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Rússia aumenta controle sobre a internet, com ajuda de Apple e Google

Governo da Rússia forçou Apple e Google a removerem app do opositor Alexei Navalny, preso desde janeiro de 2021, de suas lojas digitais

06/10/2021 às 10:43

A Rússia vem a um bom tempo buscando meios de aumentar o controle sobre a internet, de uma forma ligeiramente diferente do método usado pela vizinha China. Enquanto Pequim ergueu o Grande Firewall e barrou muitos sites, apps e serviços externos, e focando em desenvolver versões próprias, a administração de Vladimir Putin é um pouco mais permissiva a quem é de fora, desde que dancem conforme a música.

Um exemplo disso ocorreu em setembro, quando Apple e Google removeram de suas lojas de dispositivos móveis o app de votação do líder da oposição Alexei Navalny, preso desde janeiro de 2021, após pressão do Kremlin.

Vladimir Putin, presidente da Rússia, durante transmissão online ao povo da Crimeia em março de 2021 (Crédito: Alexey Druzhini/Sputnik/AFP)

Vladimir Putin, presidente da Rússia, durante transmissão online ao povo da Crimeia em março de 2021 (Crédito: Alexey Druzhini/Sputnik/AFP)

Não é segredo que Putin, assim como Xi Jinping, busca exercer total controle sobre a internet em suas fronteiras, mas os métodos adotados por ambos líderes diferem. A política exercida pelo Partido Comunista da China, do qual o presidente do país também é secretário-geral, visa um quase que total isolacionismo em prol de apps, sites e serviços internos, em que tudo é controlado e monitorado pelo Estado.

Nesse modelo, poucas são as companhias externas que conseguem prosperar. A Apple é uma delas, embora tenha feito concessões diversas para garantir seu espaço, de forma a lucrar com as vendas de seus gadgets no mercado chinês, mesmo que tal atitude fosse de encontro aos valores que tanto preza. Money talks afinal, e o dinheiro chinês é tão verde quanto o de qualquer outro lugar do mundo.

O Google, sendo uma empresa essencialmente de serviços, sofre bem mais na China. A maior parte de seus produtos, do YouTube ao Gmail, o Search e a Play Store foram completamente banidos, e a companhia tenta comer pelas beiradas até hoje.

Na Rússia, as coisas são um pouco diferentes. O governo monitora e autoriza o que pode ser publicado, e já comprou briga com diversos detratores, como Pavel Durov, fundador e CEO do Telegram, ferramenta que foi oficialmente banida mas que ainda é usada no país via VPN, inclusive por membros do governo.

O governo Putin entendeu que melhor do que fechar, é jogar junto para atrair companhias externas, porque de dinheiro todos gostam. A Apple, embora afirme defender a privacidade de seus usuários e os direitos humanos acima de tudo, é bem mais flexível quando se trata de fazer negócios em países com administrações mais fechadas.

A posição oficial (cuidado, PDF) da maçã é bem clara: "em países onde a legislação nacional e os direitos humanos diferem, nós (a Apple) seguimos o padrão mais elevado", o que pode significar qualquer coisa, inclusive qual abordagem é mais lucrativa para a companhia.

O código de conduta corporativo do Google, por sua vez, tem hoje como lema "organizar a informação global e torná-la universalmente acessível e útil", tendo abandonado o "don't be evil" faz tempo.

O argumento usado por Apple e Google, visando a flexibilização de seus valores em prol de atuarem em países que defendem políticas que batem de frente com seus valores, é uma alusão ao conceito chamado utopismo cibernético/utopismo digital (cyber-utopianism no original em inglês), que defende a propagação dos sistemas de comunicação digitais, não importa de que forma isso seja feita, para promover a inclusão e promover mudanças na sociedade, tendo a web como peça central e força de disseminação da democracia e direitos iguais.

Claro, o termo "utopia" já deixa claro que tal ideal é quase irreal, e o conceito como um todo é considerado uma ilusão, basta observar como medidas de restrição ao acesso são tratadas dependendo de quem as promove, seja a China, a Rússia, os EUA ou a União Europeia, por governos rivais, apoiadores e detratores. A onda do cancelamento digital de indivíduos também é um exemplo, com grupos "passando pano" para aqueles com os quais se alinham.

Apple Store localizada na loja de departamentos TsUM (ЦУМ), em Moscou (Crédito: A. Savin/Wikimedia Commons)

Apple Store localizada na loja de departamentos TsUM (ЦУМ), em Moscou (Crédito: A. Savin/Wikimedia Commons)

O utopismo digital também não passou no teste na Rússia. Google e Apple, entre outras empresas, são permitidas a operarem com seus serviços no país, desde que se adequem às determinações do Roskomnadzor, o departamento federal responsável pela regulamentação dos serviços de mídia e telecomunicações da Rússia, ou seja, o censor. O que o Kremlin mandar deverá ser seguido, e quem não se enquadrar pode responder de n formas.

Foi o que aconteceu recentemente, com as eleições para o Legislativo se aproximando. O grupo de apoiadores de Alexei Navalny, formado por membros exilados da Rússia because reasons (além do líder opositor, vários outros foram presos por conspiração), mantinham um app voltado a relacionar quais candidatos estavam mais bem posicionados nas pesquisas por região, como forma de incentivar a adesão dos eleitores àqueles que fariam oposição ao partido Rússia Unida, a atual situação.

No dia 17 de setembro de 2021, o primeiro dia das eleições, o app foi limado da Apple App Store e Google Play Store, com ambas empresas tendo cedido às pressões do governo russo. As medidas para regular a internet e controlar a eleição começaram obviamente com a prisão de Navalny e seus apoiadores, mas em julho, como forma de angariar a "cooperação" das gigantes tech, Putin aprovou uma lei exigindo que qualquer empresa digital externa, que tivesse um total superior a 500 mil usuários diários, deveria ter escritórios locais e empregados russos.

Na sequência, o governo ameaçou processar os funcionários locais da Apple e do Google, reduzir severamente o tráfego reservado aos serviços de ambas empresas, e proibir os serviços Apple Pay e Google Pay, num caso clássico de "uma mão dá, a outra tira". No fim, as companhias cederam às exigências e pulverizaram o app de Navalny, sob o risco de que as tensões escalassem ainda mais e os prejuízos se acumulassem.

Olhando de fora, o sistema da internet Rússia parece ser tão fechado quanto o da China, mas o governo é mais permissivo com quem quiser fazer dinheiro no país, desde que os interessados sigam as regras, que se resumem a não contrariar o czar presidente Vladimir Putin, que assim como seu vizinho ursi-, digo, premiê Xi, é quem detém a palavra final.

Fonte: The Conversation

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