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A breve, bela e fugaz Era do PDA

Por um tempo ter um PDA era essencial, eram ferramentas fundamentais pra agilizar nossa vida. Então, num piscar de olhos, sumiram para sempre

29/10/2021 às 0:36

O PDA, sigla em inglês para Assistente Pessoal Digital é um tipo de gadgets que hoje está mais extinto que o Dodô, que o VHS, que o Trio Los Angeles, mas por um breve período dominou o mundo, entre a popularização dos celulares e o surgimento dos smartphones.

Ainda falta a câmera digital. Era muita tralha que a gente carregava! (Crédito: Carlos Cardoso / MeioBit)

A rigor, e aqui eu contrario a Wikipedia, os primeiros PDAs surgiram nos Anos 80, eram as famosas “agendinhas”, equipamentos tornados viáveis com a popularização dos microcontroladores. Basicamente eram calculadoras com funções extras, como agenda de telefones, eventos e notinhas curtas.

Em uma época em que todo mundo tinha uma caderneta de telefones física, em papel, era extremamente cool e atraente ter uma agendinha eletrônica. Quer dizer, eu achava, as meninas da minha escola estranhamente não pensavam assim.

Essa era uma das mais caras, a maioria das agendinhas não tinha essa imensidão de 32KB. (Crédito: Reprodução Internet)

Em 1984 a Psion lançou o Organiser, que na prática era uma versão mais aprimorada das agendinhas, com capacidade de programação e preço de gente grande, US$440 em valores atuais. Não que com 4KB de RAM desse para programar muita coisa, mas ele abriu o caminho para propostas mais sofisticadas, como o Apple Newton, que em 1993 foi o primeiro PDA a ser chamado de PDA.

O Newton em seus primeiros modelos vinha com 640KB de RAM, que como todos sabemos é mais que suficiente para qualquer um. Ele também tinha reconhecimento de escrita, várias aplicações nativas e um salgado precito de US$900, ou US$1708 em valores de 2021. Obviamente o Newton não se popularizou.

Nokia Communicator 9000. Acredite, era horrendo. (Crédito: textlad / Wikimedia Commons)

Vários PDAs surgiram desde então, mas todos ou atendiam nichos específicos, como vendedores, ou eram caros e restritos, como o Nokia Communicator, que era um PDA E um telefone celular, uma combinação que só voltaria a aparecer muito anos depois.

O primeira PDA das massas foi o Palm Pilot 1000 (1996), que evoluiu para o Palm Professional (1997). Com 1MB de armazenamento, funcionando com duas pilhas e autonomia de 20 dias fácil, o Palm era a companhia perfeita para o PC.

Palm Pilot 1000. Externamente idêntico ao futuro Professional. (Crédito: 80sCompaqPC / Wikimedia Commons )

O Palm Desktop era uma aplicação que reunia seus e-mails, agenda, anotações, contatos telefônicos, instalação e remoção de aplicações, tudo em um só lugar. Sincronizar o Palm era tão simples quanto colocar o bichinho no berço, ligado ao PC via porta serial, e apertar um botão.

Mas afinal, para quê serve um PDA, se ele não tinha nenhuma conectividade?

Bem, pequeno gafanhoto, era uma época em que NINGUÉM tinha conectividade, WIFI não havia sido inventado, o primeiro uso em grande escala foi a Apple, em 1999, mas eles batizaram de AirPort e ninguém sabia que diabos era aquilo.

Imagine que você pode sair de casa, ler e responder seus e-mails no ônibus, escrevendo com uma canetinha, de forma muito mais confortável do que com um teclado. Você consulta sua agenda de compromissos, faz anotações de última hora, joga uns joguinhos que podem ir de Tetris a adventures e xadrez, e quando chega no trabalho, sincroniza no seu PC de lá, e todas as alterações feitas são subidas.

Palm Desktop. Não parece mas na época essa interface era excelente. (Crédito: Reprodução Internet)

A graça do Palm era que ele era um PDA voltado pra... todo mundo. Não era um equipamento rígido e careta para o mundo corporativo. Quer dizer, podia e era muito usado em empresas, mas era possível rodar todo tipo de bobagem nele, até simulador de tricorder de Star Trek existia.

Em 1996 surgiu o Palm III, com 2MB de RAM, 2MB de memória flash e mais importante, uma porta serial infravermelha. Com ela era possível se comunicar com outros Palms, trocar informações e até jogar jogos multiplayer, ou dual player, pra ser mais preciso.

A conectividade estava começando a se tornar uma necessidade, e a Palm tentou um caminho extremamente ousado: Lançou o Palm VII, uma versão do Palm III com acesso à rede Mobitex, usada para comunicações como pagers two way. O problema: A Palm tinha que negociar acesso às redes existentes, ou montar sua própria rede, o que estava além da capacidade financeira da empresa.

Os usuários corporativos gostaram do conceito, mas os domésticos, bem, a gente não estava pronto para pagar assinatura só para conectar o Palm na rua.

Nessa época o ecossistema da Palm era imenso, havia PDA Palm sendo produzido por um monte de gente, da IBM à Lenovo, Qualcomm, Samsung, Garmin e principalmente a Sony.

Enquanto a Palm se acomodava em seus louros, não mexendo quase nada no hardware de seus dispositivos, a Sony entrou com os dois pé na porta, lançando PDAs PalmOS com recursos mais e mais avançados, incluindo dobrando a resolução original, de 160x160 para 320 x 320 (ok tecnicamente a quantidade de pixels quatruplicou) e introduzindo (ui!) COR.

Sony Clié NX70V. Continua futurista até hoje. (Crédito: Reprodução internet)

Eu tive um Sony Clié NX70V (lançado em 2002) e era verdadeiramente futurista. A tela girava, vinha com uma câmera VGA numa época em que celulares ainda eram pouco mais que uma extensão sem-fio do telefone que você tinha em casa.

O Clié também tinha um chip para reprodução de MP3, você enchia um Memory Stick com músicas, e ouvia o dia inteiro. Eu cheguei a comprar um Memory Stick WIFI pro meu, mas descobri que ninguém no Brasil tinha WIFI ainda e me senti idiota como o sujeito que comprou o primeiro videofone.

Finalmente mexendo o traseiro, a Palm começou a lançar produtos mais bonitos e avançados. Em 2003, depois que meu Clié foi assassinado por uma criatura ciumenta, eu peguei um Palm Tungsten T3, um PDA com 64MB de memória, processador de 400MHz e tela de 320x480, colorida. Com slot para cartão SD e suporte por hardware para reprodução de MP3, o T3 era um “iPod” compacto, além de PDA. E com suporte a Bluetooth e Infravermelho, bem mais amigável em conectividade.

Correndo por fora a Microsoft lançou em 1996 o Windows CE, uma versão reduzida de seu sistema operacional, para ser usado em dispositivos mobile. O CE prometia mais robustez e grande integração com as ferramentas corporativas da empresa.

Dell Axim X51v. Como quase todo gadget excepcional da Dell, foi imediatamente cancelado. (Crédito: Carlos Cardoso / MeioBit)

Por MUITO tempo o Windows CE foi motivo de zoação entre a comunidade palmiteira, ele realmente era pesado e desajeitado, mas aos poucos a idéia de ter um MS Office de verdade rodando num PDA começou a ficar atraente.

Assim como o Sony Clié, meu Dell Axim X50v (lançado em 2004) é uma máquina impressionante até hoje. Com GPU integrada, 64MB de RAM, 128MB de Flash e resolução VGA, o bicho era um avião. Com Bluetooth, WIFI, slots para cartão SD E Compact Flash, dava pra ver filmes no Dellzinho.

Só que o tempo estava correndo. Os nerds já estavam comprando aparelhos Symbian para usar com seus PDAs. Em 2005 em migrei do Motorola V3 para o Nokia N-Gage (não me julguem) e descobri que um monte de coisas que eu fazia no Palm, podia fazer direto no Symbian, incluindo acessar MSN e ICQ, com o Gravity.

Em 2004 durante uma viagem aos EUA eu comprei um cartão WIFI pro meu Palm e um hub Airport pra um amigo. Eu era tão prego que não sabia que AirPort e WIFI eram a mesma coisa. PS: Note os preços: Imagine dar R$730 num cartão WIFI. (Crédito: Carlos Cardoso / MeioBit)

A própria Palm, vítima de sua inércia, sofreu horrores. Na virada do Século eles tinham 80% do mercado de PDAs, não fizeram nada pra manter isso, foram devorados pela concorrência e de nada adiantou a série de fusões e aquisições, que começaram em 1995 com a US Robotics comprando a Palm, se fundindo com a 3Com em 1997 e a 3Com separando de novo a Palm alguns meses depois.

Em 2002 a Palm se dividiu em dias empresas, a Palmsource, que cuidaria de software, e a Palm, que faria hardware. A Palm se juntou à Handspring, fundada pelos fundadores originais da Palm, que haviam deixado a empresa, e formaram a PalmOne. Confuso ou quer mais?

Agora a grande facada nas costas: Em 2004 a Palm lança o Palm Treo 700w, um smartphone Palm rodando... Windows Mobile. Todos os fãs da empresa (eu sei) se sentiram traídos, por anos apoiaram a Palm, para ver o PalmOS ser negligenciado e o sistema do inimigo ser adotado.

Se serve de consolo, foi muito pouco, muito tarde. O mercado estava inundado de smartphones, a Nokia lançava um modelo atrás do outro, aparelhos com Windows Mobile também enchiam as prateleiras.

O PDA já não fazia mais sentido. Smartphones como o Blackberry tinham todos os recursos de um PDA, incluindo conectividade nativa, os Windows Mobile supriam quem precisava de software “de verdade”, os Symbians atendiam o resto, e os fabricantes lançavam todo tipo de modelo, com experimentos de design que iam do horrendo ao sublime.

Um iPhone do lado de um Palm Treo. A impressão é que há dez anos de diferença entre eles (Crédito: Carlos Cardoso / MeioBit)

Entre pegar um PDA puro e um smartphone com os mesmos recursos E conectividade de celular, ninguém em sã consciência optaria pelo PDA. Sua morte veio mais rápido ainda do que a das câmeras de filme quando da chegada das digitais, ou a morte das câmeras digitais amadoras, quando os celulares alcançaram a mesma qualidade.

Em Maio de 2007 a Palm deu sua última cartada, com o Palm Treo 755p, um smartphone rodando PalmOS, com teclado físico, câmera de 1.3 Megapixels e a velha resolução de 320 x 320.

Em Junho de 2007 a Apple lançou o iPhone.

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