MB, por exemplar. 600MB não era raro. Baixar isso já era complicado, achar espaço entre vídeos, aplicativos, livros e músicas, era pior ainda.

Do ponto de vista comercial, os publishers perceberam que caíram em um dilema: O público já assinava as revistas físicas. Esses assinantes relutavam em pagar extra pelas versões digitais. Se as editoras liberassem acesso aos assinantes estariam aumentando suas despesas com zero aumento de receita.

A Wired era magnífica no iPad, mas a edição impressa ainda era muito mais prática. Ainda é. (Crédito: Reprodução Internet)

O público-alvo se tornou um subconjunto de donos de iPad que se interessam por aquele conteúdo específico, mas não assinam a revista em papel.

Na parte da produção, rapidamente ficou evidente que não era só uma questão de puxar os arquivos do Pagemaker e republicar no iPad. Editar revistas digitais era muito, muito mais complicado. Todos os meses eles tinham que criar duas revistas, uma impressa, outra digital.

Com o agravante que a matéria que está resolvida no impresso, no digital precisa de infográficos, animações, narração e todas as firulas que “vendem” as revistas digitais.

Mercado editorial já é complicado, você sofre extrema competição o tempo todo. Quando seu público é limitado a quem tem um gadget de mais de US$300, e seu preço unitário não pode ser mais alto do que uma revista vendida em banca, está pronta a receita para o desastre.

E o desastre chegou. Os projetos foram aos poucos abandonados. Demissões em massa e downgrades devastaram as redações.

Muitas revistas digitais deixaram de existir, outras reduziram drasticamente as firulas, mesmo títulos como a Wired, que era magnífica em sua edição digital, hoje basicamente apenas replica as matérias da edição impressa. No Google Play a app da Wired tem cotação 1.5 estrelas, o que é até injusto, é um visualizador de conteúdo decente. Mas só isso.

Revistas digitais são oferecidas como brindes por operadoras de celular e serviços como a Amazon Prime, e basicamente ninguém acessa. A experiência, que sempre usa algum leitor esquisito programado com má-vontade em Java é como ler um PDF, mas piorado.

Superinteressante, grátis na Amazon Prime. Meh. (Crédito: App do Kindle)

Do outro lado, as revistas físicas estão enfrentando o fim de uma era, no mais puro darwinismo, ou se adaptam, ou morrem. Várias morreram, outras tomaram a decisão radical de encerrar suas edições impressas e migrar para a versão online.

Só que não são mais revistas digitais, nem são versões em PDF de seus artigos impressos. Títulos como a Marie Claire, Vanity Fair e a Oprah Magazine agora focam em seus sites, com conteúdo preparado para ser lido de forma confortável em uma variedade de telas, de PCs a celulares.

Ironicamente as revistas deram a volta completa, e depois de comprovar mais uma vez que revistas digitais não funcionam, assumiram como tábua de salvação o formato que a mídia impressa tantas vezes declarou estar morto:

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